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/ Published on April 10, 2025

Saúde pública

Influenza aviária: tudo o que você precisa saber

Quão perigoso é? De onde veio? As origens da influenza H5N1 remontam à década de 1990, e eventos importantes prepararam o caminho para o surto que estamos testemunhando hoje.

Author: Amber Dance

Fuente: Knowable Magazine from Annual Reviews, 2025 DOI: 10.1146/knowable-040125-1 Everything you need to know about bird flu

No início de 2024, a influenza aviária que se espalhava pelo mundo há quase três décadas fez algo totalmente inesperado: apareceu em vacas leiteiras no Panhandle do Texas.

Em outras palavras, uma perigosa gripe aviária estava repentinamente circulando em mamíferos — os quais as pessoas têm contato contínuo e extenso.

Esta gripe aviária, também denominada de influenza aviária altamente patogênica, ou H5N1, já está em status de panzootia — pandemia animal — matando aves em todos os continentes, exceto na Austrália. Em todo o mundo, também afetou diversos mamíferos, incluindo gatos, cabras, visons, tigres, focas e golfinhos. Até agora, os Estados Unidos são a única nação com H5N1 em vacas; ela apareceu em laticínios em pelo menos 17 estados.

O vírus, que surgiu há quase três décadas, está agora causando perturbações nas indústrias avícola e leiteira e gerando ondas econômicas e políticas devido à flutuação do preço dos ovos. Mas há mais em risco do que apenas o choque nos preços dos supermercados.  O vírus já infectou mais de 960 pessoas desde 2003, matando aproximadamente metade delas. Desde o início de 2024, infectou dezenas de pessoas nos Estados Unidos — principalmente trabalhadores rurais — e matou sua primeira vítima nos EUA em janeiro de 2025.

Até agora, a gripe H5N1 não adquiriu a capacidade crucial de se transmitir facilmente de pessoa para pessoa, o que poderia desencadear uma pandemia humana. Por enquanto, tanto os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA quanto a Organização Mundial da Saúde consideram o risco à saúde pública como baixo. Mas a situação pode mudar.

Biologicamente, o H5N1 não é tão diferente de qualquer outro vírus influenza A — o tipo que reside principalmente em aves selvagens, bem como em morcegos, e ocasionalmente saltou para populações humanas. Ele contém oito pedaços de material genético codificando 11 proteínas conhecidas. Duas proteínas, as “H” e as “N”, enfeitam o exterior do vírus. H significa hemaglutinina: se liga aos açúcares de uma célula para que o vírus possa entrar. N é para neuraminidase: permite que novas partículas virais saiam da célula.

Figura 1: Anatomia do H5N1. Imagem adaptada de Alexander P/ Knowable Magazine from Annual Reviwes.

Mas há muitas variações possíveis. O vírus influenza A tem pelo menos 19 opções para a proteína H e 11 para a proteína N, a maioria das quais estão presentes nas várias cepas que infectam aves aquáticas selvagens. A influenza H5N1 possui a versão 5 da proteína H e a 1 da N.

Existem também variantes para os outros genes. Se dois vírus influenza diferentes se encontrarem em uma célula que ambos infectaram, eles podem trocar genes entre si, criando novos tipos de descendentes de influenza.

Assim, todos os tipos de vírus infectam o intestino das aves aquáticas selvagens, geralmente sem causar danos a esses animais. Mas podem causar problemas se se moverem para outras criaturas.

Algumas décadas atrás, os cientistas achavam que tinham controle sobre o que aconteceria se algum vírus influenza A aviário se espalhasse para outras espécies. Eles acreditavam que se todas as aves morressem, o vírus ficaria sem hospedeiro e acabaria. E o salto de aves para humanos não é facilmente feito. Os cientistas há muito tempo presumiam que, para infectar pessoas, um vírus influenza A aviário teria que trocar genes com outro vírus em uma espécie intermediária, como um porco, para se adaptar à biologia de mamíferos.

Então, em 1996, quando gansos domésticos na província de Guangdong, na China, foram afetados pelo H5N1, isso mal causou alarme mundial.

