Medical News

/ Published on February 10, 2025

Nova função

Hormônio do crescimento atua na regulação da glicemia e na sensibilidade à insulina

Estudo da USP em animais tem implicações para entendimento e tratamento da diabetes tipo 2; obesidade e genética aumentam o risco, mas não são fatores decisivos

Um estudo conduzido pelo Laboratório de Neuroendocrinologia e Metabolismo do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP revelou um mecanismo inédito de ação do hormônio do crescimento (GH) no sistema nervoso central. A pesquisa, publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), demonstrou que esse hormônio regula diretamente a sensibilidade à insulina por meio de uma população específica de neurônios no hipotálamo, um achado que pode ter implicações significativas no entendimento e tratamento da diabetes.

O hormônio do crescimento é tradicionalmente conhecido por seu papel no crescimento e na regeneração celular. No entanto, a equipe vem investigando há anos suas funções menos conhecidas no metabolismo.

“Descobrimos que o GH atua no cérebro de formas que antes não eram imaginadas. Ele regula a sensibilidade à insulina e o metabolismo da glicose por meio de um grupo de neurônios localizados no núcleo paraventricular do hipotálamo, especificamente aqueles que expressam Sim1 e VGLUT2”, explicou José Donato Junior, principal pesquisador do estudo.

A pesquisa utilizou camundongos geneticamente modificados para eliminar o receptor de GH nesses neurônios específicos. Os resultados mostraram que estes animais apresentaram menores níveis de glicemia e uma sensibilidade à insulina significativamente maior em comparação aos camundongos sem alterações.

Isso sugere que o GH desempenha um papel crucial na regulação dos níveis de açúcar no sangue, e sua manipulação pode ter potencial terapêutico, pois a redução da glicemia observada nos camundongos estava associada à menor produção de glicose pelo fígado.

Nova função

O estudo também ajudou a explicar por que o hormônio do crescimento é conhecido por ter um efeito “diabetogênico”. Condições como acromegalia — um distúrbio causado pelo excesso de GH — são associadas a uma maior incidência de diabetes, e agora os pesquisadores entendem melhor o mecanismo por trás desse fenômeno.

“Nosso estudo revelou que a atuação do GH nesses neurônios pode ser um dos principais fatores que contribuem para a resistência à insulina, que é um dos aspectos centrais da diabetes tipo 2”, afirmou Donato. O estudo mostrou que os camundongos que tiveram o receptor de GH inativados foram protegidos contra efeitos diabetogênicos agudos, mas não crônicos.

A pesquisa também pode ajudar a responder uma pergunta fundamental: por que algumas pessoas desenvolvem diabetes enquanto outras não, mesmo quando expostas aos mesmos fatores de risco? “Nosso estudo sugeriu que diferenças na sensibilidade ao GH podem desempenhar um papel crucial na propensão ao diabete, e desvendar esse mecanismo pode abrir caminhos para tratamentos mais eficazes”, disse o cientista.

“Agora, nosso próximo passo é entender detalhadamente como esses neurônios se comunicam com o fígado para influenciar os níveis de glicose no sangue”, afirmou. Esse aprofundamento permitirá avaliar quais sinais bioquímicos estão envolvidos nessa regulação e como a interferência nesse mecanismo pode ser explorada para melhorar a resposta do organismo à insulina.

Estudos anteriores realizados pelo grupo de pesquisa de Donato demonstraram que o hormônio do crescimento desempenha papéis importantes em diversas funções do organismo, incluindo a regulação da fome e da ansiedade, a influência sobre a longevidade e a neuroproteção.