Embora a infecção aguda por SARS-CoV-2 tenha causado morbidade e mortalidade significativas, a atenção científica e clínica tem se voltado cada vez mais para os seus efeitos de longo prazo, comumente chamados de COVID longa. Esses são definidos pela presença de sintomas que persistem ou se desenvolvem pelo menos três meses após a infecção aguda, duram pelo menos dois meses e não podem ser explicados por diagnósticos alternativos. Essa condição inclui uma ampla gama de manifestações que afetam múltiplos sistemas orgânicos, sendo a fadiga, a disfunção cognitiva e os sintomas respiratórios os mais prevalentes.
As estimativas de prevalência de COVID longa variam amplamente, de 3% a 54%, a depender da definição utilizada, da população estudada, do desenho amostral e da gravidade da doença inicial, além do tempo decorrido desde a infecção, do status vacinal e da variante viral envolvida. Análises comparativas indicaram que o risco de desenvolver essas sequelas é maior após a infecção pela cepa ancestral do SARS-CoV-2 (aSCV2) e diminui progressivamente com as variantes subsequentes.
Durante o período em que a cepa ancestral foi dominante, os profissionais de saúde foram particularmente afetados pela COVID longa em razão da elevada exposição ocupacional ao vírus, apresentando taxas de prevalência visivelmente superiores às da população geral. Embora o acompanhamento da população geral aponte para um declínio na prevalência dos sintomas, especialmente durante o primeiro ano pós-infecção, uma proporção (entre 18% e 47%) continua a apresentar essas manifestações após dois anos.
Com o intuito de orientar a assistência clínica pós-COVID-19 e as estratégias de saúde ocupacional, Saurer et el., (2026) identificaram os sintomas específicos da COVID longa e a sua evolução em profissionais de saúde por até quatro anos após a infecção pela cepa ancestral. Adicionalmente, compararam a sintomatologia dos indivíduos com e sem COVID longa subjetiva, avaliaram as mudanças na autopercepção da doença e as limitações associadas nas atividades da vida diária ao longo do tempo.
O desenho metodológico do estudo baseou-se em uma coorte longitudinal e multicêntrica iniciada em 2022, englobando profissionais de saúde de 14 instituições situadas na Suíça. Foram elegíveis trabalhadores com idade igual ou superior a 16 anos, atuando em qualquer tipo de função na instituição de saúde, com ou sem contato direto com pacientes. A triagem inicial ocorreu entre maio e junho de 2022, período no qual realizaram-se testes sorológicos para detecção de anticorpos contra as proteínas Spike (anti-S) e do Nucleocapsídeo (anti-N) do vírus por meio de ensaio de eletroquimioluminescência, visando identificar infecções assintomáticas prévias. A coleta de dados da linha de base ocorreu em setembro de 2022 através de questionário eletrônico detalhado que abordou aspectos de saúde pessoal, exposição ocupacional e não ocupacional, histórico de infecção por SARS-CoV-2 e dados vacinais. Posteriormente, foram aplicados questionários de acompanhamento semestrais, nos quais os participantes reportavam a presença e a duração de sintomas crônicos compatíveis com a COVID longa, além de indicarem a percepção subjetiva de cura ou persistência das manifestações e atualizarem seu status de reinfecção e vacinação.
A caracterização dos sintomas foi feita a partir de uma lista de 24 manifestações crônicas com duração superior a sete dias e início posterior ao começo da pandemia. Para os participantes com COVID longa autodeclarada, o grau de limitação funcional foi mensurado por meio da escala de Status Funcional Pós-COVID (PCFS), variando de 0 (sem limitações) a 4 (limitações graves com necessidade de assistência nas atividades de vida diária).
A modelagem estatística envolveu análises transversais e longitudinais. Na primeira, as características clínicas e demográficas dos infectados por aSCV2 foram comparadas às do grupo controle. No acompanhamento longitudinal dos participantes infectados que apresentavam pelo menos um sintoma, aplicou-se a regressão binomial negativa de efeitos mistos para modelar o impacto do tempo no número de sintomas reportados. Paralelamente, utilizou-se a regressão logística de efeitos mistos para avaliar a evolução da prevalência dos três sintomas mais frequentes (fadiga, névoa cerebral e alteração de olfato/paladar) ao longo do tempo.
