Os medicamentos para obesidade, como a semaglutida, têm sido celebrados por sua capacidade de promover a perda de peso e tratar uma surpreendente gama de outras condições, desde problemas cardíacos até a doença de Parkinson. Agora, uma análise de dados de quase 2 milhões de pessoas está revelando insights sobre os efeitos desses medicamentos — incluindo os riscos que eles apresentam.
Os achados, publicados na Nature Medicine de janeiro, confirmaram que esses medicamentos, chamados agonistas do receptor de peptídeo-1 semelhantes ao glucagon (GLP-1), oferecem mais do que apenas benefícios para a perda de peso. No entanto, o estudo destacou riscos recentemente reconhecidos desses medicamentos, incluindo uma maior probabilidade de desenvolver artrite e uma condição potencialmente fatal chamada pancreatite.
O estudo focou nos agonistas do receptor de GLP-1, incluindo a semaglutida, que é vendida para tratar diabetes e agora é amplamente prescrita para perda de peso.
Por cerca de 3,5 anos, Al-Aly e colaboradores (2025) acompanharam mais de 200.000 pessoas com diabetes que estavam usando medicamentos GLP-1 e cerca de 1,7 milhão de pessoas com diabetes que usavam outros medicamentos para baixar a glicose no sangue. Eles rastrearam os efeitos dos medicamentos GLP-1 em 175 condições de saúde.
Comparados a outros medicamentos para diabetes, os medicamentos GLP-1 estavam associados a um menor risco de dezenas de condições, incluindo doenças cardíacas, AVC e doenças renais. Eles também reduziram o risco de transtornos psicóticos em 18%, da doença de Alzheimer em 12% e dos transtornos aditivos em média de 13%.
Como os medicamentos GLP-1 agem em regiões do cérebro envolvidas no controle de recompensa e impulso, eles podem ajudar a reduzir o desejo por tabaco, álcool, cannabis e opioides.
No entanto, o estudo encontrou riscos associados ao uso de GLP-1. Por exemplo, esses medicamentos estavam associados a um aumento de 11% no risco de artrite e a um risco 146% maior de pancreatite — uma inflamação do pâncreas que pode levar a complicações que ameaçam a vida.
Al-Aly especulou que os medicamentos podem influenciar o risco de tantas condições, tanto porque atuam em várias partes do corpo quanto porque tratam a obesidade, que contribui para vários problemas de saúde.
Um dos pontos a se questionar do estudo é que o mesmo não comparou os participantes em relação a fatores como idade e estilo de vida, sendo o tipo de tratamento a única diferença entre os grupos. Sem mais informações, é difícil descartar diferenças intrínsecas entre os grupos que poderiam distorcer os resultados.
Ademais, o estudo comparou apenas a probabilidade de as pessoas nos dois grupos desenvolverem uma determinada condição ao longo do tempo. Essa medida pode mostrar se as pessoas que usam medicamentos GLP-1 têm mais ou menos probabilidade de desenvolver essa condição em comparação com as que usam outros medicamentos para diabetes. No entanto, os profissionais de saúde estão interessados em saber o número exato de eventos em cada grupo, pois isso lhes dá uma melhor compreensão de quão relevantes são os resultados para seus pacientes, diz ele.
Por exemplo, uma redução de duas vezes no risco de uma condição específica seria significativa se os casos diminuíssem de 350 para 175, mas se a redução fosse de 10 para 5 casos, teria pouca relevância clínica.
Em conclusão, a análise dos medicamentos para obesidade, especialmente os agonistas do receptor de GLP-1 como a semaglutida, revelou uma complexa interação entre seus benefícios e riscos. Embora esses medicamentos tenham demonstrado eficácia em promover a perda de peso e a redução de riscos associados a diversas condições de saúde, também surgiram preocupações com riscos significativos, como o aumento da probabilidade de artrite e pancreatite.