| Introdução |
A insuficiência venosa crônica (IVC) engloba diversas condições associadas a alterações estruturais e funcionais do sistema venoso. Essa fisiopatologia envolve uma interação complexa entre disfunção das válvulas venosas e hipertensão venosa, resultando em alterações hemodinâmicas e vasculares, tanto macro quanto microcirculatórias. As manifestações clínicas mais comuns incluem: telangiectasias, venectasias reticulares, varizes e úlceras cutâneas.
A doença venosa crônica apresenta alta prevalência em países desenvolvidos, embora as estimativas variem conforme metodologia e localização geográfica. Estudos sugeriram que doenças vasculares venosas e arteriais compartilham mecanismos fisiopatológicos e estão inter-relacionadas, mas ainda existem poucas pesquisas que investiguem essa interação e seu impacto na mortalidade.
Diante disso, Prochaska e colaboradores (2021) realizaram um estudo com objetivo de estimar a prevalência atual da IVC por idade e sexo, analisar fatores de risco cardiovasculares e comorbidades associadas e avaliar sua relevância para os desfechos clínicos na população em geral.
| Métodos |
A fenotipagem sistemática da IVC foi conduzida em 12.423 participantes, com idades entre 40 e 80 anos, no estudo Gutenberg Health Study, ao longo de cinco anos e a prevalência foi calculada de forma específica para idade e sexo. A doença foi classificada com base na apresentação clínica, seguindo o esquema Clínico-Etiológico-Anatômico-Fisiopatológico (CEAP), e os indivíduos foram agrupados da seguinte maneira:
| Grupos | Sintomas |
| C0 | sem sinais visíveis de insuficiência venosa. |
| C1 | telangiectasias |
| C2 | veias varicosa |
| C3 | edema |
| C4 | alterações cutâneas |
| C5 | úlcera venosa cicatrizada |
| C6 | úlcera venosa ativa |
Tabelas 1: Relação entre grupos e sintomas da insuficiência venosa crônica.
Cada participante foi considerado de acordo com o grau mais alto da classificação CEAP presente em ambas as pernas. A IVC foi definida a partir do estágio C3, enquanto indivíduos classificados como C0 foram considerados livres da doença venosa, C3 com enfermidade moderada e C4 estágio avançado.
Modelos de regressão de Poisson multivariáveis foram utilizados para avaliar a relação da IVC com comorbidades cardiovasculares. Além disso, análises de sobrevivência foram conduzidas para examinar o risco de morte associado à insuficiência venosa crônica.
| Resultados |
> Características clínicas da amostra populacional
As informações sobre a IVC estavam disponíveis para 10.664 indivíduos, com 48,8% de mulheres e média de idade de 59,5 anos, distribuídos nas seguintes classificações:
| Grupos | Participantes |
| C0 | 906 |
| C1 | 3.756 |
| C2 | 1.399 |
| C3 | 3.361 |
| C4-C6 | 1.242 |
Tabela 2: Relação do número de partipantes analisados por grupo.
Indivíduos com a IVC eram mais velhos e predominantemente do sexo feminino quando comparados ao grupo C0. Além disso, fatores de risco cardiovascular, como hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia, histórico familiar de infarto/AVC, obesidade e tabagismo, foram mais frequentes no grupo C4–C6, o que reforça a interconexão entre doença venosa e doença cardiovascular.
A co-prevalência de doenças cardiovasculares foi maior nos estágios avançados da IVC, com exceção da doença pulmonar obstrutiva crônica. Quando comparados indivíduos dos grupos C1 e C2 com o C0, foram encontradas diferenças clínicas mínimas.
> Prevalência da insuficiência venosa crônica na população geral
Na amostra total, a prevalência das doenças venosas crônicas para C1, C2 e C3-C6 foi de 36,5%, 13,3% e 40,8%, respectivamente. Já entre os fenótipos dessa enfermidade, o grupo C3 apresentou a maior prevalência (30,1%), seguida pelo C4 (10,5%) e pelos C5/C6 (0,2%).
Além disso, estudos indicaram que a insuficiência venosa crônica pode estar subestimada, pois apenas 9,4% da população analisada não apresentava qualquer sinal clínico da doença.