No total, 1.027 participantes foram incluídos, com uma idade mediana de 44 anos e predomínio expressivo de participantes do sexo feminino (80,6%). Desse, 456 (44,4%) haviam sido infectados pela cepa ancestral do SARS-CoV-2 (aSCV2) e 571 (55,6%) integraram o grupo controle. Na comparação de características demográficas, os profissionais de saúde infectados eram estatisticamente mais jovens do que os controles (idade mediana de 41 vs. 47 anos), atuavam com maior frequência na área de enfermagem (59,4% vs. 37,5%), conviviam mais com crianças de até 6 anos de idade no ambiente doméstico (13,6% vs. 9,3%) e exibiam uma prevalência significativamente menor de tabagismo ativo (13,6% vs. 21,4%). No que tange aos tempos de acompanhamento, o intervalo mediano entre a detecção do primeiro teste positivo para SARS-CoV-2 e o questionário basal foi de 18,5 meses, estendendo-se até 47,5 meses na última avaliação de seguimento.
Na identificação de sintomas específicos da COVID longa, 13 dos 24 sintomas investigados foram significativamente mais frequentes no grupo acometido pela cepa ancestral do que no grupo controle, destacando-se a fadiga (22,8% vs. 7,4%), a perda de olfato ou paladar (11,4% vs. 0,4%) e a névoa cerebral (brain fog, 8,3% vs. 1,8%). Na avaliação do período basal, 40,8% dos indivíduos infectados relataram pelo menos um desses sintomas específicos e foram elegíveis para a análise longitudinal. Dentre esses, 37,6% apresentavam percepção subjetiva da COVID longa, ao passo que 62,4% não consideravam sofrer da condição naquele momento. Os participantes com percepção subjetiva ativa da COVID longa exibiam uma carga clínica substancialmente superior na linha de base, manifestando uma mediana de 4 sintomas em comparação a apenas 1 sintoma reportado por aqueles sem a autodeclaração da síndrome.
Ao analisar a trajetória dos sintomas crônicos específicos no acompanhamento longitudinal, o número mediano de sintomas específicos reduziu de 2 na linha de base para 0 no encerramento do estudo para a coorte total, e de 2 para 1 entre os 52 participantes com participação que participaram de todos os questionários.
Apesar dessa melhora inicial, na última pesquisa, 58,6% de todos os participantes restantes e 59,6% daqueles com dados completos continuavam relatando pelo menos um sintoma, sendo a fadiga a mais persistente, acometendo 35,7% da amostra final. Além disso, observou-se uma correlação positiva indicando que indivíduos com maior volume de sintomas no início tendiam a manter uma contagem sintomática mais elevada a longo prazo.
A modelagem de efeitos mistos de regressão binomial negativa confirmou uma redução estatisticamente significativa na quantidade de sintomas por participante no último acompanhamento. Avaliando as trajetórias individuais dos três principais sintomas, a prevalência da fadiga reduziu significativamente de 55,9% para 35,7% e a perda de olfato/paladar declinou de 28,0% para 18,6%. Por outro lado, a névoa cerebral variou de 20,4% para 14,3%.
Pela escala PCFS aplicada na linha de base, a expressiva maioria dos profissionais com COVID longa subjetiva (71,4%, n = 50) possuía limitações inexistentes ou insignificantes nas atividades diárias (PCFS 0 ou 1), quadro que se mostrou estável ao longo do tempo. Contudo, os participantes que exibiam limitações moderadas a severas (PCFS ≥ 2) demonstraram uma forte tendência de permanência do prejuízo funcional na última avaliação de seguimento.
Em suma, as sequelas pós-agudas da COVID-19 persistiram por até quatro anos após a infecção pela cepa ancestral em uma proporção substancial de profissionais de saúde, mesmo tratando-se de uma coorte predominantemente jovem e saudável. Embora ocorra um declínio geral na prevalência e no número mediano de sintomas ao longo do tempo, manifestações clínicas fundamentais como fadiga, disfunção cognitiva e alterações de olfato ou paladar continuam presentes em um subgrupo importante de indivíduos. Esse padrão de persistência sintomática crônica indicou que a recuperação clínica completa da COVID longa permanece incerta para muitos pacientes, com limitações funcionais diárias que, embora predominantemente leves para a maioria dos indivíduos acometidos pela forma subjetiva da condição, tendem a se perpetuar ao longo do tempo.
Diante desse cenário, os autores enfatizam que a COVID longa deve ser formalmente reconhecida como uma condição crônica que demanda suporte clínico e social de longo prazo. Torna-se imperativo o fomento a pesquisas científicas adicionais destinadas a elucidar os mecanismos fisiopatológicos subjacentes da síndrome, bem como a identificar marcadores diagnósticos específicos e a desenvolver tratamentos que sejam verdadeiramente efetivos.
