A pediatra e especialista em medicina do adolescente Lauren Hartman relatou que, ao atender jovens com transtornos alimentares, frequentemente ouve relatos que as mudanças nos comportamentos alimentares começaram após uma consulta médica na qual foram informados de que seu peso ou IMC estavam "muito altos". Na maioria dos casos, essa observação vem de profissionais de confiança que acompanham esses pacientes há anos. Ao relembrar essas experiências, muitos adolescentes demonstraram sofrimento evidente, frequentemente com a voz embargada e lágrimas nos olhos.
Segundo Hartman, muitos saíram dessas consultas com o objetivo de "ficarem mais saudáveis", passando a restringir alimentos específicos ou grupos alimentares inteiros. No entanto, essas dietas são fatores de risco conhecidos para o desenvolvimento de transtornos alimentares, especialmente durante a adolescência. Embora médicos raramente recomendem explicitamente uma dieta restritiva, muitos jovens interpretam preocupações relacionadas ao peso como uma orientação para emagrecer a qualquer custo.
Uma paciente cujo transtorno alimentar resultou em graves complicações médicas relatou uma observação marcante após uma conversa com sua pediatra: "Minha médica me disse para perder peso, mas eu gostaria que ela tivesse me dito o que fazer. Eu não sabia, então fui para casa e pesquisei online. Foi lá que aprendi que podia simplesmente vomitar tudo o que comia."
A autora enfatizou que não pretende responsabilizar profissionais de saúde, mas que gostaria de destacar um dilema real da prática clínica. Por um lado, existe a preocupação com condições associadas ao excesso de peso; por outro, observa-se o aumento da prevalência dos transtornos alimentares e dos impactos negativos do estigma relacionado ao peso. Em sua visão, essas duas preocupações precisam ser consideradas simultaneamente.
Um dos pontos centrais do texto foi a crítica ao uso do índice de massa corporal (IMC) como indicador de saúde. Embora amplamente utilizado, ele não foi desenvolvido para fins diagnósticos, pois consiste em um cálculo simples que não avalia a composição corporal nem contempla diferenças individuais relacionadas a fatores genéticos, étnicos e raciais. Além disso, estudos sugeriram que o IMC apresenta limitações importantes na predição de desfechos futuros de saúde, podendo tanto classificar pessoas saudáveis como não saudáveis quanto deixar de identificar pessoas que necessitem de acompanhamento médico.
A maioria dos médicos aborda peso e IMC com a intenção genuína de promover saúde. No entanto, ainda existem desafios para lidar com condições relacionadas ao peso sem reforçar o estigma, que tem sido associado a piores desfechos físicos e mentais, incluindo hipertensão, alterações metabólicas, depressão e ansiedade, além de menor procura pelos serviços de saúde. Na pediatria, esse cenário é particularmente preocupante, uma vez que experiências de julgamento relacionadas ao peso podem contribuir para transtornos alimentares, comprometer o acompanhamento médico preventivo e reduzir oportunidades de vacinação, rastreamento e diagnóstico precoce de doenças.
A Dra. Lauren Hartman também abordou sobre preocupações relacionadas ao uso das redes sociais e do marketing em torno das intervenções para perda de peso, incluindo os agonistas do receptor GLP-1. Embora essas terapias representem um avanço importante no tratamento de doenças cardiometabólicas, a constante valorização da perda de peso pode reforçar a percepção de que corpos maiores constituem um problema a ser corrigido. Esse cenário é especialmente preocupante na adolescência, período em que o ganho de peso faz parte do desenvolvimento normal e em que a imagem corporal e a identidade ainda estão em formação, tornando os jovens particularmente vulneráveis aos efeitos dessas mensagens.
Como alternativa, Hartman propôs uma abordagem menos centrada no peso e mais focada em indicadores amplos de saúde. Entre eles estão pressão arterial, perfil metabólico, glicemia, condicionamento físico, qualidade do sono, saúde mental, manejo do estresse e relações sociais. Os gráficos de crescimento, por sua vez, deveriam ser utilizados para acompanhar trajetórias individuais de desenvolvimento, e não para definir um tamanho corporal ideal ou comparar indivíduos entre si.
Por fim, Hartman sugeriu que o cuidado pediátrico seja orientado por objetivos compartilhados, como atividade física prazerosa, bem-estar emocional, energia e qualidade de vida, em vez de priorizar exclusivamente números na balança. Na visão da especialista, crianças e adolescentes merecem crescer em ambientes de saúde que promovam respeito, segurança e dignidade, independentemente do tamanho corporal.
Publicado el 28 de agosto de 2026
Transtornos alimentares
“Meu médico me disse para emagrecer”: reflexões sobre peso, IMC e transtornos alimentares na adolescência
Uma análise da Dra. Lauren Hartman sobre o papel do IMC, os impactos do estigma do peso na saúde mental e nos transtornos alimentares, e a importância de uma abordagem mais ampla da saúde de crianças e adolescentes.
