|
Vale a pena as novas formas de leitura? Uma metanálise sobre a relação entre os hábitos de leitura digital por lazer e a compreensão de textos Resumo Pesquisas anteriores têm demonstrado uma forte relação positiva entre os hábitos de leitura de textos impressos no lazer e a compreensão de leitura ao longo da vida. A rápida evolução de novas formas de leitura digital no lazer pode modificar esta relação. Esta metanálise teve como papel ampliar as investigações anteriores ao analisar a relação entre os hábitos de leitura digital de lazer e a compreensão de leitura. Foram analisados 40 tamanhos de efeito mediante análise multinível. Os dados evoluíram a 469,564 participantes de estudos publicados entre 2000 e 2022. O tamanho do efeito médio refletiu um pequeno efeito significativo na compreensão da leitura (r=0,055), que contrastou com os efeitos de tamanho mediano encontrados na literatura relacionada com os hábitos de leitura impressa e a compreensão. Esta relação esteve significativamente moderada pela etapa educativa do leitor. Em etapas precoces (primárias e secundárias) se observaram relações negativas entre a leitura digital de lazer e a compreensão de textos, enquanto em etapas posteriores (secundária e universidade) a relação se tornou positiva. Destacou-se as diferentes contribuições que as modalidades de leitura e os contextos tecnológicos têm em nossa compreensão de leitura, especialmente ao longo da vida. Em resumo, a leitura digital de lazer não pareceu dar tantos frutos em termos de compreensão de leitura, ao menos, como leitura impressa tradicional. |
Comentários
Durante anos, as investigações demonstraram que a leitura impressa, seja no lazer ou na escola, melhorou o desenvolvimento da capacidade dos leitores de compreender um texto. No entanto, o uso explosivo de dispositivos de leitura digitais, o acesso constante a estes dispositivos novos tipos de materiais de leitura tem introduzido novos hábitos de leitura. Com isso, uma nova revisão da investigação sobre os hábitos de leitura no lazer digital encontrou uma relação praticamente inexistente entre a leitura digital e a melhora na compreensão de leitura entre os estudantes.
O estudo foi publicado na Review of Educational Research, uma revista revisada por pares da Associação Estadunidense de Investigação Educativa, e foi realizado por Lidia Altamura, Cristina Vargas e Ladislao Salmerón, todos da Universidade de Valência.
Vídeo: A coautora Lidia Altamura analisa os achados e as implicações do estudo.
“Em resumo, para os leitores em desenvolvimento, a leitura digital de lazer não parece ser rentável em termos de compreensão de leitura, ao menos não tanto como a leitura impressa tradicional”, disse a coautora do estudo Lidia Altamura, estudante de doutorado na Universidade de Valência. “Nossos achados são particularmente surpreendentes quando os comparamos com o que já sabemos sobre a associação positiva bem estabelecida entre a frequência de leitura impressa e a compreensão de textos”.
Extrapolando o que se sabe de estudos anteriores, os autores estimam que se um estudante passa 10 horas lendo de forma impressa em seu tempo livre, sua capacidade de compreensão provavelmente será de 6 a 8 vezes maior do que se lesse a mesma quantidade de tempo em dispositivos digitais.
“Esperávamos que a leitura digital de lazer com fins informativos, como visitar Wikipedia ou outras páginas web educativas, ou ler notícias, estivesse muito mais positivamente vinculada com a compreensão”, disse Altamura. “Mas não foi este o caso”.
O estudo foi a primeira metanálise de uma investigação que se centrou nos vínculos específicos entre os hábitos de leitura de lazer em dispositivos digitais e a compreensão da leitura. Os autores encontraram que nas primeiras etapas (primária e secundária), havia pequenas relações negativas entre a leitura digital de lazer e a compreensão, enquanto as etapas posteriores, a relação se tornou ligeiramente positiva. No geral, independente da etapa educativa, os hábitos de leitura digital tiveram uma relação menor com a compreensão da leitura, em comparação com os resultados de leitura impressa de investigações anteriores.
As conclusões baseiam-se na síntese dos autores de 25 estudos, publicados entre 2000 e 2022, envolvendo cerca de 470 mil participantes de pelo menos três dezenas de países.
Altamura e colegas sugeriram duas razões pelas quais a leitura digital pode não ser rentável para o desenvolvimento de leitores em comparação com a leitura impressa.
Primeiro, os dispositivos de leitura digital podem servir a muitos outros propósitos além da leitura, o que distrai os leitores.
Em segundo lugar, a Internet trouxe novos tipos de leitura, com características como estímulos curtos e rápidos, conteúdo de menor qualidade e vocabulário menos sofisticado.
Os autores enfatizaram que os educadores e os pais devem incentivar os alunos, especialmente os mais jovens, a lerem impressos com mais frequência do que em dispositivos digitais.
"Com base nos nossos resultados, não podemos simplesmente assumir que toda a leitura recreativa será benéfica para o desenvolvimento dos leitores", disse Altamura. "O meio utilizado é importante."