Puntos de vista

/ Publicado el 12 de junio de 2025

Atendimento humanizado

Medicina e espiritualidade: cuidado compassivo ao paciente

Como abordar as necessidades espirituais na prática médica fortalece a aliança terapêutica e melhora o bem-estar do paciente.

Autor/a: Sulmasy, Daniel P.

Fuente: The New England Journal of Medicine, v. 390, n. 12, p. 1061–1063 (2024) Physicians, Spirituality, and Compassionate Patient Care

Uma paciente de 43 anos, com histórico de hipertensão, procurou seu médico devido a insônia causada por pensamentos persistentes sobre algo que havia feito. Sem sintomas de depressão, ansiedade ou apneia do sono, ela relatou dificuldade em iniciar o sono. O médico, já ciente de sua espiritualidade, sugeriu conversar com o pastor; diante da relutância, indicou o capelão hospitalar. Seis semanas depois, ela relatou melhora significativa do sono, sem medicação ou encaminhamento psiquiátrico.

Esse caso evidencia a relação entre saúde e espiritualidade. Historicamente, a cura é vista como um evento espiritual, e doenças despertam questões profundas sobre propósito, identidade e relações interpessoais — questionamentos universais que vão além de crenças religiosas específicas. A maioria das pessoas recorre à fé para encontrar respostas, mas essas inquietações surgem em indivíduos de todas as tradições — ou mesmo sem religião. O envolvimento da espiritualidade no cuidado médico pode oferecer suporte emocional e contribuir para o bem-estar do paciente.

Enquanto a espiritualidade refere-se ao modo individual de enfrentar questões de sentido, valor e conexão, a religião agrega comunidade, textos e ritos que orientam essas buscas. Apesar do declínio da prática religiosa em algumas regiões, evidências robustas indicaram que atender às necessidades espirituais fortalece a aliança terapêutica, auxilia decisões complexas, eleva a satisfação com o cuidado e melhora a qualidade de vida. Dimensões espirituais permeiam todo o cuidado médico, em enfermidades autolimitadas, crônicas ou de alto risco, no ambiente hospitalar ou ambulatorial.

Bioeticistas ressaltaram que os princípios de beneficência e de respeito ao paciente como pessoa plena exigem mais do que o manejo de disfunções fisiológicas: é preciso reconhecer que espiritualidade e religião compõem a identidade do indivíduo e moldam a experiência de doença, cura e morte. Cuidado espiritual especializado não cabe ao médico — poucos dispõem dessa qualificação, e há obrigação ética de encaminhar sempre que ultrapassar sua competência. Capelães são os especialistas, garantem sigilo e atuam em equipe multidisciplinar, especialmente em cuidados paliativos.

Ainda assim, o médico exerce papel fundamental no cuidado: ao inquirir sobre crenças, práticas e redes de apoio espiritual, demonstra respeito pela pessoa inteira e pode identificar enfrentamentos religiosos negativos que prejudiquem o bem-estar. Cabe a ele investigar, avaliar e encaminhar quando indicado. Muitas faculdades já incluem treinamentos de anamnese espiritual, aulas sobre crenças e práticas diversas e vivências com capelães. Ferramentas como o modelo FICA (Fé, Importância, Comunidade e como Integrar) ajudam a explorar a fé do paciente, seu significado, as comunidades de apoio e como deseja incorporar a espiritualidade ao cuidado. Incluir esses temas na anamnese social facilita a aplicação prática.

A abordagem deve ser modulada ao contexto — gravidade da condição, ambiente, nível de angústia e abertura do paciente. Em casos graves, inicia-se perguntando sobre crenças, práticas ou comunidade espiritual de apoio; seguem-se questões abertas (“Como você tem lidado com isso?” “Quais são suas maiores esperanças?” “Que sentido, se é que faz, você encontra nesta situação?”) e, conforme o paciente se sinta confortável, perguntas específicas (“Você sente-se em paz?” “Há alguém a quem precise dizer ‘eu te amo’ ou ‘adeus’?”). Se o diálogo se tornar muito complexo, o médico pode oferecer: “Posso convidar nosso capelão para dar sequência a essa conversa?”

Médicos às vezes hesitam em abordar espiritualidade por não partilharem a fé do paciente, mas questões espirituais são universais e merecem atenção. Cabe ao clínico investigar essas necessidades, explorá-las de forma sensível e, sempre que ultrapassarem sua competência, encaminhar o paciente ao capelão ou líder religioso de confiança. Se o paciente solicitar oração, o médico deve respeitar seus próprios limites—oferecendo apoio do capelão caso não se sinta à vontade para orar—, e nunca impor conversão ou prática religiosa sem consentimento, pois isso viola a dignidade e liberdade do paciente. Apesar do crescente interesse mundial pela espiritualidade no cuidado à saúde, sua aplicação efetiva requer estrito cumprimento de diretrizes éticas e o respeito à diversidade de crenças em um contexto multifacetado.