| Introdução |
A produção global de carne aumentou rapidamente nos últimos 50 anos. O seu consumo supera as diretrizes dietéticas ideais em muitas regiões e está correlacionado com um maior ônus de doenças não transmissíveis, incluindo diabetes tipo 2. Evidências de meta-análises demonstraram uma associação positiva entre a ingesta de carne vermelha, tanto processada quanto não, e o risco de diabetes tipo 2. No entanto, algumas revisões chegaram a conclusões contraditórias sobre a certeza das evidências nesta área.
O consumo de aves muitas vezes é considerado uma alternativa potencialmente mais saudável à carne vermelha e processada; no entanto, a sua associação com o risco de diabetes tipo 2 foi caracterizada em apenas alguns estudos, com resultados inconclusivos.
Além da heterogeneidade nos achados publicados, as evidências existentes mostram um desequilíbrio geográfico. A maioria dos estudos é de populações nos EUA e na Europa, com poucos da Ásia e outras regiões, enfatizando a necessidade de avaliação em populações diversas.
Para sanar essas dúvidas, Li e colaboradores (2024) realizaram uma meta-análise para investigar a associação entre o consumo de carne e a incidência de diabetes tipo 2.
| Métodos |
Para a meta-análise, foram utilizados dados de 31 coortes que participaram do projeto InterConnect. As coortes eram da região das Américas (n=12) e do Mediterrâneo Oriental (n=2), Europa (n=9), Sudeste Asiático (n=1) e Pacífico Ocidental (n=7). O acesso aos dados dos participantes individuais foi fornecido por cada coorte. Para a inclusão, os participantes deveriam ter 18 anos ou mais e dados disponíveis sobre consumo dietético e incidência de diabetes tipo 2, sendo excluídos aqueles que tinham diagnóstico de qualquer tipo de diabetes na linha de base ou dados ausentes. Razões de risco (HRs) específicas de cada coorte e intervalos de confiança de 95% (ICs) foram estimados para cada tipo de carne, ajustados para potenciais fatores de confusão (incluindo IMC), e os resultados foram agrupados utilizando uma meta-análise de efeitos aleatórios, com meta-regressão para investigar possíveis fontes de heterogeneidade.
| Resultados |
O estudo incluiu dados de 1.966.444 indivíduos de 31 coortes participantes. Dessas, seis foram compostas exclusivamente por mulheres, enquanto três por homens apenas. Ademais, dessas 21, 6 e 4 coortes recrutaram participantes com idades medianas entre 40 e 60, com menos de 40 e com 60 anos ou mais, respectivamente.
O consumo de carne variou conforme a população. A ingestão mediana de carne vermelha não processada variou de 0 (IQR 0–24) g/dia na coorte de Bangladesh a 110 (47–190) g/dia na dos Estados Unidos. Para carne processada, o consumo variou de 0 g/dia (0–2) g/dia em Isfahan e 0 [0–28] g/dia em Porto Rico a 49 (20–58) g/dia na Alemanha. O consumo de aves variou de 0 g/dia (0–0) em de Bangladesh a 72 (24–100) g/dia no Brasil.
Durante um acompanhamento mediano de 10 (IQR 7–15) anos, foram identificados 107.271 casos incidentes de diabetes tipo 2 de acordo com a definição primária. O consumo de carne vermelha não processada esteve positivamente associado à incidência de diabetes tipo 2, com uma razão de risco (HR) por 100 g/dia de 1,10 (IC 95% 1,06–1,15; I²=61%). Essas associações também foram observadas para o consumo de carne processada, com um HR por 50 g/dia de 1,15 (1,11–1,20; I²=59%), e para o consumo de aves, com um HR por 100 g/dia de 1,08 (1,02–1,14; I²=68%).
As associações positivas entre carne vermelha não processada e processada com a incidência de diabetes tipo 2 foram significativas na região das Américas, na europeia e na do Pacífico Ocidental e leste da Ásia. Essas associações não foram evidentes na região do Mediterrâneo Oriental e no Sul da Ásia. A associação positiva entre o consumo de aves e a incidência de diabetes tipo 2 foi significativa na região europeia, enquanto não apresentou significância em outras regiões.
A heterogeneidade entre as coortes foi observada em todas as associações entre carne e diabetes tipo 2. Não houve evidências de que essa fosse explicada por idade, sexo ou IMC. A associação da carne vermelha não processada com o diabetes tipo 2 foi 8% mais fraca nas coortes europeias do que nas coortes americanas. Também houve uma sugestão de que as associações eram mais fortes em coortes com um maior número de casos de diabetes tipo 2.
A associação entre o consumo de aves e o diabetes tipo 2 foi mais fraca do que a observada para a carne vermelha não processada e a processada, mas ainda sugeriu uma taxa ligeiramente mais alta de diabetes tipo 2. Além disso, ao substituir o consumo de carne processada, tanto o consumo de carne vermelha não processada quanto o de aves foram associados a um menor risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 nas análises de substituição alimentar modeladas.
Em conclusão, um maior consumo de carne foi associado a uma maior incidência de diabetes tipo 2 em uma meta-análise. Os seus resultados apoiaram a ideia de que a redução do consumo tanto de carne vermelha não processada quanto de processada poderia beneficiar a saúde pública ao diminuir a incidência de diabetes tipo 2. A incerteza persiste em relação à associação positiva entre o consumo de aves e a incidência de diabetes tipo 2, e essa deve ser investigada mais a fundo.