Os sintomas gastroduodenais crônicos são altamente prevalentes na população, acometendo cerca de 7% a 8% dos adultos em todo o mundo. Embora, na prática clínica, os pacientes sejam rotulados de forma distinta sob os diagnósticos de dispepsia funcional ou gastroparesia, essas condições integram um mesmo espectro patológico. Teoricamente, a gastroparesia apresenta maior correlação com lesões neuromusculares estruturais, enquanto a dispepsia tende a refletir distúrbios de acomodação gástrica, distribuição intragástrica anormal do bolo alimentar, hipersensibilidade visceral ou síndromes dolorosas. Contudo, tais distinções são consideradas parcialmente artificiais, uma vez que há uma ampla sobreposição nas fisiopatologias subjacentes de ambas as síndromes.
Sob a perspectiva clínica, a gastroparesia manifesta-se predominantemente por náuseas e vômitos, ao passo que a dispepsia funcional é mais caracterizada por dor ou queimação epigástrica, saciedade precoce e plenitude pós-prandial.
Atualmente, o atraso no esvaziamento de sólidos é o principal parâmetro laboratorial utilizado para diferenciar a gastroparesia da dispepsia funcional. A cintilografia de esvaziamento gástrico (CEG) permanece como o exame padrão para definir a gastroparesia, mas sua interpretação é frequentemente comprometida pela falta de padronização nos protocolos. Além disso, o exame apresenta limitações de reprodutibilidade: cerca de 37% a 42% dos pacientes com sintomas estáveis mudaram de classificação diagnóstica entre dispepsia funcional e gastroparesia ao repetir o teste de esvaziamento ao longo de 48 semanas. Embora o esvaziamento gástrico tenha relevância clínica, ele reflete apenas um desfecho funcional integrativo, e não um biomarcador específico do mecanismo causador da doença.
Esse cenário de indefinição diagnóstica evidencia a necessidade urgente de ferramentas de classificação baseadas em mecanismos fisiológicos. Para preencher essa lacuna, foi desenvolvido o mapeamento gástrico de superfície corporal (BSGM), um método que integra o mapeamento mioelétrico gástrico de alta resolução com o rastreamento de sintomas em tempo real e avaliações psicométricas.
Atualmente, o BSGM consolidou-se como um recurso de auxílio diagnóstico não invasivo, livre de radiação e realizável em ambiente ambulatorial, sendo operacionalizado por meio de um sistema comercial aprovado pelo Food and Drug Admininstration (denominado Gastric Alimetry). O procedimento utiliza um adesivo flexível contendo uma matriz de 64 eletrodos para maximizar a captura do sinal gástrico, sendo associado a redes neurais que eliminam de forma ativa os ruídos da leitura. O seu protocolo é altamente padronizado e estende-se por um total de 4,5 horas: inicia-se com um período de repouso basal de 30 minutos em jejum, seguido pela ingestão de uma refeição teste de 450 kcal, composta por uma bebida nutricional e uma barra de cereais, e, por fim, por quatro horas de monitoramento pós-prandial. Durante todo o teste, o paciente permanece confortavelmente sentado e utiliza um aplicativo validado para registrar seus sintomas em intervalos de aproximadamente 15 minutos, documentando tanto a intensidade contínua de sintomas quanto eventos agudos específicos, como vômitos ou eructações, gerando ao término um relatório clínico estruturado distribuído por meio de uma plataforma em nuvem.
O diferencial fisiopatológico fundamental do BSGM reside na sua capacidade de integrar avaliações motoras, sensoriais e psicológicas de forma simultânea em uma única sessão diagnóstica, indo muito além da mera análise isolada de parâmetros de esvaziamento. A avaliação motora apoia-se primariamente em três métricas espectrais validadas:
· Frequência Gástrica Principal (PGF): reflete o ritmo intrínseco do marcapasso gástrico.
· Índice de Ritmo da Gastric Alimetry (GA-RI): quantifica a estabilidade do ritmo elétrico gástrico de forma independente da frequência.
· Amplitude gástrica corrigida pelo Índice de Massa Corporal (IMC): mensura tanto a potência elétrica basal quanto a resposta contrátil pós-prandial do órgão.
Essas métricas exibem uma reprodutibilidade confiável em testes repetidos de curto e longo prazo, somando-se recentemente a elas a Razão de Resposta à Refeição (Meal Response Ratio), que caracteriza a dinâmica temporal da atividade pós-prandial.
