A endometriose é uma condição ginecológica inflamatória comum, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. Embora os sintomas característicos incluam dismenorreia, dor pélvica e dispareunia, os impactos gastrointestinais são extremamente comuns, afetando mais de 75% das pacientes com a condição, e incluem dor abdominal, inchaço, diarreia e disquesia. Estes geralmente se intensificam durante a menstruação, independentemente da infiltração da doença no intestino.
Pacientes com endometriose são frequentemente diagnosticadas com síndrome do intestino irritável (SII) e são três vezes mais propensas a atender aos critérios de Roma para essa condição. A dieta de baixo teor de oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis (FODMAP) possui suporte de múltiplos ensaios clínicos randomizados para pacientes com SII. Estudos observacionais também sugeriram que a restrição desses alimentos pode beneficiar pacientes com endometriose e sintomas gastrointestinais. No entanto, não havia um ensaio clínico randomizado, controlado por placebo, que tivesse avaliado formalmente a eficácia desse padrão alimentar na endometriose.
Por isso, Varney e colaboradores (2025) realizaram um estudo com o objetivo de testar se a hipótese que restringe de todos os FODMAPs aliviaria os sintomas gastrointestinais em pacientes com endometriose e sintomas gastrointestinais mal controlados. Para isso, eles realizaram um estudo randomizado, controlado, cruzado de alimentação, comparando os efeitos de 28 dias de uma dieta de baixo teor de FODMAP com uma dieta de controle na gravidade dos sintomas gastrointestinais, qualidade de vida e sintomas psicológicos.
No total, foram randomizadas 35 mulheres, com idade média de 31 anos, e, dessas, 25 completaram o estudo. Na linha de base, a maioria apresentava dor pélvica (86%), dor severa durante o período menstrual (64%) e dor durante ou após relações sexuais (66%). Os sintomas gastrointestinais, medidos pela escala analógica visual (VAS), foram elevados na linha de base, com dor abdominal média de 52,3 mm e inchaço de 55,6 mm. Em relação aos transtornos psicológicos, mais da metade apresentava pontuações anormais para depressão, ansiedade e estresse na linha de base.
Não houve diferenças significativas em relação à adesão entre as dietas e no consumo de macronutrientes e fibras. No geral, 60% do grupo de baixo teor de FODMAP respondeu à dieta, em comparação com 26% do controle.
Na quarta semana da intervenção, os escores gerais dos sintomas foram 35 mm na dieta de baixo teor de FODMAP e 58 mm no controle. Houve uma melhora de 26 mm nas pontuações gerais dos sintomas na dieta de baixo teor de FODMAP, enquanto no controle a melhora foi de apenas 3 mm em relação à linha de base. As melhorias nos sintomas gerais foram evidentes a partir da segunda semana.
As participantes relataram menos dor abdominal/desconforto e inchaço na dieta de baixo teor de FODMAP. Ademais, foram observadas melhorias clinicamente significativas na diarreia, dor abdominal e refluxo gastroesofágico. Não foram observadas mudanças na fadiga/letargia ou náuseas.
A dieta de baixo teor de FODMAP levou a uma normalização da forma das fezes (escala de Bristol) em 71% dos dias, em comparação com 43% dos dias na linha de base e 56% na dieta controle. Fezes moles foram menos frequentes na dieta de baixo teor de FODMAP. Não houve diferenças no número de evacuações por dia.
Em relação aos sintomas psicológicos, não houve diferenças significativas nos escores de depressão e ansiedade entre a linha de base, a dieta controle e a dieta de baixo teor de FODMAP. No entanto, nas participantes com escores anormais de depressão na linha de base, houve uma redução estatisticamente significativa desse transtorno e uma tendência de diminuição da ansiedade com a dieta de baixo teor de FODMAP.
Os escores de estresse foram mais baixos na dieta de baixo teor de FODMAP em comparação com a linha de base para todos os participantes. No entanto, entre aquelas com escores anormais, ambos os grupos apresentaram pontuações de estresse mais baixos.
Os escores do índice de qualidade de vida gastrointestinal (GIQLI) foram mais altos na dieta de baixo teor de FODMAP em comparação com a linha de base e a dieta controle. As dimensões individuais de sintomas e função física também melhoraram nesse grupo.
As pontuações do questionário de perfil de saúde da endometriose (EHPQ-30) também aumentaram na dieta de baixo teor de FODMAP. Esse resultado foi impulsionado principalmente por melhorias no impacto da dor, bem como no controle e impotência.
Em conclusão, Varney e colaboradores (2025) forneceram dados que apoiaram o uso de uma dieta com baixo teor de FODMAPS para melhorar os sintomas gastrointestinais e a qualidade de vida em pacientes com endometriose. Entretanto, mais pesquisas são necessárias para avaliar o impacto das fases de reintrodução e personalização da dieta FODMAP nos resultados de longo prazo.