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/ Publicado el 12 de junio de 2025

Saúde infantil e fatores sociais

Desigualdades na infância: atividade física e IMC

Estudo analisou como as diferenças de sexo, raça e condição econômica moldaram os padrões de saúde desde o primeiro ano de vida.

Autor/a: Keye, S. A. et al.

Fuente: The Lancet Regional Health – Americas, V. 46, 101111 (2025). Physical activity and BMI inequalities throughout childhood: a Brazilian birth cohort study

Introdução
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase metade dos adultos e cerca de ¾ das crianças nas Américas não alcançam os níveis recomendados de atividade física, o que aumenta os riscos de mortalidade por todas as causas, doenças crônicas, problemas de saúde mental e prejuízos no crescimento e desenvolvimento. Além disso, estudos mostraram que desigualdades na atividade física se relacionaram a fatores demográficos como idade, sexo, renda, escolaridade e raça/etnia.


O estado nutricional, medido pelo índice de massa corporal (IMC), também foi analisado e apresentou disparidades significativas. Globalmente, as taxas de obesidade entre os adultos triplicaram desde 1975, enquanto entre as crianças esse índice passou de 4% para 18%. No Brasil, iniquidades em saúde baseadas em sexo, raça e status socioeconômico se manifestam de forma marcante, influenciando tanto os níveis de atividade física quanto as condições nutricionais. Além disso, diversos estudos indicaram que as trajetórias de atividade física se iniciam desde os primeiros meses de vida, afetando o desenvolvimento e o ganho de peso infantil, o que sugere que as desigualdades em saúde observadas na vida adulta podem ter raízes na infância.


Por isso, o estudo de Keye e colaboradores (2025) avaliou as diferenças nos padrões de atividade física e no IMC durante os primeiros anos de vida (1, 2, 4 e 7 anos), bem como as trajetórias desses indicadores em relação às variáveis demográficas e ao status socioeconômico.


Métodos

O estudo utilizou os dados da Coorte de Nascimento de Pelotas 2015, que incluiu 99% das crianças nascidas em hospitais em Pelotas nesse ano (N = 4275), avaliando-as ao nascimento, aos 3 meses e aos 1, 2, 4 e 7 anos. Foram coletadas informações demográficas (sexo, cor da pele e índice de bens para o status socioeconômico) e medidas antropométricas (altura e peso) para cálculo do IMC   para a idade. A atividade física foi medida por acelerômetros no pulso em mili-gravitacionais (mg) e com avaliações realizadas por períodos adequados para cada faixa etária.


Para identificar padrões longitudinais de atividade física e IMC entre 1 e 7 anos, foram aplicados modelos de trajetória que agruparam as crianças conforme padrões semelhantes ao longo do tempo. As análises estatísticas utilizaram testes padrões para verificar diferenças entre grupos definidos por sexo, raça e status socioeconômico.


Resultados
Entre 1 e 7 anos, a atividade física dos participantes praticamente dobrou, passando de 26,4 mg para 53,2 mg, com os meninos apresentando níveis consistentemente superiores aos das meninas ao longo de todo o período. A partir dos 2 anos, crianças negras demonstraram maior engajamento em atividades físicas do que as brancas, e aquelas de baixa renda se destacaram pelos altos níveis de deslocamento ativo. Esses padrões sugeriram que fatores como sexo, raça e condição socioeconômica influenciam significativamente os níveis de atividade física na infância.

Quanto ao estado nutricional, observou-se um aumento no desvio padrão do IMC para idade, de 0,68 para 0,84, indicando maior variabilidade entre os participantes. Os meninos apresentaram, em geral, valores mais elevados de IMC, com exceção dos 4 anos. Crianças negras também exibiram índices superiores em comparação às demais, com diferenças estatisticamente significativas em algumas idades. Além disso, crianças de famílias com maior renda apresentaram maiores valores de IMC aos 4 e 7 anos. Esses dados reforçaram a existência de disparidades precoces em saúde, destacando a importância de estratégias de intervenção e acompanhamento longitudinal desde os primeiros anos de vida.

Em resumo, o estudo de Keye e colaboradores (2025) evidenciou disparidades em atividade física e IMC para idade já na primeira infância, com diferenças significativas entre meninos e meninas, grupos econômicos e raciais. Essas desigualdades sugeriram a presença de iniquidades em saúde que, se persistirem, podem influenciar negativamente a qualidade de vida no futuro. Assim, os resultados obtidos forneceram bases para identificar o momento inicial em que tais desigualdades se manifestam, orientando o desenvolvimento de intervenções direcionadas para populações de maior risco e contribuindo para a melhoria dos comportamentos de saúde ao longo da vida.