Além do apelo visual, os cabelos impactam diretamente na autoestima das pessoas, servindo como elemento crucial nas interações sociais. A saúde capilar é influenciada por fatores expossômicos (como visto na parte I, acesse o link aqui), e a exposição contínua a eles pode comprometer a saúde capilar, resultado em problemas como afinamento, quebra, desgaste e envelhecimento prematuro. Reconhecê-los é essencial para elaborar estratégias eficazes para atenuar seus efeitos adversos.
A intrincada interação entre suplementos nutricionais e soluções cosméticas no tratamento dos impactos expossômicos na saúde ocupa ponto focal em estudos e estratégias clínicas contemporâneas. Por isso, Cedirian e colaboradores (2025) revisaram as principais abordagens terapêuticas além de avaliar o potencial das intervenções cosméticas.
| Suplementos nutricionais |
A biotina, também conhecida como vitamina B7, está presente em diversos suplementos, pois atua como cofator para inúmeras enzimas envolvidas nas reações metabólicas, como aquelas relacionadas à glicose, ácidos graxos e aminoácidos. Além disso, desempenha um papel importante na regulação genética e síntese proteica, particularmente nos folículos capilares (FC). Apesar de sua popularidade, as evidências que apoiam o seu uso para a queda de cabelo permanecem escassas.
Narda e colaboradores (2017) demonstraram a eficácia de um suplemento dietético que compreende L‐cistina, extrato de Serenoa repens e biotina. Em sua pesquisa, homens com alopecia androgenética (AAG) exibiram aumento de 23,4% na proporção anágenos/telógenos em comparação com a avaliação inicial, após seis meses de tratamento (p<0,01), enquanto o grupo de mulheres com eflúvio telógeno (ET) relatou melhora importante nos resultados do teste de tração. Ademais, os participantes relataram aumento no volume do cabelo e uma melhora em sua aparência. Entretanto, o efeito da biotina na haste capilar permanece incerto, e sua suplementação por si só não parece promissora para aumentar a velocidade do crescimento capilar.
Em relação ao ferro, embora sua deficiência tenha sido associada à queda capilar, os resultados dos estudos são controversos. Diversas análises indicaram associações entre deficiência de ferro e ET, alopecia areata (AA) e AAG, sugerindo ligação potencial entre baixos níveis de ferro e queda capilar. Acredita-se que níveis de ferritina acima de 40 mg/mL sejam suficientes para ajudar na condição, entretanto, a suplementação deve ser cuidadosamente administrada em virtude dos potenciais efeitos adversos.
A vitamina D regula a expressão de genes envolvidos no ciclo e crescimento do FC. A sua deficiência pode interromper o ciclo normal do cabelo, levando a sua queda e afinamento. Os seus níveis ideais têm se mostrado promissores na regulação das respostas imunológicas, mas pesquisas adicionais são essenciais para estabelecer essa correlação.
A vitamina E, por suas propriedades antioxidantes, protege os FCs do estresse oxidativo e do desgaste causado pelos radicais livres. Ela promove a saúde do couro cabeludo e auxilia no crescimento do cabelo, mantendo a integridade das membranas celulares; de fato, a sua suplementação pode estimular o crescimento capilar promovendo a circulação sanguínea no couro cabeludo e aumentando o fornecimento de nutrientes aos FC.
Embora as vitaminas apresentem um potencial no controle da queda capilar, não há evidências que sustentem o uso generalizado de multivitamínicos para a saúde do cabelo.
O zinco serve como cofator para inúmeras enzimas envolvidas na síntese de DNA, proliferação celular e reparo de tecidos, processos essenciais para o crescimento e manutenção capilar. Ele atua como antioxidante, protegendo os FCs de danos oxidativos e inflamação. Além disso, regula os níveis dos hormônios esteroides, incluindo os envolvidos no crescimento do cabelo. Desequilíbrios em seus níveis podem interromper as vias de sinalização hormonal, desencadeando a queda capilar.
O Óleo de Semente de Abóbora (OSA), também conhecido como Cucurbita pepo, possui a capacidade de inibir a 5α‐redutase, que converte testosterona em di‐hidrotestosterona (DHT), um hormônio implicado na queda capilar. OSA é rico em nutrientes essenciais como zinco, ferro, potássio, selênio, magnésio e cálcio, tornando‐o candidato promissor. Em um ensaio randomizado, duplo‐cego e controlado por placebo, pacientes com AAG receberam OSA oral por 24 semanas. O estudo mostrou aumento na contagem capilar no grupo que recebeu a suplementação, indicando sua eficácia no tratamento da queda de cabelos. Entretanto, o seu impacto exato permanece incerto em virtude da inclusão de ingredientes adicionais no suplemento.
