Uma ferramenta de inteligência artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP), demonstrou alta capacidade para identificar infartos causados por oclusão coronariana aguda e apontar a localização da artéria bloqueada utilizando apenas o eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações. Os resultados foram publicados na revista Nature Communications.
O modelo foi treinado com 540.372 exames de ECG realizados em serviços de emergência e correlacionados aos resultados da angiografia coronariana, exame considerado padrão-ouro para confirmar a presença e a localização da obstrução coronariana. Posteriormente, a tecnologia foi validada em diferentes bases independentes, incluindo uma coorte de 401 pacientes atendidos no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo.
O principal objetivo da ferramenta é identificar os chamados infartos por oclusão do miocárdio (OMI, do inglês occlusion myocardial infarction), quadro associado ao bloqueio completo de uma artéria coronária e que exige reperfusão imediata para evitar danos irreversíveis ao músculo cardíaco.
Segundo os pesquisadores, muitos pacientes com oclusão coronariana não apresentam no ECG o clássico supradesnivelamento do segmento ST, critério amplamente utilizado para definir a necessidade de tratamento urgente. Nesses casos, o diagnóstico pode depender da integração de sintomas, biomarcadores e exames complementares, aumentando o risco de atrasos. A IA foi capaz de reconhecer padrões sutis no traçado eletrocardiográfico que frequentemente passam despercebidos na análise convencional.
No estudo, o algoritmo apresentou excelente desempenho para identificação de OMI, com área sob a curva (C-statistic) superior a 0,95, além de conseguir localizar a lesão culpada nos três principais territórios coronarianos. Em pacientes com alterações clássicas de supra-ST, a taxa de acerto alcançou 96%. Mesmo nos casos mais desafiadores, sem essas alterações características, o sistema identificou corretamente a oclusão em 82% das avaliações.
Os autores destacaram que a tecnologia pode ser particularmente útil em situações de emergência, auxiliando equipes médicas na decisão sobre estratégias de reperfusão e no encaminhamento mais rápido para cateterismo. Além disso, a identificação precoce da artéria acometida pode ajudar no planejamento do procedimento invasivo.
A ferramenta não foi desenvolvida para substituir a avaliação médica, mas para atuar como suporte à tomada de decisão clínica. A interpretação dos achados, a definição diagnóstica e a escolha do tratamento permanecem sob responsabilidade da equipe assistencial.
Pesquisadores do InCor seguem avaliando o desempenho do algoritmo em condições reais de atendimento. Antes de uma eventual incorporação à prática clínica, a tecnologia ainda precisará passar por etapas adicionais de validação e aprovação regulatória.
Os autores ressaltaram que, por não depender exclusivamente dos critérios de supra-ST ou dos níveis de troponina para identificar a oclusão coronariana aguda, a ferramenta tem potencial para reduzir o tempo até a reperfusão, otimizar recursos e melhorar o cuidado de pacientes com infarto agudo do miocárdio. Entretanto, estudos clínicos randomizados ainda serão necessários para confirmar seu impacto em desfechos clínicos relevantes.
Publicado el 26 de octubre de 2026
Saúde
Inteligência artificial identifica infartos por oclusão coronariana e localiza artéria bloqueada com alta precisão
Algoritmo treinado com mais de 540 mil eletrocardiogramas identifica infartos por oclusão coronariana e aponta a artéria bloqueada, com potencial para acelerar o tratamento de emergência.
Autor/a: Gustafsson, S. et al.
Fuente: Nat Commun 17, 4336 (2026). A deep learning ECG model for identification and localization of occlusion myocardial infarction
Uma ferramenta de inteligência artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP), demonstrou alta capacidade para identificar infartos causados por oclusão coronariana aguda e apontar a localização da artéria bloqueada utilizando apenas o eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações. Os resultados foram publicados na revista Nature Communications.
O modelo foi treinado com 540.372 exames de ECG realizados em serviços de emergência e correlacionados aos resultados da angiografia coronariana, exame considerado padrão-ouro para confirmar a presença e a localização da obstrução coronariana. Posteriormente, a tecnologia foi validada em diferentes bases independentes, incluindo uma coorte de 401 pacientes atendidos no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo.
O principal objetivo da ferramenta é identificar os chamados infartos por oclusão do miocárdio (OMI, do inglês occlusion myocardial infarction), quadro associado ao bloqueio completo de uma artéria coronária e que exige reperfusão imediata para evitar danos irreversíveis ao músculo cardíaco.
Segundo os pesquisadores, muitos pacientes com oclusão coronariana não apresentam no ECG o clássico supradesnivelamento do segmento ST, critério amplamente utilizado para definir a necessidade de tratamento urgente. Nesses casos, o diagnóstico pode depender da integração de sintomas, biomarcadores e exames complementares, aumentando o risco de atrasos. A IA foi capaz de reconhecer padrões sutis no traçado eletrocardiográfico que frequentemente passam despercebidos na análise convencional.
No estudo, o algoritmo apresentou excelente desempenho para identificação de OMI, com área sob a curva (C-statistic) superior a 0,95, além de conseguir localizar a lesão culpada nos três principais territórios coronarianos. Em pacientes com alterações clássicas de supra-ST, a taxa de acerto alcançou 96%. Mesmo nos casos mais desafiadores, sem essas alterações características, o sistema identificou corretamente a oclusão em 82% das avaliações.
Os autores destacaram que a tecnologia pode ser particularmente útil em situações de emergência, auxiliando equipes médicas na decisão sobre estratégias de reperfusão e no encaminhamento mais rápido para cateterismo. Além disso, a identificação precoce da artéria acometida pode ajudar no planejamento do procedimento invasivo.
A ferramenta não foi desenvolvida para substituir a avaliação médica, mas para atuar como suporte à tomada de decisão clínica. A interpretação dos achados, a definição diagnóstica e a escolha do tratamento permanecem sob responsabilidade da equipe assistencial.
Pesquisadores do InCor seguem avaliando o desempenho do algoritmo em condições reais de atendimento. Antes de uma eventual incorporação à prática clínica, a tecnologia ainda precisará passar por etapas adicionais de validação e aprovação regulatória.
Os autores ressaltaram que, por não depender exclusivamente dos critérios de supra-ST ou dos níveis de troponina para identificar a oclusão coronariana aguda, a ferramenta tem potencial para reduzir o tempo até a reperfusão, otimizar recursos e melhorar o cuidado de pacientes com infarto agudo do miocárdio. Entretanto, estudos clínicos randomizados ainda serão necessários para confirmar seu impacto em desfechos clínicos relevantes.