Publicado el 12 de agosto de 2026
COVID longa
Evolução clínica da COVID longa
Estudo multicêntrico acompanhou prospectivamente profissionais de saúde infectados pela cepa ancestral do SARS-CoV-2, avaliando semestralmente a evolução de 13 sintomas específicos da COVID longa e a capacidade funcional dos participantes.
Autor/a: Saurer, P., Ballouz, T., Cusini, A. et al.
Fuente: Infection V. 54, p. 1407–1418, 2026. Persistence of Post-Acute COVID-19 Sequelae (PASC) symptoms in healthcare workers four years after ancestral SARS-CoV-2 infection: a prospective multicentre cohort
Embora a infecção aguda por SARS-CoV-2 tenha causado morbidade e mortalidade significativas, a atenção científica e clínica tem se voltado cada vez mais para os seus efeitos de longo prazo, comumente chamados de COVID longa. Esses são definidos pela presença de sintomas que persistem ou se desenvolvem pelo menos três meses após a infecção aguda, duram pelo menos dois meses e não podem ser explicados por diagnósticos alternativos. Essa condição inclui uma ampla gama de manifestações que afetam múltiplos sistemas orgânicos, sendo a fadiga, a disfunção cognitiva e os sintomas respiratórios os mais prevalentes.
As estimativas de prevalência de COVID longa variam amplamente, de 3% a 54%, a depender da definição utilizada, da população estudada, do desenho amostral e da gravidade da doença inicial, além do tempo decorrido desde a infecção, do status vacinal e da variante viral envolvida. Análises comparativas indicaram que o risco de desenvolver essas sequelas é maior após a infecção pela cepa ancestral do SARS-CoV-2 (aSCV2) e diminui progressivamente com as variantes subsequentes.
Durante o período em que a cepa ancestral foi dominante, os profissionais de saúde foram particularmente afetados pela COVID longa em razão da elevada exposição ocupacional ao vírus, apresentando taxas de prevalência visivelmente superiores às da população geral. Embora o acompanhamento da população geral aponte para um declínio na prevalência dos sintomas, especialmente durante o primeiro ano pós-infecção, uma proporção (entre 18% e 47%) continua a apresentar essas manifestações após dois anos.
Com o intuito de orientar a assistência clínica pós-COVID-19 e as estratégias de saúde ocupacional, Saurer et el., (2026) identificaram os sintomas específicos da COVID longa e a sua evolução em profissionais de saúde por até quatro anos após a infecção pela cepa ancestral. Adicionalmente, compararam a sintomatologia dos indivíduos com e sem COVID longa subjetiva, avaliaram as mudanças na autopercepção da doença e as limitações associadas nas atividades da vida diária ao longo do tempo.
O desenho metodológico do estudo baseou-se em uma coorte longitudinal e multicêntrica iniciada em 2022, englobando profissionais de saúde de 14 instituições situadas na Suíça. Foram elegíveis trabalhadores com idade igual ou superior a 16 anos, atuando em qualquer tipo de função na instituição de saúde, com ou sem contato direto com pacientes. A triagem inicial ocorreu entre maio e junho de 2022, período no qual realizaram-se testes sorológicos para detecção de anticorpos contra as proteínas Spike (anti-S) e do Nucleocapsídeo (anti-N) do vírus por meio de ensaio de eletroquimioluminescência, visando identificar infecções assintomáticas prévias. A coleta de dados da linha de base ocorreu em setembro de 2022 através de questionário eletrônico detalhado que abordou aspectos de saúde pessoal, exposição ocupacional e não ocupacional, histórico de infecção por SARS-CoV-2 e dados vacinais. Posteriormente, foram aplicados questionários de acompanhamento semestrais, nos quais os participantes reportavam a presença e a duração de sintomas crônicos compatíveis com a COVID longa, além de indicarem a percepção subjetiva de cura ou persistência das manifestações e atualizarem seu status de reinfecção e vacinação.
A caracterização dos sintomas foi feita a partir de uma lista de 24 manifestações crônicas com duração superior a sete dias e início posterior ao começo da pandemia. Para os participantes com COVID longa autodeclarada, o grau de limitação funcional foi mensurado por meio da escala de Status Funcional Pós-COVID (PCFS), variando de 0 (sem limitações) a 4 (limitações graves com necessidade de assistência nas atividades de vida diária).
