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Publicado el 6 de agosto de 2026

Intervenção no estilo de vida reduz declínio cognitivo em 55% na América Latina

A viabilidade de estratégias não farmacológicas em larga escala como ferramenta para reduzir as iniquidades no cuidado da demência.

A demência representa um desafio global crescente, com uma prevalência particularmente elevada em países de baixa e média renda. Especificamente na América Latina, a carga da doença é agravada pelas taxas elevadas de hipertensão, diabetes, obesidade e baixa escolaridade. Além disso, o acesso a biomarcadores, cuidados especializados e programas de prevenção é limitado, e as populações latino-americanas continuam sub-representadas em ensaios clínicos, o que perpetua as iniquidades em pesquisa e tratamento.

Recentemente, o estudo finlandês FINGER marcou um avanço ao demonstrar que uma intervenção multidomínio, que abrangia dieta, atividade física, treinamento cognitivo, monitoramento de risco vascular e engajamento social, foi capaz de melhorar a performance cognitiva em idosos em risco. Esse modelo foi adaptado globalmente através da rede World-Wide FINGERS, porém os resultados dos ensaios subsequentes têm se mostrado heterogêneos.

Nesse contexto, Crivelli et al., (2026) realizaram o estudo o LatAm-FINGERS, o primeiro ensaio clínico randomizado planejado para investigar uma intervenção de estilo de vida multidomínio culturalmente adaptada na América Latina. Conduzido inicialmente em doze países da região, o estudo teve como objetivos primários avaliar a viabilidade dessa intervenção sistemática e comparar seus efeitos sobre a função cognitiva global em idosos com perfil de risco, em relação a uma intervenção de estilo de vida flexível e autoguiada.

Para o estudo, foram incluídos idosos com idades entre 60 e 77 anos que apresentavam um alto risco de demência, critério definido pela presença de fatores de risco cardiovascular, idade avançada e uma pontuação de risco de demência igual ou superior a seis, além de um desempenho cognitivo abaixo do esperado nos testes iniciais. Foram excluídos aqueles com diagnóstico prévio de demência, transtornos neurológicos ou psiquiátricos graves e condições clínicas que contraindicassem a participação nas atividades propostas.

A randomização dos participantes foi feita na proporção de 1:1, alocando-os para o grupo de Intervenção Sistemática de Estilo de Vida (SLI) ou para o de Intervenção Flexível de Estilo de Vida (FLI). O primeiro foi submetido a um programa multidomínio estruturado de dois anos, com suporte supervisionado e monitoramento constante, que incluiu quatro componentes principais:

·       atividade física supervisionada quatro vezes por semana, abrangendo exercícios aeróbicos, de resistência, coordenação e equilíbrio;

·       aconselhamento dietético baseado na dieta Mediterranean-DASH Diet Intervention for Neurodegenerative Delay (MIND), que combina os padrões alimentares mediterrâneos e da Dietary Approaches to Stop Hypertension (DASH);

·       treinamento cognitivo computadorizado por meio da plataforma BrainHQ;

·       e o gerenciamento de risco cardiovascular, com monitoramento periódico de parâmetros como pressão arterial e níveis glicêmicos.

Enquanto isso, o grupo FLI recebeu orientações gerais de saúde por meio de quatro reuniões em grupo ao longo desses dois anos, servindo como um controle ativo com intervenção de estilo de vida autodirigida.

Os desfechos primários do estudo foram a viabilidade do ensaio, avaliada pela estrutura de Alcance, Implementação e Manutenção (RE-AIM), e a eficácia da intervenção nas trajetórias da função cognitiva global ao longo dos dois anos. As avaliações cognitivas foram realizadas no início do estudo e a cada seis meses, utilizando uma bateria de testes que compunha pontuações para memória episódica, função executiva e velocidade de processamento.

Dos 1.719 indivíduos inicialmente triados, 1.065 participantes de onze países foram incluídos na amostra analítica final, sendo 539 alocados no grupo de SLI e 526 no FLI. A média de idade da coorte foi de 67,5 anos, com uma expressiva maioria feminina (75%). Em termos de representatividade étnica, a amostra foi composta predominantemente por indivíduos que se autodeclararam mestiços (59%) e brancos (27%), com 38% dos participantes possuindo escolaridade até o nível médio.

Quanto ao desfecho primário de eficácia, ambos os grupos apresentaram melhora nos escores de cognição global ao longo do tempo, o que pode ser atribuído, em parte, a efeitos de aprendizagem dos testes. No entanto, o grupo SLI demonstrou um ganho significativamente superior, com uma mudança média anual de 0,31 no desvio padrão (SD), comparada a 0,20 SD no grupo FLI. Essa diferença representou uma melhora anual na cognição global aproximadamente 55% maior no grupo submetido à intervenção sistemática.

Os desfechos secundários reforçaram a superioridade da intervenção multidomínio em domínios específicos. O grupo SLI apresentou melhoras significativamente maiores na memória episódica, função executiva e velocidade de processamento. Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos no desfecho clínico funcional medido pela escala Clinical Dementia Rating Sum of Boxes (CDR-SB), possivelmente devido ao fato da população do estudo ser composta por idosos em risco, mas sem demência estabelecida. Isso resultou em pontuações basais muito baixas na escala, dificultando a detecção de mudanças funcionais significativas durante o período do ensaio.

Análises exploratórias de subgrupos revelaram uma interação potencial baseada no sexo. O benefício da intervenção SLI foi claro e significativo entre as mulheres, enquanto entre os homens não houve diferença estatística entre os grupos, possivelmente devido à menor aderência desse grupo ao protocolo. Não foram encontradas evidências de heterogeneidade nos resultados de acordo com idade, escolaridade, risco cardiovascular basal ou status do alelo APOE ε4.

No que se refere à segurança, o estudo reportou um total de 478 eventos adversos, com uma frequência substancialmente maior no grupo SLI (412 eventos) do que no FLI (66 eventos). Os mais comuns foram sintomas musculoesqueléticos, principalmente devido ao aumento da atividade física, infecções respiratórias superiores e COVID-19.

Em conclusão, o estudo LatAm-FINGERS estabeleceu um marco fundamental na neurologia preventiva ao demonstrar que uma intervenção de estilo de vida multidomínio, culturalmente adaptada, não foi apenas viável e segura, mas também eficaz na melhora da função cognitiva de idosos em risco na América Latina. Os resultados revelaram que a intervenção sistemática proporcionou benefícios cognitivos superiores à orientação flexível, com ganhos mensuráveis não apenas na cognição global, mas também em domínios críticos como memória episódica, função executiva e velocidade de processamento.