Serenoa repens (também conhecido como extrato de saw palmetto), outro inibidor natural da 5α‐redutase, também foi investigado por seu potencial no tratamento de AAG. Apesar de diversos estudos indicando sua eficácia na queda capilar, as evidências permanecem limitadas, particularmente em relação à sua eficácia em outros tipos de condições além da AAG.
A cavalinha (Equisetum arvense) contém silício, responsável por participar da síntese de colágeno, potencialmente auxiliando na saúde capilar. Os ensaios clínicos mostraram resultados promissores em relação a seus efeitos na fragilidade dos cabelos e das unhas, bem como na sua espessura e elasticidade. No entanto, mais estudos são necessários para confirmar essas descobertas e determinar o uso ideal da cavalinha para promover a saúde da pele e dos cabelos.
Por fim, estudo sugeriram que ashwagandha, ou ginseng indiano (Withania somnifera), pode ajudar a reduzir o estresse percebido e os níveis de cortisol no corpo, que estão relacionados à perda capilar. Além disso, alguns autores defendem que a ashwagandha pode aumentar o fluxo sanguíneo para o couro cabeludo, o que pode beneficiar o crescimento capilar. Entretanto, mais pesquisas são necessárias para confirmar esse potencial.
| Soluções cosméticas |
A fotoproteção do couro cabeludo e do cabelo pode mitigar os efeitos adversos da radiação UV. Embora haja extensa pesquisa sobre a proteção dos cabelos contra danos causados pelo sol, há uma notável falta de dados sobre a proteção do couro cabeludo com cabelos. Alguns estudos sugeriram que certas substâncias, como o cloreto de cinamidopropiltrimônio encontrado em xampus, podem oferecer proteção contra danos UV aos cabelos. Além disso, nanopartículas lipídicas sólidas foram desenvolvidas para transportar bloqueadores UV para proteção capilar.
A melatonina tem impacto em vários processos fisiológicos, incluindo o relacionados aos FCs. Uma revisão demonstrou resultados favoráveis após a aplicação de melatonina tópica em indivíduos afetados por AAG. Os estudos demonstraram melhora no crescimento capilar, densidade e espessura das hastes capilares. Além disso, ela também demonstrou ser promissora na redução de reações cutâneas induzidas pela luz UV, sugerindo seu uso potencial em combinação com filtros solares convencionais também para maior proteção dos cabelos.
A capsaicina demonstrou ter um impacto positivo no crescimento capilar, principalmente em pacientes com alopecia. Entretanto, as evidências ainda são limitadas, e mais pesquisas são necessárias para estabelecer sua eficácia.
Os óleos minerais e vegetais nos cabelos humanos apresentam papel crucial na proteção dos cabelos contra o desgaste, reduzindo a absorção de água e evitando a penetração de substâncias nocivas. O óleo de coco se destaca por sua capacidade de reduzir a perda de proteína em cabelos danificados e não danificados. Por outro lado, os minerais e de girassol oferecem principalmente proteção superficial, mas podem não penetrar nas hastes capilares de maneira eficaz. Os óleos brasileiros, incluindo castanha‐do‐Pará e minerais, têm se mostrado promissores na redução de pontas duplas e melhorando a resistência ao ato de pentear. Além disso, o óleo de argan, rico em antioxidantes, ganhou popularidade por suas propriedades hidratantes, embora mais pesquisas sejam necessárias para entender completamente seus benefícios.
Por fim, condicionadores que contêm proteínas são eficazes para melhorar a saúde capilar, reparando temporariamente o desgaste, especialmente nas pontas duplas. As proteínas podem penetrar nas hastes capilares, ligar‐se à queratina e restaurar proteínas perdidas, aumentando a força do cabelo e prevenindo mais desgaste. No entanto, o seu efeito condicionador é temporário, pois o excesso de proteínas é removido durante a lavagem. Portanto, é necessário reaplicá-lo para manter sua eficácia.
| Conclusão |
O uso de suplementos nutricionais e soluções cosméticas emerge como caminho para abordar o desgaste capilar induzido por fatores expossômicos. Embora a eficácia potencial de vários tratamentos seja evidente em estudos selecionados, o campo necessita de mais robustez para validar essas descobertas.