Articles

/ Published on March 5, 2025

Estudo clínico

Alterações na memória e cognição com SARS-CoV-2

Impactos da infecção na cognição e na memória ao longo do tempo

Author: Trender, W. et al. (2024)

Fuente: The Lancet – eClinicalMedicine Changes in memory and cognition during the SARS-CoV-2 human challenge study

Introdução

Estudos recentes sugeriram que a COVID-19, uma infecção sintomática pelo SARS-CoV-2, pode ter efeitos persistentes na função cognitiva, independentemente da gravidade da infecção. Pacientes relataram sintomas como confusão mental, dificuldade de memória e déficits na recuperação de palavras meses após a fase aguda da doença. Além disso, pesquisas transversais e longitudinais indicaram déficits cognitivos que podem se estender por um ano ou mais, enquanto análises séricas identificaram biomarcadores elevados de lesão cerebral em pacientes hospitalizados, sugerindo um possível impacto neurocognitivo prolongado da infecção.

No entanto, ainda há lacunas no entendimento da associação entre SARS-CoV-2 e cognição, especialmente devido à predominância de estudos retrospectivos e transversais. Diante disso, Trender e colaboradores (2024) analisaram dados objetivos de desempenho cognitivo em diferentes momentos antes da inoculação e ao longo de um ano após a infecção, no contexto do Estudo de Caracterização do Desafio Humano SARS-CoV-2, com o objetivo de compreender os impactos da infecção na cognição e na memória ao longo do tempo.

Métodos

O estudo contou com 34 voluntários jovens, saudáveis e soronegativos, que foram inoculados com a cepa selvagem do SARS-CoV-2 em condições controladas. Durante o período de quarentena e acompanhamento, foram realizadas avaliações diárias fisiológicas e testes cognitivos computadorizados, repetidos nos intervalos de 30, 90, 180, 270 e 360 dias após a infecção.

Resultados

Dos 34 voluntários, 18 desenvolveram infecção, conforme determinado por qPCR para carga viral sustentada. Dentre esses, um permaneceu assintomático, enquanto os demais apresentaram sintomas leves. Os voluntários infectados demonstraram um declínio significativo no desempenho cognitivo global em comparação aos não infectados, tanto na fase aguda quanto durante o acompanhamento a longo prazo.

Uma análise de sensibilidade confirmou essa diferença entre os grupos mesmo após o controle para fatores como infecções respiratórias comunitárias, aprendizagem de tarefas, uso de remdesivir e variáveis de referência basal. Os déficits mais acentuados foram observados nas tarefas de memória e função executiva. Entretanto, nenhum dos voluntários relatou sintomas cognitivos subjetivos persistentes.

Conclusão

O estudo conduzido por Trender e colaboradores (2024) confirmou que a infecção controlada pelo SARS-CoV-2 foi associada a déficits mensuráveis no desempenho cognitivo, os quais podem persistir por pelo menos um ano. A memória imediata e tardia, bem como a função executiva, foram os domínios mais sensíveis aos efeitos da infecção.

Esses achados ressaltaram a necessidade de pesquisas adicionais para investigar os mecanismos biológicos subjacentes a essas alterações cognitivas, bem como para comparar os efeitos da COVID-19 com os de outras infecções respiratórias. Além disso, o estudo destacou a importância de desenvolver intervenções direcionadas para a normalização da memória e cognição em pacientes pós-COVID-19, visando minimizar os impactos neurocognitivos a longo prazo.