Arte & Cultura

Publicado el 9 de mayo de 2025

Representatividade

Inclusão na medicina: os livros retratam a realidade brasileira?

Como a falta de representação de peles negras em livros-texto pode levar a erros diagnósticos e comprometer a saúde de pacientes.

De acordo com o Censo de 2022, a população brasileira é majoritariamente parda, com um aumento nas proporções de pessoas pretas, pardas e indígenas em relação a 2010. As manifestações cutâneas se apresentam de maneira diferente em peles negras em comparação com peles claras. Essa divergência, quando desconhecida pelos profissionais de saúde, pode levar a subdiagnósticos e, consequentemente, a tratamentos tardios ou inadequados, prejudicando o prognóstico do paciente.

Apesar da representatividade das pessoas negras no Brasil, observa-se uma deficiência de estudos e materiais de referência que abordem especificamente as características dermatológicas nessas peles. Por isso, Oliveira e colaboradores (2024) avaliaram imagens de livros-texto de Pediatria para verificar a frequência de representação de alterações cutâneas em peles negras.

Para isso, eles selecionaram três livros-texto de Pediatria Geral e um de Dermatologia Pediátrica, priorizando aqueles com imagens coloridas disponíveis na biblioteca virtual da Universidade Federal de Juiz de Fora. Fotos de lesões cutâneas presentes em capítulos sobre doenças dermatológicas ou infecciosas foram extraídas, com exclusão daquelas em preto e branco, aquelas que exibiam apenas mucosas, palmas/plantas, ou de qualidade insuficiente.

Dois pesquisadores independentes avaliaram a cor da pele nas imagens utilizando a escala de Fitzpatrick, classificando-as como pele clara (tipos I a III) ou escura (tipos IV a VI). Discrepâncias foram resolvidas por um terceiro avaliador, e a concordância interobservador foi medida pelo teste de Kappa de Cohen.

Das 797 imagens inicialmente selecionadas, 706 foram incluídas após a aplicação dos critérios de exclusão, e destas, 695 foram classificadas quanto à cor da pele. A concordância interobservador na classificação foi considerada moderada (Kappa = 0,704). A análise revelou que a proporção de imagens com pele negra variou entre 16,3% e 37,7% entre os livros analisados. Pitiríases apresentaram o maior percentual de imagens com pele negra (53,5%), enquanto doenças reumatológicas e imunológicas apresentaram o menor (14,1%).

A identificação de manifestações cutâneas em diferentes fototipos de pele é crucial para a conduta médica. No entanto, a pesquisa revelou que a maioria das imagens em livros de pediatria e dermatologia pediátrica retratou lesões em pele branca, um problema considerando que doenças podem se manifestar de forma distinta em diferentes tons de pele.

Para corroborar com essa sub-representação, um estudo revelou que quase metade dos dermatologistas não possui experiência suficiente no manejo de lesões em pele negra durante a formação, o que se reflete em piores desfechos para minorias étnicas em casos de câncer de pele. A falta de representação adequada da pele negra em imagens de manifestações cutâneas, como as da COVID-19, também tem consequências diretas na saúde pública.

Em conclusão, a escassez de representação de pacientes de pele negra com lesões cutâneas na comunidade científica perpetua disparidades no atendimento à saúde. Essa falta de familiaridade pode levar a atrasos, subdiagnóstico ou diagnóstico incorreto. Para mitigar essas consequências negativas, é fundamental aumentar a representação de condições dermatológicas em pele negra na literatura científica e na prática clínica, implementando mudanças curriculares e criando atlas de imagens e manuais de Dermatologia focados em pele negra.