As doenças inflamatórias intestinais (DII), que compreendem a colite ulcerativa (CU) e a doença de Crohn (DC), são caracterizadas por uma inflamação crônica do trato gastrointestinal que frequentemente se manifesta de forma extraintestinal. Dentre essas, condições reumatológicas, como a espondiloartrite e a fragilidade óssea, destacam-se por representar desafios terapêuticos significativos no manejo clínico. A importância dessas doenças ósseas reside, sobretudo, no aumento do risco de fraturas, o que pode resultar em uma redução drástica da qualidade de vida e no aumento da incapacidade funcional dos pacientes.
A prevalência exata dessas alterações ósseas em pacientes com DII ainda não é clara devido à ausência de um rastreamento sistemático da densidade mineral óssea (DMO) por meio da densitometria óssea (DXA). Esse cenário de subdiagnóstico da osteoporose pode comprometer diretamente o manejo adequado dos pacientes. Por isso, Ottaviani e colaboradores (2026) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar a frequência da baixa DMO em uma coorte de pacientes com DII e identificar os fatores que estão associados a essa fragilidade.
Para isso, eles realizaram uma análise observacional transversal, incluindo consecutivamente pacientes adultos com diagnóstico de DC ou CU, conforme as diretrizes da European Crohn’s and Colitis Organization, recrutados em dois centros de cuidados terciários na França entre 2019 e 2023. Foram selecionados aqueles que apresentavam queixas musculoesqueléticas, como dores articulares, tendinosas ou nas costas, sendo excluídos os que possuíam diagnóstico prévio de baixa DMO.
A avaliação reumatológica foi padronizada e abrangente, englobando a coleta de dados clínicos sobre histórico pessoal e familiar de fraturas, hábitos de vida (tabagismo e etilismo), histórico cirúrgico relacionado à DII e o uso atual de terapias como corticosteroides, drogas modificadoras da doença (DMARDs) sintéticas e biológicas, além de suplementação prévia de vitamina D ou tratamentos anti-osteoporose. Complementarmente, foram realizados exames laboratoriais para aferição de marcadores como proteína C-reativa (PCR), 25-OH-vitamina D, cálcio, fósforo, creatinina e marcadores de remodelação óssea, como a osteocalcina. O rastreamento de fraturas vertebrais e espondiloartrite foi auxiliado por exames de imagem, especificamente ressonância magnética da coluna total e das articulações sacroilíacas.
A mensuração da densidade mineral óssea foi realizada via densitometria óssea (DXA) na coluna lombar (L1–L4) e no quadril. Para a classificação diagnóstica, os pesquisadores adotaram critérios baseados na idade: para pacientes com 50 anos ou mais, utilizou-se o T-score, definindo osteopenia entre -1 e -2,5 DP e osteoporose como ≤ -2,5 DP; para pacientes abaixo de 50 anos, utilizou-se o Z-score, com osteopenia definida entre -1 e -2 DP e osteoporose como ≤ -2 DP. Por fim, as análises estatísticas incluíram modelos de regressão logística multivariável (LASSO) para identificar fatores independentemente associados à baixa DMO, considerando variáveis como idade, IMC, duração da doença e uso de corticosteroides.
A análise incluiu 339 pacientes, com idade mediana de 42 anos e predominância do sexo feminino (64%). A maioria dos participantes (72%) apresentava DC, com um tempo mediano de diagnóstico de 9 anos, e 39% possuíam histórico de cirurgias relacionadas à DII. No que diz respeito ao perfil terapêutico no momento do estudo, 68% dos pacientes utilizavam biológicos (bDMARDs) e apenas 7% estavam em uso de corticosteroides. A prevalência de espondiloartrite na amostra foi de 26%.
Os resultados da DXA revelaram que 46% da coorte apresentava baixa DMO, com 34% dos pacientes classificados com osteopenia e 12% com osteoporose. No perfil laboratorial, observou-se que a deficiência de vitamina D era prevalente: apenas 24% tinham níveis normais de 25-OH-vitamina D, enquanto 65% apresentavam níveis baixos e 11% níveis muito baixos. Além disso, 29% dos pacientes apresentaram hipocalcemia e 17% desenvolveram hiperparatireoidismo secundário.
Na busca por fatores de risco, a análise estatística identificou que o histórico pessoal de fratura por fragilidade foi a única variável independentemente associada à osteoporose. Fatores como idade, sexo, IMC, tabagismo, duração da DII ou o uso de corticosteroides acima de 7,5 mg/dia não demonstraram associação estatisticamente significativa com a baixa DMO nesta população específica.
O impacto da avaliação reumatológica sistemática foi significativo no manejo clínico: a suplementação de vitamina D foi iniciada em 45% dos pacientes e a dose foi aumentada em outros 18,5%. Além disso, o tratamento específico para osteoporose foi iniciado em 7% dos casos (24 pacientes), sendo priorizada a administração de ácido zoledrônico intravenoso (5 mg) para contornar possíveis limitações de absorção intestinal comuns em pacientes com DII.
Em suma, a prevalência da baixa densidade mineral óssea foi significativamente alta em pacientes com DII, atingindo aproximadamente 46% da coorte analisada. Ottaviani e colaboradores (2026) enfatizaram que a implementação de uma avaliação reumatológica sistemática foi decisiva para o manejo clínico, resultando na introdução ou ajuste de terapias para saúde óssea na grande maioria dos pacientes. Em última análise, os dados sustentaram a importância de uma abordagem multidisciplinar e de protocolos de rastreamento proativos para garantir um cuidado integral e prevenir complicações de fragilidade óssea nessa população.