Noticias médicas

Publicado el 26 de octubre de 2026

Inteligência artificial identifica infartos por oclusão coronariana e localiza artéria bloqueada com alta precisão

Algoritmo treinado com mais de 540 mil eletrocardiogramas identifica infartos por oclusão coronariana e aponta a artéria bloqueada, com potencial para acelerar o tratamento de emergência.

Autor/a: Gustafsson, S. et al.

Fuente: Nat Commun 17, 4336 (2026). A deep learning ECG model for identification and localization of occlusion myocardial infarction

Uma ferramenta de inteligência artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP), demonstrou alta capacidade para identificar infartos causados por oclusão coronariana aguda e apontar a localização da artéria bloqueada utilizando apenas o eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações. Os resultados foram publicados na revista Nature Communications.

O modelo foi treinado com 540.372 exames de ECG realizados em serviços de emergência e correlacionados aos resultados da angiografia coronariana, exame considerado padrão-ouro para confirmar a presença e a localização da obstrução coronariana. Posteriormente, a tecnologia foi validada em diferentes bases independentes, incluindo uma coorte de 401 pacientes atendidos no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo.

O principal objetivo da ferramenta é identificar os chamados infartos por oclusão do miocárdio (OMI, do inglês occlusion myocardial infarction), quadro associado ao bloqueio completo de uma artéria coronária e que exige reperfusão imediata para evitar danos irreversíveis ao músculo cardíaco.

Segundo os pesquisadores, muitos pacientes com oclusão coronariana não apresentam no ECG o clássico supradesnivelamento do segmento ST, critério amplamente utilizado para definir a necessidade de tratamento urgente. Nesses casos, o diagnóstico pode depender da integração de sintomas, biomarcadores e exames complementares, aumentando o risco de atrasos. A IA foi capaz de reconhecer padrões sutis no traçado eletrocardiográfico que frequentemente passam despercebidos na análise convencional.

No estudo, o algoritmo apresentou excelente desempenho para identificação de OMI, com área sob a curva (C-statistic) superior a 0,95, além de conseguir localizar a lesão culpada nos três principais territórios coronarianos. Em pacientes com alterações clássicas de supra-ST, a taxa de acerto alcançou 96%. Mesmo nos casos mais desafiadores, sem essas alterações características, o sistema identificou corretamente a oclusão em 82% das avaliações.

Os autores destacaram que a tecnologia pode ser particularmente útil em situações de emergência, auxiliando equipes médicas na decisão sobre estratégias de reperfusão e no encaminhamento mais rápido para cateterismo. Além disso, a identificação precoce da artéria acometida pode ajudar no planejamento do procedimento invasivo.

A ferramenta não foi desenvolvida para substituir a avaliação médica, mas para atuar como suporte à tomada de decisão clínica. A interpretação dos achados, a definição diagnóstica e a escolha do tratamento permanecem sob responsabilidade da equipe assistencial.

Pesquisadores do InCor seguem avaliando o desempenho do algoritmo em condições reais de atendimento. Antes de uma eventual incorporação à prática clínica, a tecnologia ainda precisará passar por etapas adicionais de validação e aprovação regulatória.

Os autores ressaltaram que, por não depender exclusivamente dos critérios de supra-ST ou dos níveis de troponina para identificar a oclusão coronariana aguda, a ferramenta tem potencial para reduzir o tempo até a reperfusão, otimizar recursos e melhorar o cuidado de pacientes com infarto agudo do miocárdio. Entretanto, estudos clínicos randomizados ainda serão necessários para confirmar seu impacto em desfechos clínicos relevantes.