A gestão inadequada dos plásticos em nível global está ultrapassando os limites planetários e comprometendo o direito humano a um meio ambiente seguro, limpo e sustentável. Embora se reconheça que a poluição plástica cause danos significativos à saúde e ao bem-estar das populações, a magnitude total desse impacto ainda não foi completamente quantificada. O ciclo de vida dos plásticos é responsável pela emissão de uma vasta gama de gases e poluentes que contribuem para a carga global de doenças, incluindo gases de efeito estufa que impulsionam as mudanças climáticas, poluentes atmosféricos vinculados a patologias respiratórias e substâncias químicas perigosas associadas ao desenvolvimento de câncer e outras doenças não transmissíveis.
O cenário epidemiológico projetado é alarmante, com estimativas de que as mortes causadas por mudanças climáticas possam atingir entre 14,5 e 15,6 milhões em países de baixa e média renda entre 2026 e 2050. Atualmente, a poluição atmosférica causa mais de 6,5 milhões de mortes prematuras por ano globalmente, enquanto a poluição química soma outros 1,8 milhão de óbitos. No entanto, a contribuição específica dos plásticos para essas pressões ambientais e para a carga de doenças ainda é pouco explorada pela literatura. Diante da previsão de que a demanda global por plásticos dobre até 2050, Deeney e colaboradores (2026) realizaram uma análise sobre o impacto dos plásticos na saúde global, utilizando o modelo de avaliação de ciclo de vida para projetar danos entre 2016 e 2040.
Para o estudo, os pesquisadores utilizaram uma abordagem híbrida que integrou a Análise de Fluxo de Materiais (MFA) à Avaliação do Ciclo de Vida (LCA), visando quantificar os impactos na saúde humana por meio do indicador de Anos de Vida Ajustados por Incapacidade (DALYs). Para rastrear os fluxos globais de plásticos, os pesquisadores utilizaram o modelo Plastics-to-Ocean (P2O), focando nos polímeros mais frequentemente encontrados em resíduos sólidos urbanos, que representam cerca de 64% da produção global. A análise abrangeu o período entre 2016 e 2040 e organizou os dados em oito arquétipos geográficos, categorizados de acordo com os níveis de renda definidos pelo Banco Mundial, densidade populacional e proximidade de corpos d'água, o que permitiu capturar disparidades regionais na geração e gestão de resíduos.
Além disso, o estudo avaliou o sistema sob seis cenários globais distintos, que variaram desde a manutenção das políticas atuais (Business as Usual) até mudanças sistêmicas profundas que envolvem a redução da produção primária, o aumento da reciclagem e a substituição por materiais alternativos.
Os resultados revelaram que todas as etapas do ciclo de vida dos plásticos geram emissões associadas a danos à saúde, manifestando-se predominantemente por meio da morbidade e mortalidade relacionadas ao aquecimento global (desnutrição, malária e inundações), doenças cardiopulmonares e câncer de pulmão derivados da exposição a material particulado fino, e efeitos tóxicos que englobam diversas doenças não transmissíveis.
No ano base de 2016, o sistema global de plásticos foi responsável por cerca de 2,1 milhões de DALYs. Desse total, a produção primária de plásticos respondeu por 82% da carga de doença, enquanto a queima a céu aberto contribuiu com 15%. Em termos de indicadores específicos, o aquecimento global causou 0,83 milhão de DALYs e a poluição atmosférica 0,68 milhão. As substâncias químicas tóxicas foram associadas a 0,41 milhão de DALYs por cânceres e 0,22 milhão por outras patologias crônicas.
As projeções para o cenário de manutenção das políticas atuais (Business as Usual) são alarmantes, estimando uma carga acumulada de 83 milhões de DALYs entre 2016 e 2040, com o ônus anual subindo para 4,5 milhões de DALYs ao final desse período. O estudo comparou diversos cenários de intervenção e demonstrou que compromissos governamentais atuais reduziriam a carga acumulada em apenas 4%. Em contrapartida, o cenário de mudança sistêmica — que integra a redução da produção primária, melhoria na coleta e reciclagem, e substituição estratégica de materiais — mostrou-se o mais promissor, reduzindo a carga acumulada em 21% e podendo reduzir os DALYs anuais em 2040 em até 43% comparado às políticas atuais. Ficou evidenciado que a redução da produção primária de plásticos é a alavanca mais eficaz para aliviar o impacto sobre a saúde humana.
A análise de substâncias específicas apontou que o Cromo VI, proveniente do tratamento de resíduos da produção primária, é o principal responsável pelos efeitos tóxicos cancerígenos, enquanto metais como zinco, vanádio e arsênio, associados a aterros e cinzas de incineração, impulsionam a toxicidade não cancerígena. Mesmo no cenário de mudança sistêmica em 2040, a produção petroquímica primária permaneceria como a principal fonte de danos à saúde (63% dos DALYs), seguida por alternativas de polilactídeo (12%) e queima a céu aberto (5%). Além disso, o estudo destacou que a produção de eletricidade a partir de combustíveis fósseis para a cadeia do plástico responde por 25% das emissões de gases de efeito estufa do setor, sublinhando que a descarbonização da matriz energética é crucial, mas insuficiente sem uma redução drástica no volume de polímeros produzidos.
Em conclusão, Deeney e colaboradores (2026) reforçaram que a poluição plástica e as emissões associadas ao seu ciclo de vida representam uma ameaça sistêmica à saúde pública global, exigindo uma mudança de paradigma nas políticas internacionais. Os autores enfatizaram que os danos à saúde ocorrem em todas as etapas, sendo a produção primária de polímeros a maior responsável pela carga de doenças relacionada ao aquecimento global, poluição atmosférica e toxicidade química.