Paralelamente, a dimensão sensorial do exame correlaciona as curvas temporais dos sintomas relatados pelo paciente com a amplitude gástrica e o tempo de evolução ao longo do teste, permitindo ao médico identificar a concordância ou discordância entre a percepção subjetiva do paciente e a atividade motora real. Por fim, uma triagem psicológica avalia os domínios de depressão, ansiedade e estresse logo no início do protocolo, permitindo ao clínico rastrear possíveis eixos de associação cérebro-intestino e melhor direcionar a conduta terapêutica.
Ao integrar os fluxos de dados motores, sensoriais e psicológicos, o BSGM permite a fenotipagem do paciente de modo a transitar dos rótulos sindrômicos tradicionais para uma classificação baseada nos mecanismos fisiopatológicos subjacentes. Foram definidos seis fenótipos principais, divididos em três grupos predominantemente motores, dois sensoriais e um voltado ao intestino delgado, os quais podem se sobrepor em um mesmo paciente.
No grupo dos fenótipos predominantemente motores, o fenótipo disrítmico destaca-se por uma instabilidade sustentada do ritmo elétrico (caracterizada por um baixo índice de ritmo gástrico ou GA-RI), refletindo uma atividade irregular das ondas elétricas lentas. Essa alteração está intimamente correlacionada com a depleção das células intersticiais de Cajal (ICC) e disfunções neuromusculares gástricas, representando um subgrupo de pacientes clinicamente mais graves, com maior carga de sintomas e alta demanda de cuidados em saúde, independentemente do status do esvaziamento gástrico.
O fenótipo de alta frequência, por sua vez, é definido por uma elevação da frequência gástrica principal (PGF) com preservação da estabilidade do ritmo elétrico, uma condição que vem sendo associada a quadros de neuropatia ou lesão vagal, especialmente em pacientes com diabetes, e que costuma sinalizar uma coorte de pacientes mais refratária às abordagens terapêuticas convencionais. Por fim, o fenótipo de baixa resposta à refeição manifesta-se por uma atividade gástrica pós-prandial fraca ou postergada associada a sintomas desencadeados pela alimentação. Este biomarcador correlaciona-se com o atraso no esvaziamento gástrico.
Em relação aos fenótipos predominantemente sensoriais, o padrão sensoriomotor é estabelecido por uma forte correlação temporal entre a curva de intensidade dos sintomas pós-prandiais e as oscilações da amplitude gástrica. Esse perfil é comumente associado a quadros de ansiedade e hipervigilância, favorecendo terapias direcionadas à acomodação gástrica ou hipersensibilidade visceral. Contrapondo-se a isso, o fenótipo contínuo é caracterizado por uma carga sintomática persistentemente elevada que se manifesta de forma totalmente independente da ingestão de alimentos ou da atividade motora gástrica. Esse padrão exibe forte associação com comorbidades psicológicas e sugere um distúrbio da interação cérebro-intestino, respondendo tipicamente melhor a neuromoduladores ou suporte psicológico.
Por fim, o fenótipo predominantemente do intestino delgado, denominado sintomas de início tardio, é identificado quando os sintomas gastroduodenais surgem apenas após o declínio da maior parte da atividade elétrica gástrica pós-prandial, o que sugere fortemente que a gênese dos sintomas decorre de uma contribuição distal, especificamente do intestino delgado.
O principal valor clínico do BSGM reside na sua capacidade de identificar anormalidades fisiológicas que a CEG convencional não consegue detectar. Em um estudo comparativo direto com pacientes submetidos a ambos os exames, o BSGM revelou anormalidades elétricas gástricas em uma proporção significativamente maior do que a CEG isolada (33,3% versus 22,7%), inclusive em pacientes que apresentavam uma taxa de esvaziamento perfeitamente normal. A combinação de ambas as modalidades elevou o rendimento diagnóstico para 42,7%, evidenciando a forte complementaridade entre as técnicas.
Além disso, a integração da fenotipagem amplia drasticamente essa capacidade diagnóstica, elevando o rendimento para 62,7% quando todos os fenótipos são considerados. Ao correlacionar temporalmente a curva de intensidade dos sintomas relatados com as oscilações da amplitude gástrica ao longo do teste, o método auxilia na tomada de decisões terapêuticas mais precisas. Sintomas que flutuam em sincronia com a atividade motora sugerem um padrão sensório-motor, indicando abordagens direcionadas à acomodação gástrica ou hipersensibilidade visceral. Em contrapartida, sintomas contínuos e totalmente independentes da atividade gástrica pós-prandial apontam para mecanismos de interação cérebro-intestino, favorecendo o uso de neuromoduladores ou suporte psicológico. Em casos complexos ou refratários, essa distinção fisiológica é de extrema utilidade para evitar a realização de tentativas empíricas repetidas e direcionar as condutas diretamente ao mecanismo fisiopatológico dominante.
