A microbiota intestinal humana, composta por bactérias, arqueias, bacteriófagos, vírus eucarióticos e fungos, desempenha um papel fundamental em diversos aspectos da fisiologia do hospedeiro ao longo da vida. No entanto, sua composição é influenciada por múltiplos fatores, como dieta, uso de medicamentos, condições ambientais e predisposição genética, estando associada à patogênese de várias doenças gastrointestinais. O fígado, por receber sangue portal proveniente do trato gastrointestinal, é particularmente vulnerável à exposição a microrganismos intestinais e seus metabólitos.
Neste contexto, Jiang e Fan (2024) exploraram as características taxonômicas e funcionais da microbiota intestinal em doenças gastrointestinais de impacto pandêmico nos últimos 10 anos. Entre as condições discutidas estão a doença inflamatória intestinal (DII), a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) e a hipertensão portal (HP) relacionada ao vírus da hepatite B (HBV).
| Microbiota intestinal e DII |
As doenças inflamatórias intestinais, que incluem a doença de Crohn (DC) e a colite ulcerativa, são condições crônicas de etiologia desconhecida, resultantes da interação entre predisposição genética, fatores ambientais e alterações na microbiota intestinal. Evidências indicaram que a patogênese da DII está associada a uma menor diversidade microbiana e ao crescimento excessivo de anaeróbios facultativos. Além disso, o tecido adiposo mesentérico (MAT) e a creeping fat (conjunto de adipócitos de tamanho significativamente menor e densidade celular cerca de quatro vezes maiores que aqueles do tecido adiposo branco mesentérico adjacente, possuindo também grande quantidade de células imunes como linfócitos, macrófagos, neutrófilos e células NK) têm papel relevante no desenvolvimento da DC.
Um estudo investigou a relação entre o MAT, creeping fat, inflamação intestinal e microbiota em pacientes com DC, demonstrando alterações patológicas no MAT de cólons afetados. Adicionalmente, em estudos com camundongos com colite induzida, o transplante de microbiota fetal (TMF) de doadores saudáveis melhorou os sintomas, enquanto a TMF de pacientes com DC piorou os quadros clínicos, agravando a inflamação, permeabilidade intestinal e alterações fibróticas. Os achados destacaram a interação entre microbiota intestinal, MAT e creeping fat, apontando para potenciais abordagens terapêuticas que considerem esses fatores no tratamento da DC.
| Microbiota intestinal e doenças hepáticas crônicas |
A MASLD, anteriormente chamada de doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD), é caracterizada pela presença de esteatose hepática associada a fatores de risco cardiometabólicos, sem consumo excessivo de álcool. O interesse pela medicina tradicional chinesa no manejo da MASLD tem crescido, com destaque para a Fórmula Fanlian Huazhuo (FLHZF), tradicionalmente usada no controle do diabetes tipo 2. Estudos demonstraram que a FLHZF melhora o acúmulo lipídico e regula o metabolismo lipídico, reduzindo estresse oxidativo, ativando AMPK e autofagia, além de minimizar a apoptose de hepatócitos. Esses resultados ampliaram suas aplicações e indicaram um potencial terapêutico para MASLD, embora mais estudos sejam necessários para avaliar sua segurança e eficácia em humanos.
Em pacientes com MASLD, a infecção por COVID-19 tem sido associada a maior risco de lesão hepática e colangiopatia. A enzima ACE2, essencial para a entrada do SARS-CoV-2 nas células, apresenta níveis aumentados em pacientes com esteatose hepática não fibrótica, mas não em casos avançados de fibrose ou cirrose. Esses achados sugeriram que o vírus pode agravar a progressão da MASLD ao usar gotículas lipídicas para replicação intra-hepática.
Além disso, a microbiota intestinal desempenha um papel crucial em complicações hepáticas, como a hipertensão portal (HP) associada à cirrose. Estudos mostraram que pacientes com encefalopatia hepática (EH) após o procedimento TIPS apresentaram alterações específicas na composição da microbiota. A identificação desses perfis bacterianos pode ajudar na previsão e no manejo de complicações como a EH.
Por fim, a microbiota intestinal é central na imunidade, digestão e metabolismo, e sua manipulação terapêutica é promissora em doenças gastrointestinais, incluindo MASLD, DC e HP. Estudos futuros serão necessários para explorar os mecanismos subjacentes das interações microbiota-hospedeiro e integrar essas descobertas a tratamentos inovadores baseados em microbioma.