| Introdução |
Nos últimos anos, a expectativa de vida dos receptores de transplante de órgãos sólidos (RTOS) melhorou significativamente. No entanto, ainda são uma população com risco aumentado de desenvolver diferentes tipos de tumores, como cânceres de pele não melanoma (CPNM).
Da mesma forma, distúrbios cutâneos pré-cancerosos, como ceratoses actínicas (CAs), têm sido encontrados com frequência significativamente maior nessa população. Juntamente com outros fatores de risco, como pele clara, idade avançada e infecção por beta-papilomavírus humano, a combinação de imunossupressão e exposição intensa aos raios UV desempenha um papel crucial em RTOS, tornando os exames dermatológicos periódicos essenciais para o diagnóstico precoce e cura de qualquer câncer de pele em desenvolvimento.
O Imiquimode é uma substância com função antineoplásica, que estimula a apoptose e inibe a angiogênese. É o tratamento de primeira escolha para a maioria dos carcinomas basocelulares (CBCs). No entanto, o potencial risco de reações imunológicas sistêmicas induzidas pela secreção de interferon alfa, possivelmente levando à alteração da função do enxerto, ou até mesmo à sua rejeição, limitou seu uso em receptores de transplantes.
Para preencher a falta de informações, Fava e colaboradores (2024) analisaram a eficácia e a segurança do Imiquimode 5% em uma população de RTOS.
| Métodos |
Foi realizado um estudo retrospectivo, observacional e multicêntrico. Todos os RTOS com idade > 18 anos e diagnóstico dermatoscópico de carcinoma basocelular superficial (CBC) e/ou CAs, acompanhados anualmente entre janeiro de 2022 e dezembro de 2022 foram selecionados.
Imiquimode tópico 5% foi administrado de acordo com o esquema comumente usado, conforme indicado nas diretrizes da European Medicines Agency. Para CBCs superficiais, foi aplicado por 6 semanas consecutivas, 5 dias por semana, enquanto para CAs, aplicado por 4 semanas, 3 vezes por semana. A cicatrização foi avaliada 4 semanas após a suspensão, enquanto a resposta ao tratamento após 12 semanas. Se sinais de CPNM persistissem, o tratamento era repetido por um ciclo adicional. Efeitos colaterais locais e sistêmicos foram avaliados.
| Resultados |
No total, 62 pacientes (idade média de 66,5 anos; 85,5% homens) atenderam aos critérios de inclusão e foram analisados. Em relação ao tipo de transplante, 57 pacientes fizeram o procedimento para receber rim, 3 fígado, 1 pulmão, 1 coração e 2 transplantes combinados (um rim e pâncreas e outro rim e coração). Em relação aos tratamentos imunossupressores sistêmicos, os esteroides sistêmicos (66,1%) e o tacrolimo (64,5%) representaram a maioria, seguidos por micofenolato mofetil (48,4%), ciclosporina (24,2%), sirolimo (9,7%), everolimo (8,1%) e azatioprina (4,8%).
Quanto às indicações clínicas para o primeiro ciclo de Imiquimode em estudo, 31 pacientes receberam para CA e 31 para CBC. Essas lesões foram distribuídas no tronco e membros inferiores. A eficácia do tratamento foi avaliada analisando-se clinicamente e dermatoscopicamente todas as lesões.
As respostas ao primeiro curso de tratamento foram completas em 64,3% dos casos (53,6% em CA; 67,7% em CBC); parciais em 28,6% (42,9% em CA; 12,9% em CBC) e 12,5% não foram responsivos (3,6% em CA; 19,4% em CBC). Ademais, quatorze pacientes receberam um segundo curso de imiquimode ou para uma lesão persistente (1 CA, 4 CBC) ou uma nova (4 CA, 5 CBC). As respostas do segundo curso foram observadas, respectivamente, em 4 (80%) e 7 (78%) participantes.
Não foram observados eventos adversos sistêmicos. Os principais efeitos colaterais foram leves: eritema, escamas e crostas, coceira ou dor.
| Conclusão |
Com base no estudo, o Imiquimode tópico pode ser considerado uma opção terapêutica válida no manejo em RTOS, com um perfil de segurança e eficácia comparável ao observado na população geral.