Clinicamente, os miomas uterinos (leiomiomas) manifestam-se através de sangramento menstrual intenso, dismenorreia e sintomas compressivos, como pressão pélvica e polaciúria. Embora tenham um impacto significativo na qualidade de vida, suas implicações para a saúde a longo prazo ainda não são totalmente compreendidas. Recentemente, tem-se observado que os miomas compartilham características patogênicas com a doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA). Ambas as condições originam-se de células musculares lisas monoclonais e envolvem processos biológicos comuns, como proliferação celular, fibrose e calcificação, que estão intrinsecamente ligados a distúrbios de remodelamento vascular.
Além dessas semelhanças estruturais, os miomas podem desencadear respostas inflamatórias excessivas no ambiente uterino, caracterizadas pela produção de citocinas, como a interleucina-6 e o fator de necrose tumoral-α, além de quimiocinas. Acredita-se que essas proteínas possam entrar na circulação sistêmica, promovendo um estado de inflamação crônica e estresse oxidativo, o que elevaria o risco de desenvolvimento de DCVA. No entanto, as evidências sobre essa associação ainda são esparsas e inconclusivas, frequentemente limitadas por amostras reduzidas e sub-representação de minorias étnicas. Diante dessas lacunas, DiTosto e colaboradores (2026) utilizaram um dados de prontuários administrativos para avaliar, de forma longitudinal, a associação entre os miomas uterinos e o risco subsequente de eventos cardiovasculares ateroscleróticos.
A pesquisa seguiu as diretrizes Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) e incluiu indivíduos do sexo feminino, com idade entre 18 e 50 anos. Essa faixa etária foi selecionada especificamente para focar em pacientes na pré-menopausa, período em que os miomas são clinicamente mais relevantes e hormonalmente ativos. Para a definição da exposição, os casos de miomas uterinos foram identificados através de códigos de diagnóstico em prontuários de pacientes internadas ou ambulatoriais, exigindo-se pelo menos dois registros em datas distintas ou um único registro associado a exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal ou ressonância magnética pélvica, realizados em um intervalo de 30 dias.
Para garantir o rigor comparativo, cada paciente com mioma foi pareada por idade (na proporção de 1:5) com controles que não possuíam diagnóstico prévio da condição, mas que haviam realizado exames ginecológicos anuais. O desfecho primário foi a incidência do primeiro evento de DCVA, definido conforme os critérios da American Heart Association como um composto de doença arterial coronariana (incluindo infarto do miocárdio e angina), doença cerebrovascular (incluindo acidente vascular encefálico isquêmico e ataque isquêmico transitório) e doença arterial periférica. O período de acompanhamento estendeu-se desde a data basal até a ocorrência do evento cardiovascular, a desfiliação do plano de saúde, um novo diagnóstico de mioma no grupo controle ou o encerramento do estudo em junho de 2022.
No total, foram incluídas 450.177 mulheres com miomas uterinos e 2.250.885 controles (com média de idade de 41 anos). Os resultados demonstraram uma associação significativa e persistente entre a presença de miomas e o risco de DCVA. A incidência acumulada de eventos cardiovasculares foi consistentemente superior no grupo exposto em comparação ao controle: em 1 ano, a incidência foi de 0,74% versus 0,30% e, ao final de 10 anos, essa diferença ampliou-se para 5,42% versus 3,00%, respectivamente. Nas análises ajustadas, observou-se que mulheres com miomas apresentaram um risco 2,47 vezes maior de sofrer um evento de DCVA no primeiro ano após o diagnóstico, mantendo um risco 1,81 vezes elevado mesmo após uma década de acompanhamento.
Esse aumento do risco cardiovascular mostrou-se consistente em todos os componentes individuais da DCVA avaliados pelo estudo. A doença arterial coronariana foi o desfecho mais frequente, apresentando as maiores diferenças de risco absoluto ao longo do tempo. No entanto, a doença arterial periférica, embora menos comum, registrou a maior razão de risco ajustada no primeiro ano. Além disso, foram observados aumentos significativos no risco de eventos específicos como angina, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico isquêmico e ataque isquêmico transitório.
Um ponto de destaque para a prática clínica foi que a associação foi significativamente mais forte em mulheres diagnosticadas com miomas antes dos 40 anos. Nesse subgrupo mais jovem, a diferença de risco ajustada em 10 anos foi de 4,14%, em comparação a 1,66% nas mulheres com 40 anos ou mais. O estudo também confirmou que esses achados foram generalizáveis, permanecendo consistentes em diferentes grupos raciais e étnicos.
Em suma, DiTosto e colaboradores (2026) reforçaram a importância clínica de considerar os miomas uterinos não apenas como uma patologia ginecológica isolada, mas como um potencial marcador de risco cardiovascular sistêmico. O estudo estabeleceu que mulheres com miomas apresentaram um risco aumentado e sustentado de DCVA por até 10 anos após o diagnóstico.
Assim, o reconhecimento dos miomas como um sinalizador de saúde cardiovascular futura oferece uma oportunidade valiosa para a implementação de estratégias de prevenção personalizadas e precoces em uma vasta população de mulheres na pré-menopausa.