Um ano depois, em Hong Kong, um menino de 3 anos morreu após sofrer febre alta e pneumonia. Levou três meses para especialistas de todo o mundo identificarem o vírus. Os pesquisadores descobriram que a família do mesmo havia visitado um mercado de aves vivas, e os testes identificaram aves infectadas com H5N1 nesses lugares.

No final, Hong Kong abateu todas as aves e aquela linhagem particular foi eliminada.

Mas seu ancestral, na China continental, permaneceu. E a vasta linhagem viral que ele gerou continuaria a desafiar as expectativas dos cientistas.

O H5N1 se espalhou de granja para granja. Continuou infectando pessoas, geralmente aquelas em contato muito próximo com suas aves domésticas. Então, em 2005, o vírus lançou outra bola curva: voltou para as aves selvagens em uma forma alterada o suficiente para ser mortal para elas.

Mais aves, provavelmente selvagens e domésticas, levaram o H5N1 para a Europa e a África. Por meio de mistura e combinação genética, o H5 se uniu a outros parceiros, como o N8, por um tempo. No final de 2014, aves migratórias trouxeram o H5N8 da Ásia para a costa do Pacífico da América do Norte, onde o H5 também se uniu a um N2, e o surto se espalhou por vários estados antes de desaparecer.

O vírus continuou a se espalhar na Ásia, Europa e África, geralmente como H5N8, com um pouco de H5N6. Em 2020, os relatos de infecções por vírus contendo H5 em aves selvagens e domésticas começaram a aumentar. Uma nova variante do gene H5, chamada 2.3.4.4b, foi vista pela primeira vez na Holanda. Vírus que carregam esse H5 parecem ter uma capacidade particular de cruzar e infectar mamíferos.

Em 2021, a variedade 2.3.4.4b do H5 estava de volta com uma forma de N1. A partir desse, foi possível ver uma disseminação em massa. O vírus chegou na América do Norte no final de 2021, desta vez para ficar.

A panzootia havia começado.

Figura 2: O gene H5 da gripe aviária evoluiu à medida que se espalhou pelo mundo. Imagem retirada do Nextstrain Project.

Quando as aves migraram para o sul no inverno, elas trouxeram o H5N1 para as granjas avícolas. A maioria das galinhas infectadas morreu, e a principal defesa foi o abate. Nos EUA, mais de 166 milhões de galinhas foram abatidas desde 2022, embora uma queda nos casos tenha levado a uma queda nos preços dos ovos no início de março de 2025.

Para prevenir a propagação, a biosegurança tornou-se a palavra-chave. Para os avicultores, isso significa uma variedade de coisas, como limitar a interação humana com os rebanhos, lavar as mãos e as botas e usar máscaras faciais. Mas o vírus continua se espalhando de aves selvagens para os rebanhos dos agricultores. Parte do problema é que as fazendas avícolas costumam estar localizadas perto de fontes de água, como lagoas e poças de chuva, onde as aves migratórias se empoleiram durante a noite, colocando animais selvagens e domésticos em proximidade. É um vírus intestinal em aves selvagens, e se espalha facilmente através de suas fezes.

Em fevereiro de 2025, o Departamento de Agricultura dos EUA anunciou a alocação de até US$ 1 bilhão em fundos adicionais para combater a gripe aviária altamente patogênica, incluindo apoio à biosegurança, alívio financeiro para os agricultores e pesquisa de vacinas. As empresas projetam vacinas para aves contra a influenza aviária altamente patogênica contendo H5 há algumas décadas, atualizando-as à medida que o vírus evolui.

Há preocupações de que a vacinação possa fazer o vírus mutar mais rápido. Mas a grande questão que impede a sua realização é que isso poderia limitar o comércio internacional de aves, e, atualmente, os EUA são um grande exportador de aves vivas. Um animal vacinado poderia carregar o vírus sem sintomas, e muitas nações não querem aves que possam estar carregando o H5N1 invisivelmente.

Atualmente, a catástrofe da indústria avícola também se tornou um problema para a leiteira. O aparecimento do vírus em laticínios do Texas em 2024 foi uma surpresa para os especialistas, sem as diretrizes e sistemas de apoio que existem para a avicultura.

