| Introdução |
A demência está entre as principais causas de incapacidade e mortalidade entre os idosos, sendo uma preocupação urgente de saúde pública diante do envelhecimento populacional. Devido à ausência de estratégias curativas, direcionar intervenções em estilo de vida para subgrupos de alto risco é de grande importância para ajudar a reduzir a carga da doença.
A contribuição de fatores individuais ou de vários fatores de estilo de vida na associação entre nível socioeconômico e disfunção cognitiva tem sido sugerida há muito tempo, porém, importantes dúvidas ainda permanecem.
Para preencher essas lacunas de pesquisa, Wang e colaboradores (2024) realizaram uma análise prospectiva entre adultos mais velhos (≥50 anos). Eles utilizaram dados de duas coortes representativas dos Estados Unidos para explorar se o estilo de vida geral medeia a associação entre status socioeconômico (SES) e a demência incidente, além de investigar as associações conjuntas de SES e estilo de vida com a incidência de demência e o declínio cognitivo.
| Métodos |
Utilizando dados do Health and Retirement Study (HRS) [2008–2020] e do English Longitudinal Study of Ageing (ELSA) [2004–2018], o SES foi construído por meio da análise de classes latentes, considerando o nível de educação, a renda total da família e a riqueza. Um estilo de vida saudável foi derivado a partir de informações sobre nunca ter fumado, consumo de álcool baixo a moderado (bebidas/dia: (0, 1] para mulheres e (0, 2] para homens), fazer atividade física e manter contato social ativo.
| Resultados |
Dentre 12.437 participantes do HRS (idade média de 69,3 anos, 40,8% homens), 3.249, 6.182 e 3.006 eram de alto, médio e baixo SES, respectivamente. Em relação aos 6.565 participantes do ELSA (idade média de 65,1 anos, 46,0% homens), 1.621, 2.992 e 1.952 eram de alto, médio e baixo SES, respectivamente. Participantes com alto SES eram mais propensos a serem homens, casados, empregados, e a apresentarem um nível mais elevado de educação, riqueza e renda, além de apresentarem um nível mais baixo de IMC, pressão arterial e HbA1c, e menor prevalência de depressão e comorbidades. Níveis saudáveis de tabagismo, consumo de álcool (apenas no HRS), atividade física e contato social também eram mais prevalentes entre aqueles com alto SES.
Durante um acompanhamento médio de 9,9 anos no HRS e 9,2 anos no ELSA, foram registrados 1.575 e 494 casos incidentes de demência, respectivamente. Após ajustar pela idade, sexo e fatores de estilo de vida basais, em comparação aos participantes com alto SES, os riscos proporcionais para demência incidente entre aqueles com SES médio e baixo foram 1,32 e 2,81 no HRS, e 1,24 e 1,41 no ELSA. Ao comparar SES baixo e médio com alto, a proporção do risco de demência mediada por um estilo de vida saudável foi de 18,4% e 10,4% no HRS, e 1,7% e 2,7% no ELSA.
Os resultados da análise de subgrupos revelaram que, ao comparar baixo SES com alto SES, o risco de incidência de demência foi maior nos homens do que nas mulheres e na meia-idade do que na idade avançada. No entanto, as proporções de mediação foram amplamente consistentes, exceto que as proporções correspondentes aumentaram nos subgrupos de meia-idade.
Nenhuma interação significativa foi encontrada entre SES e estilo de vida em relação à demência incidente em ambas as coortes. Isso indicou que a associação com os fatores de estilo de vida não variou substancialmente entre os níveis de SES. Manter um estilo de vida favorável estava associado a um risco menor de demência incidente entre participantes de vários subgrupos de SES em ambas as coortes, sendo as associações relativamente mais fortes entre aqueles com nível de SES médio. Especificamente, no HRS, os riscos proporcionais para participantes com estilo de vida favorável (tendo três a quatro fatores de estilo de vida saudáveis) em comparação com estilo de vida desfavorável (tendo nenhum ou apenas um fator de estilo de vida saudável) para demência incidente foram 0,83, 0,67 e 0,68 entre o SES alto, médio e baixo, respectivamente. Quando tratado como uma variável contínua, cada incremento no escore total de estilo de vida saudável foi associado a um risco 6%–16% menor de demência incidente entre os diferentes subgrupos de SES.
Quando o SES e o estilo de vida foram combinados para explorar sua associação conjunta com a demência incidente e o declínio cognitivo, observou-se uma associação monotônica entre níveis mais baixos de SES e estilos de vida cada vez mais não saudáveis. Comparado aos participantes com alto SES e estilo de vida favorável, aqueles com baixo SES e estilo de vida desfavorável apresentaram um risco maior de desenvolver demência, além de um acelerado declínio cognitivo.
Em conclusão, um SES mais baixo estava significativamente relacionado a um maior risco de demência, com apenas uma pequena proporção mediada por um estilo de vida não saudável. No entanto, manter um estilo de vida favorável foi associado a um menor risco de demência incidente e a uma taxa mais lenta de declínio cognitivo, independentemente dos níveis de SES. Os resultados do estudo apoiaram o papel importante de estilos de vida saudáveis na redução do risco de disfunção cognitiva. Além disso, outras medidas, além de intervenções de estilo de vida, também são necessárias para alcançar uma redução substancial da desigualdade socioeconômica na saúde cerebral.