A frequência de sintomas autorrelatados foi maior em mulheres, sendo dor e inchaço nas pernas os mais frequentes nos grupos C3-C6, e apenas dor nos membros inferiores nos C0-C2.
A prevalência específica por idade e sexo das condições clínicas da insuficiência venosa crônica na população geral foi ilustrada na figura 1.

Figura 1: Prevalência de condições clínicas de insuficiência venosa crônica na população geral, específica por idade e sexo. Imagem retirada de Prochaska e colaboradores (2021).
> Comorbidades cardiovasculares e condições clínicas da insuficiência venosa crônica
As análises de regressão univariadas e multivariadas demonstraram que a IVC foi associada à idade, sexo feminino e fatores de risco cardiovasculares, como hipertensão arterial, obesidade, tabagismo e doença cardiovascular.
Nos casos avançados (C4–C6), observou-se maior prevalência de doença arterial periférica e tromboembolismo venoso, enquanto a IVC moderada (C3) não apresentou associação significativa com doenças cardiovasculares específicas.
Além disso, indivíduos com IVC avançada tiveram maior risco cardiovascular, em comparação aos casos moderados e aos que não possuíam a doença. Nos modelos ajustados, a insuficiência venosa crônica foi um preditor independente de doença cardiovascular, sendo que o risco aumentava progressivamente conforme a gravidade da doença.
Esse resultado corroborou com a hipótese de interdependência entre doença arterial e venosa, possivelmente explicada por mecanismos inflamatórios sistêmicos e fatores de risco compartilhados.
O risco previsto de doença coronariana incidente, segundo a pontuação de risco de Framingham, também cresceu proporcionalmente à severidade da IVC, reforçando sua relevância na estratificação do risco cardiovascular.
> Insuficiência venosa crônica e mortalidade por todas as causas
A IVC foi identificada como um preditor independente de mortalidade por todas as causas, com risco progressivo conforme a gravidade da doença aumentava.
Durante uma análise de sobrevivência com seguimento médio de 6,4 anos, foram registrados 540 óbitos, sendo a mortalidade significativamente mais alta em indivíduos com IVC (C3-C6) em comparação àqueles sem sinais clínicos da condição.
Nos modelos de regressão de Cox, a IVC permaneceu um preditor independente de mortalidade por todas as causas, mesmo após ajustes para idade, sexo, fatores de risco cardiovasculares e doenças cardiovasculares.
Esse achado se manteve robusto mesmo após ajustes adicionais para medicação cardiovascular, fortalecendo a hipótese de que a IVC pode impactar negativamente a sobrevida.
> Análise de sensibilidade: indivíduos sem doença cardiovascular prevalente
Para excluir possíveis fatores de confusão não mensurados, foram realizadas análises de desfecho em uma subamostra de 9.923 indivíduos sem doenças cardiovasculares prévias. Os resultados indicaram que a IVC (C3–C6) esteve associada a um risco três vezes maior de mortalidade por todas as causas, quando comparada a indivíduos sem sinais clínicos da condição.
A relação entre IVC e mortalidade se mostrou dependente da gravidade da doença, sendo mais evidente em casos moderados e avançados.
Na análise de regressão de Cox, a IVC permaneceu um preditor independente de mortalidade, mesmo após ajustes para potenciais fatores de confusão e mediadores de efeito.
| Conclusão |
O estudo de Prochaska e colaboradores (2021) evidenciou a alta prevalência da IVC na população, sua interdependência com doenças cardiovasculares e seu papel como preditor independente de mortalidade por todas as causas. Além de compartilhar fatores de risco com doenças arteriais, a IVC foi associada à inflamação sistêmica, sugerindo uma comunicação entre os sistemas venoso e arterial. Dada sua subestimação, a doença deve ser reconhecida não apenas como um problema estético, mas como uma condição com impacto significativo na sobrevida. Esse cenário abre espaço para novas pesquisas sobre sua fisiopatologia, intervenções terapêuticas e estratégias para uma melhor estratificação de risco, possibilitando uma abordagem mais eficaz na detecção precoce de doenças cardiovasculares em indivíduos com IVC.