Distúrbios cardiometabólicos e neuropsiquiátricos estão entre os principais contribuintes para a carga de doenças em idosos, frequentemente resultando em incapacidade e perda de independência. Os impactos sociais e econômicos de tais condições são profundos, pois estão entre as principais preocupações para as populações que envelhecem. Portanto, alcançar uma vida livre de demência e incapacidade física, conhecido como sobrevida livre de incapacidade (SLI), é um importante objetivo de saúde pública.
Doenças cardiometabólicas (DCMs) estão entre as condições crônicas mais prevalentes e onerosas em populações idosas, contribuindo para reduções significativas na expectativa de vida. Essas contribuem para a incapacidade física e o comprometimento neurocognitivo a longo prazo por meio de mecanismos como inflamação crônica, disfunção endotelial e desregulação metabólica. As DCMs frequentemente ocorrem em conjunto com a depressão, compartilhando vias fisiopatológicas sobrepostas, como disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), neuroinflamação e fatores de risco de estilo de vida. Esses mecanismos sugerem um potencial efeito sinérgico, na qual ambas as condições - referida como multimorbidade cardiometólica (MMC) - podem amplificar o risco de incapacidade física e comprometimento neurocognitivo.
Embora pesquisas anteriores tenham demonstrado principalmente os efeitos independentes da depressão e das DCMs no declínio funcional ou cognitivo, poucos estudos exploraram os efeitos conjuntos dessas condições. Para preencher essa lacuna, Davoodian e colaboradores (2025) utilizaram dados longitudinais para investigar os efeitos interativos da depressão e DCMs comuns na SLI em idosos.
Para isso, os autores utilizaram dados do estudo The ASPirin in Reducing Events in the Elderly (ASPREE) e seus acompanhamentos observacionais (2010–2019), envolvendo adultos residentes na comunidade com idade ≥ 70 anos (≥65 para minorias nos EUA). Modelos de Cox com atualização temporal foram usados para estimar o efeito combinado de depressão e DCMs (diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão, doença renal crônica [DRC], doe doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica [MASLD] e eventos cardiovasculares adversos maiores), bem como multimorbidade cardiometabólica (≥2 DCMs) na SLI. Para avaliar a melhora na SLI associada ao tratamento antidepressivo em indivíduos com depressão, os autores estimaram o número necessário para tratar (NNT) para alcançar um aumento de um ano na SLI através da terapia antidepressiva.
Entre os 18.739 participantes com um acompanhamento máximo de nove anos, a idade média (DP) no início do estudo foi de 75,1 anos, 93,5% eram brancos e 56,0% eram mulheres. No início do estudo, a maioria dos participantes tanto no grupo sem depressão quanto no grupo com depressão provável eram consumidores moderados de álcool e não fumantes. O IMC médio foi ligeiramente maior no grupo com depressão provável.
Eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE) incluíram morte por doença arterial coronariana (DAC), infarto do miocárdio não fatal e acidente vascular cerebral isquêmico fatal ou não fatal. Hipertensão foi definida como PAS ≥ 140 mmHg e/ou PAD ≥ 90 mmHg ou uso de medicação anti-hipertensiva. DM2 foi definido por autorrelato, uso de medicação para baixar a glicose ou glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL (7,0 mmol/L). Dislipidemia incluiu o uso de medicamentos para baixar o colesterol, colesterol total sérico ≥212 mg/dL (5,5 mmol/L, Austrália) ou ≥240 mg/dL (6,2 mmol/L, EUA), ou LDL > 160 mg/dL (4,1 mmol/L). DRC foi definida como TFG estimado < 60 ml/min/1,73 m2 ou RCAU em amostra de urina aleatória ≥ 3 mg/mmol. DHGNA foi definida usando o IGHF e atendendo a pelo menos um critério cardiometabólico.
Os resultados demonstraram que indivíduos com sintomas depressivos e DCMs tiveram uma SLI significativamente menor em comparação com aqueles com apenas uma das condições. A tabela 1 demonstra o impacto das DCMs em combinação ou não com a depressão na SLI.
| Sem depressão | Com depressão | |
| DM2 | Redução de 15,9% | Redução de 34,6% |
| Dislipidemia | Redução de 16% | Redução de 28,6% |
| DHGNA | Redução de 2,9% | Redução de 32% |
| DRC | Redução de 4,8% | Redução de 32% |
| MACE | Redução de 8,3% | Redução de 39,4% |
| Hipertensão | Redução de 3% | Redução de 20,6% |
Tabela 1: Impacto das DCMs na redução da SLI.
Ademais, participantes com duas ou mais DCMs (MMC) e sintomas depressivos tiveram uma taxa de SLI 36,71% menor em comparação com aqueles com menos de duas DCMs e sem sintomas depressivos. Por fim, a presença de sintomas depressivos em idosos livres das DCMs investigadas foi associada a uma SLI aproximadamente 19%–27% menor.
O uso de antidepressivos em idosos com DCMS foi significativamente associada a uma melhora na SLI. Tratar sete indivíduos com sintomas depressivos foi associado a um aumento estimado de um ano na SLI, sugerindo a terapia em populações-alvo pode ser eficaz na extensão da SLI. Entre os fármacos, a amitriptilina foi a medicação mais frequentemente prescrita ao longo de sete visitas anuais, seguida pelos inibidores seletivos de recaptação de serotonina, principalmente sertralina e escitalopram, e antidepressivos atípicos, principalmente mirtazapina.
Os resultados das análises secundárias, avaliando o declínio cognitivo como desfecho, foram consistentes com os achados primários. Participantes com sintomas depressivos e DCMs geralmente mostraram razões de risco mais elevadas para o declínio cognitivo.
Em conclusão, o estudo demonstrou a significativa associação conjunta da depressão e das DCMs com a SLI encurtada em idosos, com a depressão exercendo um efeito mais pronunciado. Dado o envelhecimento da população global e o papel da depressão como uma das principais causas de incapacidade, o tratamento direcionado da depressão em indivíduos de alto risco pode aumentar substancialmente a longevidade saudável em idosos.