Esse ganho diagnóstico reverte-se em impacto real na prática clínica, onde foi demonstrado que a incorporação do BSGM apoia as decisões de manejo em 84% dos pacientes com sintomas gastroduodenais crônicos, principalmente através de mudanças na farmacoterapia ou reclassificação diagnóstica. Essa utilidade clínica estende-se a cenários de alta complexidade, como uma série de casos com pacientes graves sob suspeita de dismotilidade em que o BSGM atualizou o diagnóstico clínico em 60% deles (6 de 10) e orientou o desmame de nutrição parenteral em 6 de 9 indivíduos dentro de uma via de cuidado multidisciplinar.
Embora ainda de forma emergente, o BSGM também se mostra promissor em identificar a probabilidade de resposta dos pacientes a terapias específicas. Dados preliminares sugeriram que a identificação de fenótipos neuromusculares específicos pode antecipar padrões de resposta clínica. Por exemplo, em uma coorte de 42 pacientes tratados com pró-cinéticos, uma baixa amplitude gástrica pós-prandial foi capaz de predizer uma melhora sintomática, enquanto os pacientes portadores de disritmias gástricas demonstraram menor probabilidade de responder a essa classe farmacológica. Ademais, dados preliminares associados ao procedimento de miotomia endoscópica peroral gástrica (G-POEM) revelaram respostas específicas ao fenótipo, onde os padrões disrítmico e contínuo associaram-se a respostas clínicas favoráveis, enquanto o fenótipo de alta frequência prediz a ausência de resposta terapêutica.
Por fim, evidências de mundo real atribuíram ao BSGM um valor prognóstico robusto. Em uma coorte de 153 pacientes, a presença de fenótipos motores anormais foi preditora de falha terapêutica médica. caracterizada pela necessidade de suporte nutricional ou intervenções médicas avançadas, de maneira independente do atraso de esvaziamento gástrico verificado na cintilografia. Essa probabilidade de falha terapêutica atingiu seu maior índice (86,3%) no grupo de pacientes que combinavam simultaneamente o atraso no esvaziamento gástrico e o fenótipo de disritmia gástrica. A identificação precoce dessa sobreposição fenotípica crítica sinaliza ao clínico a necessidade de intervenções multidisciplinares aceleradas, suporte e planejamento nutricional imediatos, avaliação ativa da via pilórica ou consideração de procedimentos avançados.
Em suma, a dispepsia funcional e a gastroparesia representam apresentações clínicas cujos sintomas só podem ser tratados de forma mais eficaz quando seus mecanismos subjacentes são compreendidos em cada paciente. Nesse contexto, a BSGM surge como uma ferramenta não invasiva e multimodal capaz de avaliar a função gástrica além dos estudos de esvaziamento gástrico, identificando fenótipos fisiológicos reprodutíveis que variam desde disfunções neuromusculares até distúrbios da interação intestino-cérebro. Embora o método tenha potencial para explicar a heterogeneidade dos sintomas e orientar avaliações e tratamentos mais direcionados, ainda são necessários estudos que associem seus fenótipos à resposta terapêutica, validem sua classificação em populações maiores e esclareçam os mecanismos biológicos específicos relacionados a cada padrão identificado. Além disso, pesquisas longitudinais deverão determinar como esses fenótipos evoluem com a progressão da doença e com as intervenções terapêuticas. No futuro, a tendência é que a BSGM seja integrada a outros exames complementares, como estudos de esvaziamento gástrico, avaliações autonômicas e medidas de acomodação gástrica, permitindo a construção de perfis mais completos dos pacientes e favorecendo uma abordagem diagnóstica e terapêutica baseada em mecanismos fisiopatológicos e fenótipos, em substituição ao manejo predominantemente empírico atual.
Publicado el 8 de septiembre de 2026
Diagnóstico
Mapeamento Gástrico de Superfície Corporal (BSGM): A nova era no diagnóstico da motilidade gástrica
Entenda como o mapeamento mioelétrico gástrico de alta resolução (BSGM) supera a baixa reprodutibilidade da cintilografia tradicional, integrando biomarcadores motores, sensoriais e psicométricos em um único exame não invasivo.
