| Introdução |
O diabetes gestacional (DG) é caracterizado pelo desenvolvimento de hiperglicemia durante a gravidez. Estima-se que afete aproximadamente 10% das gestações anualmente nos EUA. A doença apresenta impactos a longo prazo tanto nas mulheres quanto em seus descendentes, aumentando o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares entre as mães, além da obesidade infantil. Diversos fatores ambientes, como poluentes do ar em partículas finas (PM2.5) e o tabagismo, têm sido cada vez mais reconhecidas em associação com o risco de DG.
O radônio é um gás formado pela desintegração radioativa do rádio-226, encontrado no solo, rochas e água. Ele se desintegra em produtos de desintegração sólidos e pode entrar em casas e outros edifícios através da ligação com PMs ambientais, formando partículas radioativas.
A exposição ao PM2.5 está associada a um aumento do risco de DG, sugerindo uma possível relação entre radônio e a doença. A associação entre essas partículas e o diabetes gestacional pode resultar de inflamação, estresse oxidativo sistêmico e/ou resistência à insulina—os mesmos mecanismos da associação do tabagismo materno com o DG.
Evidências epidemiológicas que vinculam diretamente a exposição ao radônio ao DG são escassas. Por isso, Zhang e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de examinar a associação entre a exposição ao radônio em nível de condado e o risco de diabetes gestacional. Também exploraram as interações da exposição ao radônio com o tabagismo e PM2.5, dado os potenciais caminhos compartilhados relacionados ao desenvolvimento de DG.
| Métodos |
Os autores realizaram um estudo multicêntrico, baseado em uma coorte populacional dos Estados Unidos. Eles utilizaram dados do estudo Nulliparous Pregnancy Outcomes Study: Monitoring Mothers-to-Be (nuMoM2b) cohort, que recrutou participantes grávidas nullíparas de 8 centros clínicos entre outubro de 2010 e setembro de 2013.
Os dados de radônio foram criados pelo Lawrence Berkeley National Laboratory com base nas avaliações desse gás em ambientes internos de curto e longo prazo da Agência de Proteção Ambiental. A exposição ao radônio foi categorizada em 3 grupos: menos de 1, de 1 a 2, e 2 ou mais picocuries (pCi)/L. Uma vez que o radônio, o tabagismo e os poluentes do ar em partículas finas (PM2.5) podem compartilhar caminhos biológicos semelhantes, os participantes foram categorizados por classificações conjuntas de nível de radônio (<2 e ≥2 pCi/L) com estado de tabagismo (nunca fumantes e fumantes) e com nível de PM2.5 (acima ou abaixo da mediana).
O principal resultado foi o DG, identificado com base em testes de tolerância à glicose e informações de registros médicos. Modelos de regressão logística múltipla foram utilizados para avaliar a associação entre exposição ao radônio e DG.
| Resultados |
No total, 9107 participantes do nuMoM2b foram incluídas. Dentre essas, 382 (4,2%) desenvolveram DG. Um total de 362 participantes eram asiáticas; 1207 negras; 1512 hispânicas; 5561 brancas; e 464 de outras raças e etnias. Dos 9101 com dados disponíveis sobre uso de tabaco, 41,6% já haviam fumado. No grupo exposto às maiores concentrações de radônio (≥2 pCi/L), as participantes eram mais propensas a serem brancas, terem um nível educacional inferior à conclusão do ensino médio e eram menos propensas a terem fumado.
A concentração média de radônio no condado foi de 1,6 pCi/L. Após ajustar os potenciais fatores de confusão, participantes do grupo de maior radônio (≥2 pCi/L) tiveram maior probabilidade de desenvolver DG em comparação com aqueles com menor exposição. Após ajuste adicional para PM2.5, os resultados não apresentaram diferenças significativas.
Nas análises restritas a indivíduos com fatores de estilo de vida específicos, não houve associação entre a maior e a menor exposição ao radônio e DG entre nunca fumantes e indivíduos com peso saudável (IMC ≤25).
Nas análises conjuntas, as chances de desenvolver DG foram mais pronunciadas em fumantes recrutadas em condados com alto radônio em comparação as que nunca usaram tabaco em lugares com baixo radônio. Além disso, as chances de DG foram elevadas nas participantes expostas a altos níveis de radônio e altos níveis de PM2.5 .
| Conclusão |
Os resultados de Zhang e colaboradores (2025) apoiaram a hipótese de que o radônio pode estar associado ao risco de DG em grávidas nullíparas. Sendo assim, o estudo forneceu uma base para futuras pesquisas, com foco na medição do radônio em ambientes internos em nível individual, para confirmar os achados e explorar os mecanismos biológicos subjacentes.