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/ Published on April 26, 2026

Neurofarmacologia

Novas fronteiras terapêuticas: como otimizar a biodisponibilidade da levodopa?

Reunanen e colaboradores (2025) identificaram uma nova classe de compostos que, ao contrário dos inibidores convencionais como a carbidopa, conseguem inibir simultaneamente a AADC humana e a TyrDC bacteriana, reduzindo o metabolismo periférico indesejado

A Doença de Parkinson (DP) é uma patologia neurodegenerativa que afeta aproximadamente 1% da população acima dos 60 anos, sendo caracterizada pela degeneração dopaminérgica na substância negra e pelo acúmulo de agregados proteicos conhecidos como corpos de Lewy. Esses processos resultam em sintomas motores, como tremor, rigidez e bradicinesia. O manejo farmacológico principal baseia-se na administração de levodopa, um pró-fármaco da dopamina que é convertido pela enzima L-aminoácido aromático descarboxilase (AADC) tanto no cérebro quanto em tecidos periféricos. Como a dopamina formada na periferia não atravessa a barreira hematoencefálica (BHE), ela pode desencadear efeitos adversos sistêmicos, como hipotensão, náuseas, vômitos e arritmia cardíaca, devido à ativação de receptores dopaminérgicos e adrenérgicos vasculares.

Para otimizar a terapia, inibidores da AADC periférica, como a carbidopa ou a benserazida, são rotineiramente coadministrados para impedir a degradação precoce da levodopa e aumentar sua biodisponibilidade no sistema nervoso central, que sem essa proteção seria de apenas 1% a 5%. Contudo, mesmo com o uso desses inibidores, cerca de metade da levodopa administrada ainda é metabolizada antes de atingir o cérebro. Pesquisas revelaram que a microbiota intestinal, especificamente a espécie Enterococcus faecalis, contribui significativamente para esse fenômeno ao utilizar a enzima tirosina descarboxilase (TyrDC) para converter a levodopa em dopamina ainda no lúmen gastrointestinal. A abundância do gene TyrDC em amostras fecais de pacientes com DP foi positivamente correlacionada a doses diárias mais elevadas de levodopa e a uma menor responsividade clínica ao fármaco.

Tanto a AADC humana quanto a TyrDC bacteriana são enzimas dependentes de fosfato de piridoxal que catalisam reações de descarboxilação. No entanto, os inibidores de AADC utilizados na clínica não conseguem inibir a TyrDC bacteriana. Embora existam moléculas experimentais como a (S)-α-fluorometiltirosina (AFMT) que inibem a TyrDC, elas não possuem atividade contra a AADC humana. Nesse contexto, Reunanen e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de identificar e caracterizar uma nova classe de inibidores capazes de atuar simultaneamente sobre a descarboxilação do hospedeiro e da microbiota, visando melhorar a eficácia do tratamento da DP e reduzir os efeitos colaterais resultantes do metabolismo periférico excessivo.

A metodologia do estudo baseou-se inicialmente em uma triagem virtual (in sílico - análises biológicas e químicas realizadas em um computador, utilizando software e algoritmos) de uma biblioteca de 158.000 compostos, utilizando técnicas de docking molecular, modelos farmacofóricos estruturais e buscas por similaridade de forma com inibidores conhecidos, como a carbidopa e a (S)-α-fluorometiltirosina. A partir dessa análise computacional, 394 moléculas foram selecionadas para ensaios celulares in vitro utilizando culturas de E. faecalis sob condições aeróbicas, onde a inibição da conversão de levodopa em dopamina foi quantificada através de cromatografia líquida de alta performance com detecção eletroquímica (HPLC-ECD).

Após a identificação dos compostos mais ativos, a pesquisa avançou para a síntese de análogos e a inclusão de fármacos antiparasitários de uso clínico que compartilham similaridade estrutural com os compostos encontrados. A eficácia inibitória foi validada em ensaios enzimáticos purificados, utilizando as enzimas recombinantes TyrDC bacteriana e AADC humana expressas em E. coli, o que permitiu a determinação precisa dos valores de concentração inibitória máxima de 50% (IC50) por meio de métodos fluorométricos. Por fim, a segurança biológica das moléculas foi avaliada através de testes de citotoxicidade em linhagens de células HeLa, estabelecendo a concentração citotóxica média (CC50) para comparação com a potência farmacológica observada.

Os resultados da pesquisa demonstram que, após a triagem inicial de 394 compostos, apenas 17 apresentaram inibição superior a 15% na concentração de 10 µM, culminando na identificação de três compostos principais (1, 2 e 3) que confirmaram atividade significativa em retestes. Estruturalmente, esses compostos compartilham os grupamentos para-nitrofenil e benzamido, exibindo uma inibição dose-dependente da conversão de levodopa em dopamina em culturas de E. faecalis. Os ensaios com enzimas purificadas revelaram que essas moléculas possuem maior afinidade pela TyrDC bacteriana (IC50 entre 23 e 51 µM) do que pela AADC humana (IC50 entre 102 e 182 µM).

A análise de relação estrutura-atividade indicou que a presença do grupo nitro e a posição específica da hidroxila foram determinantes para a potência inibitória, sendo que a remoção ou o deslocamento desses grupos resultou em perda de atividade. Um achado relevante foi a avaliação de fármacos antiparasitários clínicos (como a niclosamida e o closantel), que demonstraram potente inibição da AADC humana (IC50 de até 14 µM) e eficácia no bloqueio do metabolismo da levodopa em E. faecalis. No entanto, sugere-se que o efeito sobre a microbiota seja predominantemente decorrente de sua ação antibacteriana intrínseca e não de uma inibição enzimática direta da TyrDC.

Apesar do potencial terapêutico, o estudo apontou limitações importantes: os compostos ativos apresentaram citotoxicidade em células HeLa em faixas de concentração muito próximas às doses eficazes de inibição enzimática, o que sinaliza uma baixa seletividade. Adicionalmente, ressaltou-se que o grupamento para-nitrofenil é um alerta estrutural conhecido para toxicidade hepática, indicando que, embora esses compostos sirvam como excelente ponto de partida para o desenvolvimento de uma nova classe de inibidores duplos, modificações estruturais são necessárias para aumentar a segurança biológica e a seletividade dos candidatos a fármacos.

Em conclusão, a integração de métodos de avaliação in silico e in vitro foi bem-sucedida na identificação de uma nova classe de inibidores que atuam de forma eficaz tanto sobre a enzima TyrDC de E. faecalis quanto sobre a AADC humana. A descoberta desses compostos ativos estabelece uma base fundamental para o desenvolvimento futuro de inibidores farmacologicamente potentes, capazes de bloquear simultaneamente o metabolismo da levodopa pelo organismo do paciente e pela microbiota intestinal.