Autor/a: Jarongkorn Sirimongkolkasem, Christopher N. Andrews e Gregory O’Grady
Fuente: Curr Gastroenterol Rep. V. 28, N. 1, 2026. Body Surface Gastric Mapping Improves Diagnosis of Gastric Motility Disorders
Os sintomas gastroduodenais crônicos são altamente prevalentes na população, acometendo cerca de 7% a 8% dos adultos em todo o mundo. Embora, na prática clínica, os pacientes sejam rotulados de forma distinta sob os diagnósticos de dispepsia funcional ou gastroparesia, essas condições integram um mesmo espectro patológico. Teoricamente, a gastroparesia apresenta maior correlação com lesões neuromusculares estruturais, enquanto a dispepsia tende a refletir distúrbios de acomodação gástrica, distribuição intragástrica anormal do bolo alimentar, hipersensibilidade visceral ou síndromes dolorosas. Contudo, tais distinções são consideradas parcialmente artificiais, uma vez que há uma ampla sobreposição nas fisiopatologias subjacentes de ambas as síndromes.
Sob a perspectiva clínica, a gastroparesia manifesta-se predominantemente por náuseas e vômitos, ao passo que a dispepsia funcional é mais caracterizada por dor ou queimação epigástrica, saciedade precoce e plenitude pós-prandial.
Atualmente, o atraso no esvaziamento de sólidos é o principal parâmetro laboratorial utilizado para diferenciar a gastroparesia da dispepsia funcional. A cintilografia de esvaziamento gástrico (CEG) permanece como o exame padrão para definir a gastroparesia, mas sua interpretação é frequentemente comprometida pela falta de padronização nos protocolos. Além disso, o exame apresenta limitações de reprodutibilidade: cerca de 37% a 42% dos pacientes com sintomas estáveis mudaram de classificação diagnóstica entre dispepsia funcional e gastroparesia ao repetir o teste de esvaziamento ao longo de 48 semanas. Embora o esvaziamento gástrico tenha relevância clínica, ele reflete apenas um desfecho funcional integrativo, e não um biomarcador específico do mecanismo causador da doença.
Esse cenário de indefinição diagnóstica evidencia a necessidade urgente de ferramentas de classificação baseadas em mecanismos fisiológicos. Para preencher essa lacuna, foi desenvolvido o mapeamento gástrico de superfície corporal (BSGM), um método que integra o mapeamento mioelétrico gástrico de alta resolução com o rastreamento de sintomas em tempo real e avaliações psicométricas.
Atualmente, o BSGM consolidou-se como um recurso de auxílio diagnóstico não invasivo, livre de radiação e realizável em ambiente ambulatorial, sendo operacionalizado por meio de um sistema comercial aprovado pelo Food and Drug Admininstration (denominado Gastric Alimetry). O procedimento utiliza um adesivo flexível contendo uma matriz de 64 eletrodos para maximizar a captura do sinal gástrico, sendo associado a redes neurais que eliminam de forma ativa os ruídos da leitura. O seu protocolo é altamente padronizado e estende-se por um total de 4,5 horas: inicia-se com um período de repouso basal de 30 minutos em jejum, seguido pela ingestão de uma refeição teste de 450 kcal, composta por uma bebida nutricional e uma barra de cereais, e, por fim, por quatro horas de monitoramento pós-prandial. Durante todo o teste, o paciente permanece confortavelmente sentado e utiliza um aplicativo validado para registrar seus sintomas em intervalos de aproximadamente 15 minutos, documentando tanto a intensidade contínua de sintomas quanto eventos agudos específicos, como vômitos ou eructações, gerando ao término um relatório clínico estruturado distribuído por meio de uma plataforma em nuvem.
O diferencial fisiopatológico fundamental do BSGM reside na sua capacidade de integrar avaliações motoras, sensoriais e psicológicas de forma simultânea em uma única sessão diagnóstica, indo muito além da mera análise isolada de parâmetros de esvaziamento. A avaliação motora apoia-se primariamente em três métricas espectrais validadas:
· Frequência Gástrica Principal (PGF): reflete o ritmo intrínseco do marcapasso gástrico.
· Índice de Ritmo da Gastric Alimetry (GA-RI): quantifica a estabilidade do ritmo elétrico gástrico de forma independente da frequência.
· Amplitude gástrica corrigida pelo Índice de Massa Corporal (IMC): mensura tanto a potência elétrica basal quanto a resposta contrátil pós-prandial do órgão.
