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/ Published on February 23, 2025

Fiocruz

Mpox: cientistas avançam no entendimento do vírus

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) acabam de apresentar mais uma importante contribuição para a ciência mundial

Author: Menezes, M. 2025

Fuente: Agência Fiocruz Mpox: cientistas avançam no entendimento do vírus

Imagem principal: Imagem de microscopia eletrônica de transmissão mostra partículas virais na periferida célula. Uma partícula aparece em processo de extrusão, dentro de vesícula de exocitose. Imagem adaptada de Barreto-Vieira e colaboradores, 2025.


Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) avançaram na compreensão do processo de infecção e replicação do vírus mpox (MPXV), que vem ampliando sua presença global desde 2022.

Anteriormente conhecida como varíola dos macacos, e renomeada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para superar o estigma associado à doença, a mpox é caracterizada por lesões na pele (como manchas vermelhas, pequenas feridas ou bolhas), geralmente concentradas no rosto, palmas das mãos e solas dos pés. Estas lesões também podem se manifestar na boca, olhos, órgãos genitais e ânus. A OMS reconheceu duas emergências internacionais de saúde pública associadas ao patógeno recentemente: a primeira entre julho de 2022 e maio de 2023 e a segunda a partir de agosto de 2024.  

Um dos países mais afetados pelo agravo, o Brasil contabilizou mais de 13 mil casos desde 2022, sendo cerca de 2 mil em 2024 e aproximadamente cem em 2025. Dezesseis mortes foram confirmadas no país.

Através de registros de microscopia e modelagem tridimensional, o estudo publicado na revista científica Journal of Medical Virology detalhou o passo a passo da infecção viral em células de mamíferos, contribuindo para compreender o que ocorre no corpo humano. O estudo obteve as primeiras imagens do processo de entrada do mpox nas células. Também apresenta um modelo em animação 3D inédito que mostra as estruturas da ‘fábrica viral’, que se estabelece no interior celular para replicação do vírus. Além disso, revela imagens da liberação de partículas virais.

À frente do trabalho, a chefe do Laboratório de Morfologia e Morfogênese Viral do IOC/Fiocruz, Debora Ferreira Barreto‐Vieira, ressalta que o estudo preenche lacunas na literatura científica. “O mpox foi isolado a partir de macacos na década de 1950 e de seres humanos, nos anos 1970. Apesar de todo esse tempo, quando foi declarada a primeira emergência de saúde pública, em 2022, havia poucos dados publicados sobre o ciclo replicativo do vírus. Nossas descobertas expandem o conhecimento no campo da virologia e podem auxiliar no desenvolvimento de terapias antivirais e medidas de prevenção contra infecções”, afirma Débora.

O trabalho foi realizado pelo Laboratório de Morfologia e Morfogênese Viral do IOC em parceria com o Núcleo de Laboratórios de Microscopia do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Nulam/Inmetro), liderado pelo pesquisador Bráulio Soares Archanjo.

Passo a passo da infecção 

Para a pesquisa, os cientistas infectaram células Vero, que são oriundas de rim de macaco e muito usadas em estudos de virologia, com uma cepa do vírus mpox isolada a partir de amostra de um paciente do Rio de Janeiro em 2022. A amostra foi cedida pelo Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências do IOC, que atua como referência para diagnóstico junto ao Ministério da Saúde.

O estudo identificou que a entrada do mpox nas células ocorre através do processo de endocitose, no qual a membrana celular envolve a partícula viral, formando uma vesícula, que é internalizada. Em seguida, o vírus alcança a região do citoplasma, onde mobiliza estruturas celulares para sua replicação, criando uma ‘fábrica viral’ perto do núcleo da célula.

A partir de aproximadamente 1,2 mil imagens capturadas com a técnica de microscopia eletrônica de varredura por feixe de íons focalizados (FIB), os cientistas produziram um modelo tridimensional dessa estrutura.

O trabalho mostrou que a replicação do vírus ocorre numa área da célula cercada por mitocôndrias (estruturas responsáveis pela produção de energia) e por cisternas do retículo endoplasmático rugoso (organela que sintetiza e modifica proteínas). Nessa área, são observadas numerosas vesículas vazias e partículas virais em diferentes estágios de formação.

Outro achado relevante foi o registro de imagens que mostram a adesão de partículas virais a filamentos do citoesqueleto, que são fibras proteicas responsáveis pela estrutura das células. Estes filamentos impulsionam o transporte dos vírus recém-formados no interior da célula, facilitando sua liberação para o meio exterior.

O processo já tinha sido identificado por microscopia eletrônica de transmissão em estudos anteriores e foi documentado em detalhes através da microscopia eletrônica de varredura.  

A pesquisa revelou ainda que o mpox deixa a célula através do processo de exocitose, no qual vesículas que contêm partículas virais se fundem com a membrana celular, fazendo com que os vírus sejam liberados enquanto a célula se mantém íntegra. A infecção causa diversos danos às células, levando à morte celular em alguns dias, conforme documentado no estudo.