Autor/a: Hartman, L.
Fuente: The Lancet, 408, 688-689 “My doctor told me to lose weight”
A pediatra e especialista em medicina do adolescente Lauren Hartman relatou que, ao atender jovens com transtornos alimentares, frequentemente ouve relatos que as mudanças nos comportamentos alimentares começaram após uma consulta médica na qual foram informados de que seu peso ou IMC estavam "muito altos". Na maioria dos casos, essa observação vem de profissionais de confiança que acompanham esses pacientes há anos. Ao relembrar essas experiências, muitos adolescentes demonstraram sofrimento evidente, frequentemente com a voz embargada e lágrimas nos olhos.
Segundo Hartman, muitos saíram dessas consultas com o objetivo de "ficarem mais saudáveis", passando a restringir alimentos específicos ou grupos alimentares inteiros. No entanto, essas dietas são fatores de risco conhecidos para o desenvolvimento de transtornos alimentares, especialmente durante a adolescência. Embora médicos raramente recomendem explicitamente uma dieta restritiva, muitos jovens interpretam preocupações relacionadas ao peso como uma orientação para emagrecer a qualquer custo.
Uma paciente cujo transtorno alimentar resultou em graves complicações médicas relatou uma observação marcante após uma conversa com sua pediatra: "Minha médica me disse para perder peso, mas eu gostaria que ela tivesse me dito o que fazer. Eu não sabia, então fui para casa e pesquisei online. Foi lá que aprendi que podia simplesmente vomitar tudo o que comia."
A autora enfatizou que não pretende responsabilizar profissionais de saúde, mas que gostaria de destacar um dilema real da prática clínica. Por um lado, existe a preocupação com condições associadas ao excesso de peso; por outro, observa-se o aumento da prevalência dos transtornos alimentares e dos impactos negativos do estigma relacionado ao peso. Em sua visão, essas duas preocupações precisam ser consideradas simultaneamente.
Um dos pontos centrais do texto foi a crítica ao uso do índice de massa corporal (IMC) como indicador de saúde. Embora amplamente utilizado, ele não foi desenvolvido para fins diagnósticos, pois consiste em um cálculo simples que não avalia a composição corporal nem contempla diferenças individuais relacionadas a fatores genéticos, étnicos e raciais. Além disso, estudos sugeriram que o IMC apresenta limitações importantes na predição de desfechos futuros de saúde, podendo tanto classificar pessoas saudáveis como não saudáveis quanto deixar de identificar pessoas que necessitem de acompanhamento médico.
A maioria dos médicos aborda peso e IMC com a intenção genuína de promover saúde. No entanto, ainda existem desafios para lidar com condições relacionadas ao peso sem reforçar o estigma, que tem sido associado a piores desfechos físicos e mentais, incluindo hipertensão, alterações metabólicas, depressão e ansiedade, além de menor procura pelos serviços de saúde. Na pediatria, esse cenário é particularmente preocupante, uma vez que experiências de julgamento relacionadas ao peso podem contribuir para transtornos alimentares, comprometer o acompanhamento médico preventivo e reduzir oportunidades de vacinação, rastreamento e diagnóstico precoce de doenças.
A Dra. Lauren Hartman também abordou sobre preocupações relacionadas ao uso das redes sociais e do marketing em torno das intervenções para perda de peso, incluindo os agonistas do receptor GLP-1. Embora essas terapias representem um avanço importante no tratamento de doenças cardiometabólicas, a constante valorização da perda de peso pode reforçar a percepção de que corpos maiores constituem um problema a ser corrigido. Esse cenário é especialmente preocupante na adolescência, período em que o ganho de peso faz parte do desenvolvimento normal e em que a imagem corporal e a identidade ainda estão em formação, tornando os jovens particularmente vulneráveis aos efeitos dessas mensagens.
Como alternativa, Hartman propôs uma abordagem menos centrada no peso e mais focada em indicadores amplos de saúde. Entre eles estão pressão arterial, perfil metabólico, glicemia, condicionamento físico, qualidade do sono, saúde mental, manejo do estresse e relações sociais. Os gráficos de crescimento, por sua vez, deveriam ser utilizados para acompanhar trajetórias individuais de desenvolvimento, e não para definir um tamanho corporal ideal ou comparar indivíduos entre si.
Por fim, Hartman sugeriu que o cuidado pediátrico seja orientado por objetivos compartilhados, como atividade física prazerosa, bem-estar emocional, energia e qualidade de vida, em vez de priorizar exclusivamente números na balança. Na visão da especialista, crianças e adolescentes merecem crescer em ambientes de saúde que promovam respeito, segurança e dignidade, independentemente do tamanho corporal.