Essas métricas exibem uma reprodutibilidade confiável em testes repetidos de curto e longo prazo, somando-se recentemente a elas a Razão de Resposta à Refeição (Meal Response Ratio), que caracteriza a dinâmica temporal da atividade pós-prandial.
Paralelamente, a dimensão sensorial do exame correlaciona as curvas temporais dos sintomas relatados pelo paciente com a amplitude gástrica e o tempo de evolução ao longo do teste, permitindo ao médico identificar a concordância ou discordância entre a percepção subjetiva do paciente e a atividade motora real. Por fim, uma triagem psicológica avalia os domínios de depressão, ansiedade e estresse logo no início do protocolo, permitindo ao clínico rastrear possíveis eixos de associação cérebro-intestino e melhor direcionar a conduta terapêutica.
Ao integrar os fluxos de dados motores, sensoriais e psicológicos, o BSGM permite a fenotipagem do paciente de modo a transitar dos rótulos sindrômicos tradicionais para uma classificação baseada nos mecanismos fisiopatológicos subjacentes. Foram definidos seis fenótipos principais, divididos em três grupos predominantemente motores, dois sensoriais e um voltado ao intestino delgado, os quais podem se sobrepor em um mesmo paciente.
No grupo dos fenótipos predominantemente motores, o fenótipo disrítmico destaca-se por uma instabilidade sustentada do ritmo elétrico (caracterizada por um baixo índice de ritmo gástrico ou GA-RI), refletindo uma atividade irregular das ondas elétricas lentas. Essa alteração está intimamente correlacionada com a depleção das células intersticiais de Cajal (ICC) e disfunções neuromusculares gástricas, representando um subgrupo de pacientes clinicamente mais graves, com maior carga de sintomas e alta demanda de cuidados em saúde, independentemente do status do esvaziamento gástrico.
O fenótipo de alta frequência, por sua vez, é definido por uma elevação da frequência gástrica principal (PGF) com preservação da estabilidade do ritmo elétrico, uma condição que vem sendo associada a quadros de neuropatia ou lesão vagal, especialmente em pacientes com diabetes, e que costuma sinalizar uma coorte de pacientes mais refratária às abordagens terapêuticas convencionais. Por fim, o fenótipo de baixa resposta à refeição manifesta-se por uma atividade gástrica pós-prandial fraca ou postergada associada a sintomas desencadeados pela alimentação. Este biomarcador correlaciona-se com o atraso no esvaziamento gástrico.
Em relação aos fenótipos predominantemente sensoriais, o padrão sensoriomotor é estabelecido por uma forte correlação temporal entre a curva de intensidade dos sintomas pós-prandiais e as oscilações da amplitude gástrica. Esse perfil é comumente associado a quadros de ansiedade e hipervigilância, favorecendo terapias direcionadas à acomodação gástrica ou hipersensibilidade visceral. Contrapondo-se a isso, o fenótipo contínuo é caracterizado por uma carga sintomática persistentemente elevada que se manifesta de forma totalmente independente da ingestão de alimentos ou da atividade motora gástrica. Esse padrão exibe forte associação com comorbidades psicológicas e sugere um distúrbio da interação cérebro-intestino, respondendo tipicamente melhor a neuromoduladores ou suporte psicológico.
Por fim, o fenótipo predominantemente do intestino delgado, denominado sintomas de início tardio, é identificado quando os sintomas gastroduodenais surgem apenas após o declínio da maior parte da atividade elétrica gástrica pós-prandial, o que sugere fortemente que a gênese dos sintomas decorre de uma contribuição distal, especificamente do intestino delgado.
O principal valor clínico do BSGM reside na sua capacidade de identificar anormalidades fisiológicas que a CEG convencional não consegue detectar. Em um estudo comparativo direto com pacientes submetidos a ambos os exames, o BSGM revelou anormalidades elétricas gástricas em uma proporção significativamente maior do que a CEG isolada (33,3% versus 22,7%), inclusive em pacientes que apresentavam uma taxa de esvaziamento perfeitamente normal. A combinação de ambas as modalidades elevou o rendimento diagnóstico para 42,7%, evidenciando a forte complementaridade entre as técnicas.
