A American Heart Association (AHA) publicou na revista Circulation uma declaração mostrando diferenças significativas na prevalência, diagnóstico, tratamento e prognóstico da doença vascular periférica (DVP) entre sexos. A Dra. Esther Kim, que liderou o comitê, destacou a falta de atenção dedicada à enfermidade (incluindo doenças aórticas e arteriais periféricas), apesar do crescente foco em diferenças de gênero em doenças cardiovasculares.
A vasta maioria da literatura aborda apenas a doença cardíaca em mulheres, o que incluiu doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e arritmias. Entretanto, há poucos estudos sobre doença vascular. Por isso, a AHA desenvolveu um documento multidisciplinar que definisse as diferenças baseadas no sexo na DVP, com ênfase nas artérias periféricas, incluindo a aorta e seus ramos.
Em relação ao aneurisma e à dissecção aórtica, a declaração observou que a prevalência é maior em homens, mas as mulheres são mais velhas no momento do diagnóstico. Pesquisas sugeriram que a taxa anual de aneurisma de aorta abdominal (AAA) é quase duas vezes maior em homens, mas as mulheres apresentam-se de 5 a 10 anos mais tarde que os homens. Prevalência menor e apresentação tardia também se aplicam ao aneurisma de aorta torácica (TAA) e às síndromes aórticas agudas, como a dissecção.
Com tratamentos como o reparo endovascular de aneurisma torácico (TEVAR) para TAA, a mortalidade pós-operatória a 30 dias a 1 ano é maior em mulheres do que em homens. Após o reparo aberto para AAA intacto ou rompido, as mulheres apresentam maior risco de mortalidade do que os homens. No entanto, o reparo endovascular eletivo é mais frequentemente realizado em homens, o que pode estar relacionado a fatores anatômicos. Historicamente, porém, as mulheres têm sido sub-representadas em muitos dos ensaios randomizados que comparam o reparo endovascular com a cirurgia aberta para AAA e em outros estudos patrocinados pela indústria com dispositivos.
Quando uma mulher se apresenta, ela é mais velha, está mais doente e sua doença é mais grave. A mesma não consegue receber tratamento endovascular porque o dispositivo não foi desenvolvido para tratar mulheres. Talvez seje necessário cateteres mais flexíveis, ou com formatos diferentes, ou de balões de tamanhos diferentes. Por isso, é necessário promover a equidade em termos de representação nos ensaios de dispositivos.
Na doença arterial periférica (DAP), a prevalência varia, mas estudos sugeriram taxas semelhantes entre homens e mulheres. Os fatores de risco são semelhantes entre os sexos, mas os sintomas podem variar, com as mulheres tendo maior probabilidade do que os homens de relatar ausência de sintomas ou sintomas atípicos de esforço nas pernas. Além disso, elas se apresentam com DAP em estágios mais avançados e têm menos probabilidade de receber tratamento médico direcionado por diretrizes, como estatinas, ou de participar de exercícios estruturados e supervisionados.
A declaração também destacou as diferenças baseadas no sexo na doença da artéria mesentérica, vasculite, aneurismas periféricos e arteriopatias disseminantes, e doença da artéria carótida, observando que as mulheres têm muito mais probabilidade de desenvolver displasia fibromuscular e isquemia mesentérica crônica. No que diz respeito à doença carotídea, as mulheres têm maior risco de acidente vascular cerebral ao longo da vida do que os homens, mas também têm sido sub-representadas em ensaios de implante de stent e endarterectomia.
Essas numerosas disparidades oferecem oportunidades para buscar a equidade na saúde para mulheres com DVP, e é imperativo que pesquisas futuras incorporem variáveis baseadas no sexo em seu desenho e relato.