A terapia hormonal com estrogênio mais progestina é um fator de risco estabelecido para o câncer de mama em mulheres pós-menopáusicas. No entanto, os efeitos dessa intervenção em mulheres jovens ainda são pouco compreendidos, especialmente entre aquelas que recorrem à terapia hormonal após cirurgias ginecológicas (como ooforectomia ou histerectomia) ou para o manejo de sintomas perimenopáusicos.
Diante disso, O'Brien e colaboradores (2025) abordaram essa lacuna ao investigar a associação entre hormônios exógenos e câncer de mama de início precoce em uma ampla amostra internacional.
Os autores utilizaram dados de 10 a 13 coortes prospectivas conduzidas na América do Norte, Europa, Ásia e Austrália, que acompanharam mulheres até os 55 anos de idade para identificar casos de câncer de mama. Foi utilizado regressão de riscos proporcionais de Cox, ajustada por múltiplas variáveis e estratificada por coorte, para estimar razões de risco (HRs) e intervalos de confiança de 95% (IC) para as associações entre terapia hormonal e câncer de mama de início precoce.
O estudo incluiu 459.476 mulheres com idades entre 16 e 54 anos (média de 42,0), das quais 8.455 desenvolveram câncer de mama de início precoce (diagnosticado antes dos 55 anos). No total, 15% das participantes relataram uso de terapia hormonal, sendo os tipos mais comuns a terapia com estrogênio mais progestina (6%) e estrogênio isolado (5%). O risco cumulativo de câncer de mama de início precoce foi de 4,1% entre as não usuárias.
O uso de qualquer tipo de terapia hormonal não foi associado ao aumento da incidência de câncer de mama de início precoce, mas o uso de estrogênio isolado mostrou associação inversa; diferença de risco: -0,5%. A razão de risco para o uso de estrogênio mais progestina foi de 1,10, com associações positivas observadas para uso prolongado e entre mulheres sem histerectomia ou ooforectomia bilateral.
A associação entre estrogênio isolado e câncer de mama de início precoce foi semelhante entre todos os subtipos de câncer de mama. No entanto, a terapia com estrogênio mais progestina apresentou associação mais forte com cânceres de receptor de estrogênio negativo e com doença triplo-negativa do que com outros subtipos.
Em resumo, o uso de estrogênio isolado foi associado à redução do risco de câncer de mama de início precoce, enquanto a terapia com estrogênio mais progestina esteve associada ao aumento da incidência entre mulheres com útero e ovários intactos. Esses dados foram amplamente consistentes com estudos sobre o uso de hormônios e câncer de mama de início tardio, e forneceram evidências inéditas para embasar recomendações clínicas voltadas a mulheres mais jovens.