Além disso, a integração da fenotipagem amplia drasticamente essa capacidade diagnóstica, elevando o rendimento para 62,7% quando todos os fenótipos são considerados. Ao correlacionar temporalmente a curva de intensidade dos sintomas relatados com as oscilações da amplitude gástrica ao longo do teste, o método auxilia na tomada de decisões terapêuticas mais precisas. Sintomas que flutuam em sincronia com a atividade motora sugerem um padrão sensório-motor, indicando abordagens direcionadas à acomodação gástrica ou hipersensibilidade visceral. Em contrapartida, sintomas contínuos e totalmente independentes da atividade gástrica pós-prandial apontam para mecanismos de interação cérebro-intestino, favorecendo o uso de neuromoduladores ou suporte psicológico. Em casos complexos ou refratários, essa distinção fisiológica é de extrema utilidade para evitar a realização de tentativas empíricas repetidas e direcionar as condutas diretamente ao mecanismo fisiopatológico dominante.
Esse ganho diagnóstico reverte-se em impacto real na prática clínica, onde foi demonstrado que a incorporação do BSGM apoia as decisões de manejo em 84% dos pacientes com sintomas gastroduodenais crônicos, principalmente através de mudanças na farmacoterapia ou reclassificação diagnóstica. Essa utilidade clínica estende-se a cenários de alta complexidade, como uma série de casos com pacientes graves sob suspeita de dismotilidade em que o BSGM atualizou o diagnóstico clínico em 60% deles (6 de 10) e orientou o desmame de nutrição parenteral em 6 de 9 indivíduos dentro de uma via de cuidado multidisciplinar.
Embora ainda de forma emergente, o BSGM também se mostra promissor em identificar a probabilidade de resposta dos pacientes a terapias específicas. Dados preliminares sugeriram que a identificação de fenótipos neuromusculares específicos pode antecipar padrões de resposta clínica. Por exemplo, em uma coorte de 42 pacientes tratados com pró-cinéticos, uma baixa amplitude gástrica pós-prandial foi capaz de predizer uma melhora sintomática, enquanto os pacientes portadores de disritmias gástricas demonstraram menor probabilidade de responder a essa classe farmacológica. Ademais, dados preliminares associados ao procedimento de miotomia endoscópica peroral gástrica (G-POEM) revelaram respostas específicas ao fenótipo, onde os padrões disrítmico e contínuo associaram-se a respostas clínicas favoráveis, enquanto o fenótipo de alta frequência prediz a ausência de resposta terapêutica.
Por fim, evidências de mundo real atribuíram ao BSGM um valor prognóstico robusto. Em uma coorte de 153 pacientes, a presença de fenótipos motores anormais foi preditora de falha terapêutica médica. caracterizada pela necessidade de suporte nutricional ou intervenções médicas avançadas, de maneira independente do atraso de esvaziamento gástrico verificado na cintilografia. Essa probabilidade de falha terapêutica atingiu seu maior índice (86,3%) no grupo de pacientes que combinavam simultaneamente o atraso no esvaziamento gástrico e o fenótipo de disritmia gástrica. A identificação precoce dessa sobreposição fenotípica crítica sinaliza ao clínico a necessidade de intervenções multidisciplinares aceleradas, suporte e planejamento nutricional imediatos, avaliação ativa da via pilórica ou consideração de procedimentos avançados.
Em suma, a dispepsia funcional e a gastroparesia representam apresentações clínicas cujos sintomas só podem ser tratados de forma mais eficaz quando seus mecanismos subjacentes são compreendidos em cada paciente. Nesse contexto, a BSGM surge como uma ferramenta não invasiva e multimodal capaz de avaliar a função gástrica além dos estudos de esvaziamento gástrico, identificando fenótipos fisiológicos reprodutíveis que variam desde disfunções neuromusculares até distúrbios da interação intestino-cérebro. Embora o método tenha potencial para explicar a heterogeneidade dos sintomas e orientar avaliações e tratamentos mais direcionados, ainda são necessários estudos que associem seus fenótipos à resposta terapêutica, validem sua classificação em populações maiores e esclareçam os mecanismos biológicos específicos relacionados a cada padrão identificado. Além disso, pesquisas longitudinais deverão determinar como esses fenótipos evoluem com a progressão da doença e com as intervenções terapêuticas. No futuro, a tendência é que a BSGM seja integrada a outros exames complementares, como estudos de esvaziamento gástrico, avaliações autonômicas e medidas de acomodação gástrica, permitindo a construção de perfis mais completos dos pacientes e favorecendo uma abordagem diagnóstica e terapêutica baseada em mecanismos fisiopatológicos e fenótipos, em substituição ao manejo predominantemente empírico atual.