O cabelo humano, especialmente no couro cabeludo, desempenha um papel essencial na identidade pessoal, influenciando significativamente a sensação de bem-estar. Embora as estruturas capilares forneçam proteção, hidrofobicidade, força, resistência mecânica e resiliência, diversos fatores podem comprometer a saúde dos fios. Esses fatores são conhecidos como fatores expossômicos. O conceito de expossoma abrange todas as exposições acumuladas ao longo da vida, englobando elementos internos e externos que afetam o organismo. A exposição contínua a esses fatores pode provocar danos aos fios, resultando em afinamento, quebra, desgaste e envelhecimento precoce do cabelo.
Apesar da relevância desse tema, ainda há lacunas no entendimento sobre como o expossoma afeta diretamente a saúde capilar. Nesse contexto, Cedirian e colaboradores (2024) investigaram a relação entre o expossoma e a saúde capilar, ampliando a compreensão sobre os mecanismos que levam ao desgaste dos fios e contribuindo para avanços no cuidado capilar e na prevenção de danos.
| Fatores expossômicos internos |
> Nutrição
A nutrição desempenha um papel essencial na manutenção do crescimento saudável e na preservação da vitalidade do cabelo. Desequilíbrios na ingestão de nutrientes podem acelerar o processo de envelhecimento capilar e comprometer sua saúde. A queratina, principal componente estrutural do cabelo, depende diretamente de uma ingestão adequada de proteínas para a formação de fios fortes e saudáveis. Os carboidratos também têm uma função importante, atuando como fonte de energia para o corpo, incluindo os folículos pilosos (FP). Eles são armazenados como glicogênio na bainha radicular externa do FP, fornecendo energia crucial para o crescimento capilar. A carência desses nutrientes pode resultar em fios finos e quebradiços, além de contribuir para a alopecia, especialmente em casos de eflúvio telógeno (ET). Deficiências nutricionais significativas também podem alterar a cor e a textura dos fios.
Além das proteínas e carboidratos, vitaminas específicas (A, E, grupo B e D) e minerais (ferro, zinco, selênio, entre outros) desempenham papéis indispensáveis na saúde capilar. Baixos níveis desses micronutrientes estão associados ao envelhecimento precoce e à deterioração da qualidade do cabelo. O zinco, por exemplo, é um elemento fundamental para o crescimento e manutenção dos fios, e sua deficiência, seja de origem genética ou adquirida, pode levar à alopecia. Da mesma forma, a deficiência de ferro compromete o fornecimento de oxigênio aos folículos pilosos, resultando em afinamento e perda de cabelo
> Estresse e sono
O folículo piloso humano desempenha um papel central na interação com diversos mediadores relacionados ao estresse, como cortisol, noradrenalina e prolactina. Essas substâncias, ao se conectarem com os receptores presentes nos FPs, modulam o ciclo capilar, impactando diretamente o crescimento e a pigmentação dos fios. Evidências científicas indicaram que o estresse prolongado pode acelerar o envelhecimento dos FPs, contribuindo para a perda capilar e comprometendo a função e a reprodução das células-tronco presentes no folículo. Além disso, o estresse crônico pode induzir disfunções mitocondriais e reduzir o DNA mitocondrial (mtDNA), o que afeta negativamente a regulação do ciclo capilar e a manutenção da pigmentação dos cabelos.
Outro fator relevante é o impacto da privação de sono, uma forma distinta de estresse que também está associada ao envelhecimento precoce dos fios. Padrões de sono irregulares podem aumentar os níveis de estresse oxidativo, agravando a sensibilidade do couro cabeludo, sintomas como tricodínia e, consequentemente, acelerando o desgaste e o envelhecimento capilar.
> Consumo de tabaco
O hábito de fumar tem sido consistentemente associado ao desgaste capilar, alopecia e canície precoce (CP). No caso da alopecia androgenética (AAG), o tabagismo está relacionado à miniaturização dos fios e à conversão de cabelos terminais em cabelos velos, um processo parcialmente mediado pela influência sistêmica dos andrógenos, cuja atividade pode ser alterada pelo fumo.