Vacas infectadas com H5N1 geralmente sobrevivem, embora devam ser retiradas da população regular e passar semanas em um estábulo hospitalar. A inflamação em suas úberes, ou mastite, torna seu leite espesso e amarelado; respingos desse leite criam potencial para o vírus se mover de animal para animal.

E, preocupantemente, esse vírus era uma versão diferente da que infectou as vacas em 2024. A contaminação de 2024 apresentou um H5N1 com uma coleção particular de sequências de genes de influenza, ainda H5 2.3.4.4b, chamado B3.13. Mas os vírus influenza evoluem rapidamente, e esse H5 2.3.4.4b embaralhou genes com outros vírus mais de uma vez, criando muitas variantes e subvariantes.

As implicações a longo prazo para o gado do D1.1 e da gripe aviária em geral ainda não estão claras.

Em relação aos humanos, é raro um vírus se adaptar para se espalhar facilmente em novas espécies. Tanto que ainda não há casos confirmados de transmissão de H5N1 de pessoa para pessoa.

Serão necessários eventos contínuos de contaminação para que ele consiga se estabelecer. Mas pode acontecer, como ocorreu em 2009, quando um vírus influenza A H1N1 com uma mistura nova de genes saltou de porcos para pessoas, onde então se espalhou amplamente. Causando uma pandemia, matando de 123.000 a 203.000 pessoas em todo o mundo.

Para se tornar hábil em infectar humanos, o vírus teria que mudar a estrutura de sua hemaglutinina. Os humanos têm esse arranjo de açúcar semelhante ao de aves, mas ele está enterrado profundamente nos pulmões, tornando o vírus difícil de pegar e difícil de espalhar para outra pessoa. Também está presente nos olhos, o que pode explicar por que a conjuntivite foi o sinal clínico mais comum em pessoas que contraíram gripe aviária nos EUA em 2024 (muitas também apresentaram febre e sintomas respiratórios). Mas para a transmissão contínua através de tosse e espirros, os pesquisadores acreditam que o H5N1 teria que mutar para reconhecer um arranjo de açúcar encontrado no trato respiratório superior humano — nariz, cavidade nasal, seios da face, boca, garganta e caixa de voz.

Também teria que fazer alterações na proteína que copia seus genes, a polimerase viral. Essa precisaria mudar de funcionar bem com proteínas de aves para funcionar com as humanas.

O H5N1 pode evoluir sozinho ou trocar genes com outra influenza que infecta humanos. Essa última possibilidade é particularmente preocupante em momentos de altas taxas de influenza sazonal. Quanto mais vírus influenza flutuando por aí, maiores as chances desses dois se encontrarem na mesma célula no mesmo animal e trocarem genes, para gerar algo novo e potencialmente perigoso.

Fatores além do próprio vírus também influenciam o risco de pandemia. Uma delas é o histórico da doença. Um estudo sugeriu que pessoas que já tiveram influenza antes podem ter imunidade suficiente para sufocar as piores consequências da gripe H5N1.

Outra boa notícia é a observação de que o vírus não está atingindo nem perto da taxa de mortalidade de 50% relatada em infecções recentes nos EUA. Essas taxas são cálculos imperfeitos, pois são baseadas em pessoas que estavam doentes o suficiente para serem testadas para H5N1. Infecções assintomáticas podem não ser incomuns, pelo menos nos casos atuais dos EUA: um estudo recente do CDC descobriu que três veterinários tinham anticorpos para H5N1, indicando que foram infectados, mas nunca perceberam os sintomas.

Para o público em geral, o principal conselho que os especialistas oferecem é não consumir leite cru ou produtos de aves mal cozidos. Embora nenhuma infecção por esses alimentos tenha sido relatada.

Os EUA têm algumas proteções prontas, incluindo um estoque de equipamentos de proteção individual, medicamentos antivirais e os ingredientes para a fabricação de vacinas humanas. Esses incluem fragmentos de vírus, bem como produtos químicos que ajudam a estimular o sistema imunológico.

Fatores sociais também podem influenciar a detecção e a resposta a uma possível pandemia. Muitos trabalhadores agrícolas são imigrantes indocumentados, fazendo com que muitos relutem em ser examinados ou procurar atendimento médico.