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Publicado el 7 de abril de 2026

Laticínios e risco de demência

Um estudo prospectivo com 27.670 participantes revelou que o consumo de queijo e creme de leite integrais foi associado a um menor risco de demência a longo prazo.

Autor/a: Morris MC, Tangney CC, Wang Y, Sacks FM, Barnes LL, Bennett DA, Aggarwal NT

Fuente: Alzheimers Dement., V.11, N. 9, pg 1015-1022, 2015. MIND diet slows cognitive decline with aging

Diante da projeção global de que os casos de demência saltem de 57 milhões em 2019 para 153 milhões até 2050, e na ausência de tratamentos eficazes, a modificação de fatores de risco torna-se uma estratégia preventiva essencial. A dieta é reconhecida como um desses fatores, embora certos padrões alimentares como a Mediterranean-DASH Diet Intervention for Neurodegenerative Delay (MIND) apresentem resultados inconsistentes. A MIND é inspirada na combinação entre a dieta mediterrânea e a Dietary Approach to Systolic Hypertension (DASH), mas com foco na saúde cerebral. Ela prioriza vegetais, frutas vermelhas, nozes, azeite e peixes, limitando gorduras saturadas e açúcar.

Os laticínios têm sido amplamente estudados, mas sua associação com a demência permanece em debate. Enquanto evidências em populações asiáticas sugeriram um efeito protetor do consumo total, o mesmo não foi observado em populações europeias. Essa discrepância pode decorrer da diversidade nos métodos de processamento, na matriz alimentar e no conteúdo de gordura e nutrientes de cada produto. Entre os derivados lácteos, o queijo destaca-se como o de maior potencial protetor em estudos prévios, embora a dieta MIND o classifique como um alimento a ser limitado devido ao teor de gordura saturada. Por outro lado, o consumo de creme de leite é pouco explorado, e o de leite e iogurte frequentemente apresenta associações nulas com o risco de demência.

Diante dessas lacunas, Du e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de investigar a associação entre o consumo de laticínios de alto e baixo teor de gordura com o risco de demência por todas as causas, Doença de Alzheimer e demência vascular. Além disso, eles avaliaram se o status do alelo APOE ε4 modifica essas associações.

A pesquisa utilizou dados da coorte prospectiva Malmö Diet and Cancer (MDC), realizada na Suécia, que recrutou participantes de base comunitária com idades entre 45 e 73 anos entre 1991 e 1996. Após a exclusão de indivíduos com dados incompletos ou barreiras cognitivas e de linguagem no início do estudo, a amostra final para análise totalizou 27.670 participantes. Para a avaliação da interação genética com o alelo APOE ε4, a amostra foi restrita a 26.661 indivíduos com dados genotípicos disponíveis.

A avaliação dietética foi realizada por meio de uma abordagem de histórico alimentar modificado, que integrou um diário alimentar de sete dias (focado em refeições cozidas), um Questionário de Frequência Alimentar (FFQ) semiquantitativo com 168 itens (para alimentos consumidos regularmente, mas não cobertos pelo diário) e uma entrevista dietética de 45 a 60 minutos para quantificar porções e métodos de preparo. O consumo de laticínios foi categorizado em baixo ou alto teor de gordura com base em pontos de corte específicos: 20% para queijos, 30% para cremes e 2,5% para leite e leites fermentados.

O desfecho primário foi a incidência de demência por todas as causas, enquanto a Doença de Alzheimer (DA) e a demência vascular (DV) foram consideradas desfechos secundários. A identificação dos casos ocorreu por meio do Registro Nacional de Pacientes da Suécia. Todos os diagnósticos realizados até dezembro de 2014 foram validados por médicos treinados com base em sintomas, testes cognitivos, exames de imagem e biomarcadores, quando disponíveis. O acompanhamento para demência por todas as causas estendeu-se até dezembro de 2020, enquanto a análise de subtipos foi restrita aos casos validados até 2014.

Durante um acompanhamento mediano de 25 anos, foram registrados 3.208 casos de demência. As análises ajustadas demonstraram que o consumo elevado de queijo com alto teor de gordura (>20% de gordura) foi inversamente associado ao risco de demência por todas as causas. Especificamente, indivíduos que consumiam 50 g/dia ou mais apresentaram um risco 13% menor em comparação com aqueles com consumo inferior a 15 g/dia. Essa associação protetora foi particularmente robusta para a DV, com uma redução de risco de 29% no grupo de maior consumo.

Resultados semelhantes foram observados para o creme de leite com alto teor de gordura (>30% de gordura). Participantes que consumiam 20 g/dia ou mais apresentaram um risco 16% menor de demência por todas as causas em relação aos não consumidores. O consumo de creme integral também mostrou associações inversas com os riscos de DA e DV quando analisado como variável contínua. Em contrapartida, o consumo de queijo e creme com baixo teor de gordura, bem como de leite (integral ou magro) e leites fermentados, não apresentou associações significativas com a incidência de demência por todas as causas. No caso do leite desnatado, observou-se um risco elevado em análises preliminares (2014), mas essa associação perdeu significância estatística no acompanhamento estendido até 2020.

Um dado relevante foi a interação genética observada com o status do alelo APOE ε4. A associação protetora entre o consumo de queijo integral e a DA foi estatisticamente significativa apenas entre os não portadores do alelo APOE ε4, enquanto não foi observada associação nos portadores do alelo. Além disso, diferentemente dos outros laticínios, o consumo elevado de manteiga (≥40 g/dia) foi associado a um maior risco de DA, embora tenha mostrado um efeito potencialmente protetor para demência total apenas entre indivíduos com dieta de alta qualidade, sugerindo que o contexto dietético global influencia o impacto desse alimento específico.

As análises de substituição reforçaram esses achados ao indicar que substituir 20 g/dia de queijo ou creme integral por quantidades equivalentes de leite, carne vermelha processada ou carnes com alto teor de gordura aumentaria o risco de demência. É importante notar que os consumidores de laticínios integrais tendiam a ter um IMC menor e níveis educacionais mais altos, mas também apresentavam maior prevalência de tabagismo e consumo de álcool. Contudo, as associações permaneceram consistentes mesmo após o ajuste rigoroso para esses fatores de estilo de vida e comorbidades. As análises de sensibilidade, que excluíram casos diagnosticados nos primeiros 10 anos de seguimento para evitar o viés de causalidade reversa, resultaram em associações ainda mais fortes entre o consumo de queijo integral e a proteção cognitiva.

Em conclusão, Du e colaboradores (2025) indicaram que o consumo elevado de queijo e creme de leite com alto teor de gordura foi associado a um menor risco de demência por todas as causas, independentemente de fatores de estilo de vida, comorbidades ou da qualidade global da dieta. Por outro lado, o consumo de laticínios com baixo teor de gordura, leite e produtos fermentados não demonstrou associações protetoras semelhantes, sugerindo que os benefícios observados podem estar ligados à matriz alimentar específica e aos nutrientes presentes nos produtos integrais, como a vitamina K2 e o conteúdo lipídico diferenciado.

As análises de substituição reforçaram essa perspectiva, sugerindo que a troca de queijo ou creme integral por leite ou carnes processadas poderia, na verdade, aumentar o risco de demência. Esses resultados trazem uma nova camada ao debate sobre diretrizes nutricionais, como a dieta MIND, que recomenda limitar o queijo devido às gorduras saturadas.