A nicotina, um dos principais componentes da fumaça do tabaco, pode se acumular nos fios capilares, contribuindo para danos nos folículos pilosos. Esse efeito se dá, em parte, pela constrição da papila dérmica capilar, resultando em menor suprimento de nutrientes e oxigênio, além de promover estresse oxidativo. O estresse oxidativo, por sua vez, afeta negativamente os melanócitos, reduzindo a produção de melanina e contribuindo para o surgimento precoce de cabelos grisalhos (CP). Estudos também mostram que fumantes apresentam maior propensão ao início precoce da canície e uma incidência mais elevada de cabelos grisalhos em comparação com não fumantes, destacando o impacto do tabagismo na saúde capilar.
| Fatores expossômicos ambientais |
> Radiação ultravioleta
A exposição à radiação ultravioleta (UV) desencadeia uma série de reações químicas que podem acelerar o envelhecimento precoce e o desgaste das fibras capilares. Ao penetrar na haste capilar, a radiação UV provoca alterações estruturais na matriz de queratina, causando a foto-oxidação de aminoácidos, esteróis e ácidos graxos. Esse processo gera lesões micromoleculares que enfraquecem a fibra capilar e comprometem sua integridade.
As ceramidas, componentes cruciais para a função de barreira tanto da pele quanto do cabelo, sofrem redução significativa após a exposição aos raios UV, o que pode comprometer a proteção natural dos fios. Essa perda está associada ao aumento da fragilidade capilar e à maior suscetibilidade a danos externos. Além disso, a radiação UV reduz os níveis de mono, di e triglicérides presentes no cabelo, devido a processos oxidativos. Essa diminuição contribui para o aumento da porosidade, perda de flexibilidade e deterioração da textura capilar.
Outro impacto relevante é a alteração da coloração do cabelo. Os dois tipos de melanina presentes nos fios, eumelanina e feomelanina, sofrem reações oxidativas sob exposição à radiação UV, resultando em desbotamento, descoloração ou mudanças na tonalidade, comprometendo a aparência estética dos cabelos.
> Poluição
A poluição ambiental desempenha um papel significativo no desgaste das fibras capilares. Quando expostas à radiação UV, as fibras contaminadas com hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) tornam-se mais vulneráveis a danos estruturais. Embora o impacto observado não comprometa drasticamente a integridade geral das fibras capilares, predominantemente compostas por macrofibras, a redução e o desgaste das camadas da cutícula podem afetar de forma perceptível a aparência do cabelo, resultando em fios mais opacos, ásperos e menos resistentes.
> Umidade
Os níveis de umidade desempenham um papel essencial na formação e na dinâmica dos radicais presentes nas fibras capilares, contribuindo para o desgaste dos fios. Em condições de alta umidade, há um aumento significativo na geração de espécies de radicais na melanina, o que influencia diretamente a organização molecular e a estabilidade desses radicais. Esse fenômeno altera a viscosidade local e a dinâmica molecular das fibras, afetando a química dos intermediários reativos presentes na estrutura capilar, o que pode comprometer a integridade e a saúde do cabelo ao longo do tempo.
> Procedimentos cosméticos
Os procedimentos cosméticos tornaram-se parte integrante das rotinas diárias de cuidado capilar. No entanto, muitos desses procedimentos podem contribuir para o desgaste capilar devido a influências físicas e químicas. Entre os fatores físicos, destacam-se o atrito, o pentear ou escovar excessivo e a exposição frequente ao calor de ferramentas como secadores e chapinhas. Já os fatores químicos incluem descoloração, coloração, tratamentos de permanente e alisamentos.
A exposição prolongada e repetida a esses agentes pode comprometer a estrutura capilar, alterando sua textura, fragilizando os fios e promovendo danos cumulativos. Com o tempo, esses efeitos aceleram o processo de envelhecimento do cabelo, impactando negativamente sua aparência e saúde geral.
Compreende-se que o desgaste capilar é resultado da interação de uma ampla gama de fatores expossômicos, como estresse, radiação UV, exposição à água, traumas físicos e práticas de modelagem capilar. Esses fatores contribuem significativamente para o envelhecimento precoce dos fios e outros impactos na saúde capilar. Assim, torna-se essencial reconhecer essas influências e adotar medidas proativas para proteger e fortalecer o cabelo, promovendo práticas de cuidado eficazes. Além disso, é fundamental intensificar pesquisas científicas e incentivar a colaboração entre profissionais da saúde, pesquisadores e a indústria da beleza, a fim de aprofundar o conhecimento e desenvolver estratégias inovadoras para mitigar os efeitos dos fatores expossômicos no envelhecimento capilar.