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/ Publicado el 26 de octubre de 2025

Demência

Existe relação entre doença de Alzheimer e infecção por HSV-1?

Estudo de caso-controle com mais de 1 milhão de pacientes apontou associação entre herpesvírus neurotrópicos e demência, além de sugerir efeito protetor dos antivirais.

A doença de Alzheimer (DA) é a principal causa de demência no mundo, representando cerca de 60% a 80% dos casos. Com o envelhecimento populacional, a sua incidência e os custos associados ao seu tratamento tendem a aumentar, representando um grande desafio para os sistemas de saúde a longo prazo.

Descobertas recentes sobre o papel antimicrobiano do peptídeo Aβ sugeriram que patógenos exógenos podem estar envolvidos no desenvolvimento da DA. O principal agente infeccioso estudado é o vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), uma infecção viral comum que afetou mais de dois terços da população mundial entre 0 e 49 anos em 2016 e permanece latente no sistema nervoso, podendo se reativar ao longo da vida.

Modelos animais demonstraram que a infecção e reativação do HSV-1 podem induzir depósitos de beta-amiloide (Aβ) e outras alterações típicas da DA. Além disso, estudos populacionais em países como Taiwan, Suécia e França mostraram que pacientes com HSV-1 tratados com antivirais apresentaram menor risco de desenvolver demência.

Apesar das evidências apoiarem amplamente o papel do HSV-1 no desenvolvimento da DA, um estudo populacional recente dos Estados Unidos (EUA) apresentou resultados inconsistentes. Diante disso, o estudo de Liu e colaboradores (2025) buscou investigar a associação entre infecção pelo vírus herpes simples tipo 1 e DA/demência relacionada à DA (ADRD), além de avaliar o potencial benefício do uso dos medicamentos antivirais.

O estudo caso-controle retrospectivo utilizou dados do banco IQVIA PharMetrics Plus, que reúne informações de mais de 215 milhões de pacientes nos EUA, para comparar indivíduos diagnosticados com DA/ADRD com controles pareados sem histórico de doenças neurológicas. Foram incluídos pacientes com idade igual ou superior a 50 anos, diagnosticados entre 2006 e 2021, pareados em proporção 1:1 com controles sem histórico de doenças neurológicas, considerando idade, sexo, região, ano de entrada no banco e número de visitas médicas.

No total, foram identificados 395.654 pacientes com DA e 1.039.683 com ADRD, dos quais 344.628 e 747.653, respectivamente, foram pareados com controles. A maioria dos pacientes com DA eram mulheres (65%), com idade média de 73 anos, apresentando maior número de comorbidades e menor tempo de acompanhamento em relação aos controles. A presença prévia de HSV-1 e o uso de antivirais foram identificados por meio de códigos médicos e farmacêuticos.

A infecção prévia por HSV-1 foi observada em 0,44% dos pacientes com DA, contra 0,24% dos controles. A análise estatística mostrou que o diagnóstico do vírus foi associado a um risco significativamente maior de doença de Alzheimer, com uma razão de chances ajustada (OR) de 1,80. Essa associação foi mais forte em faixas etárias mais avançadas: OR de 1,14. 1,51 e 2,10 para 50-70 anos, 71-74 anos e 75 anos ou mais, respectivamente. Resultados semelhantes foram encontrados na análise de ADRD.

O estudo também avaliou outros herpesvírus. Tanto o vírus herpes simples tipo 2 (HSV-2) quanto o vírus varicela zoster (VZV) apresentaram associação com DA semelhante à observada com HSV-1, enquanto a infecção pelo citomegalovírus (CMV) não mostrou diferença significativa entre casos e controles. Curiosamente, a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), usada como comparação não infecciosa, foi mais prevalente entre os controles.

Entre os 2.330 pacientes com histórico de HSV-1, 40% utilizaram medicamentos antivirais após o diagnóstico e apresentaram menor risco de desenvolver DA em comparação com os que não usaram, mesmo após ajuste por idade, sexo, região e comorbidades. A análise de risco cumulativo confirmou esse efeito protetor, e resultados semelhantes foram observados na população com ADRD.

Em resumo, o estudo de Liu e colaboradores (2025) identificou uma associação significativa entre infecção sintomática por HSV-1 e o desenvolvimento DA, com risco aumentado especialmente em pacientes acima de 75 anos. Além disso, observou-se que o uso de medicamentos antivirais após o diagnóstico de HSV-1 esteve associado a uma redução no risco de DA, sugerindo um possível efeito protetor. Evidências indicaram que o HSV-1 pode contribuir para a patogênese da DA por mecanismos inflamatórios e neurodegenerativos, com interação genética via ApoE ε4. Esses achados reforçaram a importância do monitoramento e da prevenção de herpesvírus como estratégia de saúde pública, e apontaram para o potencial dos antivirais como abordagem preventiva na demência.