A modelagem estatística envolveu análises transversais e longitudinais. Na primeira, as características clínicas e demográficas dos infectados por aSCV2 foram comparadas às do grupo controle. No acompanhamento longitudinal dos participantes infectados que apresentavam pelo menos um sintoma, aplicou-se a regressão binomial negativa de efeitos mistos para modelar o impacto do tempo no número de sintomas reportados. Paralelamente, utilizou-se a regressão logística de efeitos mistos para avaliar a evolução da prevalência dos três sintomas mais frequentes (fadiga, névoa cerebral e alteração de olfato/paladar) ao longo do tempo.
No total, 1.027 participantes foram incluídos, com uma idade mediana de 44 anos e predomínio expressivo de participantes do sexo feminino (80,6%). Desse, 456 (44,4%) haviam sido infectados pela cepa ancestral do SARS-CoV-2 (aSCV2) e 571 (55,6%) integraram o grupo controle. Na comparação de características demográficas, os profissionais de saúde infectados eram estatisticamente mais jovens do que os controles (idade mediana de 41 vs. 47 anos), atuavam com maior frequência na área de enfermagem (59,4% vs. 37,5%), conviviam mais com crianças de até 6 anos de idade no ambiente doméstico (13,6% vs. 9,3%) e exibiam uma prevalência significativamente menor de tabagismo ativo (13,6% vs. 21,4%). No que tange aos tempos de acompanhamento, o intervalo mediano entre a detecção do primeiro teste positivo para SARS-CoV-2 e o questionário basal foi de 18,5 meses, estendendo-se até 47,5 meses na última avaliação de seguimento.
Na identificação de sintomas específicos da COVID longa, 13 dos 24 sintomas investigados foram significativamente mais frequentes no grupo acometido pela cepa ancestral do que no grupo controle, destacando-se a fadiga (22,8% vs. 7,4%), a perda de olfato ou paladar (11,4% vs. 0,4%) e a névoa cerebral (brain fog, 8,3% vs. 1,8%). Na avaliação do período basal, 40,8% dos indivíduos infectados relataram pelo menos um desses sintomas específicos e foram elegíveis para a análise longitudinal. Dentre esses, 37,6% apresentavam percepção subjetiva da COVID longa, ao passo que 62,4% não consideravam sofrer da condição naquele momento. Os participantes com percepção subjetiva ativa da COVID longa exibiam uma carga clínica substancialmente superior na linha de base, manifestando uma mediana de 4 sintomas em comparação a apenas 1 sintoma reportado por aqueles sem a autodeclaração da síndrome.
Ao analisar a trajetória dos sintomas crônicos específicos no acompanhamento longitudinal, o número mediano de sintomas específicos reduziu de 2 na linha de base para 0 no encerramento do estudo para a coorte total, e de 2 para 1 entre os 52 participantes com participação que participaram de todos os questionários.
Apesar dessa melhora inicial, na última pesquisa, 58,6% de todos os participantes restantes e 59,6% daqueles com dados completos continuavam relatando pelo menos um sintoma, sendo a fadiga a mais persistente, acometendo 35,7% da amostra final. Além disso, observou-se uma correlação positiva indicando que indivíduos com maior volume de sintomas no início tendiam a manter uma contagem sintomática mais elevada a longo prazo.
A modelagem de efeitos mistos de regressão binomial negativa confirmou uma redução estatisticamente significativa na quantidade de sintomas por participante no último acompanhamento. Avaliando as trajetórias individuais dos três principais sintomas, a prevalência da fadiga reduziu significativamente de 55,9% para 35,7% e a perda de olfato/paladar declinou de 28,0% para 18,6%. Por outro lado, a névoa cerebral variou de 20,4% para 14,3%.
Pela escala PCFS aplicada na linha de base, a expressiva maioria dos profissionais com COVID longa subjetiva (71,4%, n = 50) possuía limitações inexistentes ou insignificantes nas atividades diárias (PCFS 0 ou 1), quadro que se mostrou estável ao longo do tempo. Contudo, os participantes que exibiam limitações moderadas a severas (PCFS ≥ 2) demonstraram uma forte tendência de permanência do prejuízo funcional na última avaliação de seguimento.
Em suma, as sequelas pós-agudas da COVID-19 persistiram por até quatro anos após a infecção pela cepa ancestral em uma proporção substancial de profissionais de saúde, mesmo tratando-se de uma coorte predominantemente jovem e saudável. Embora ocorra um declínio geral na prevalência e no número mediano de sintomas ao longo do tempo, manifestações clínicas fundamentais como fadiga, disfunção cognitiva e alterações de olfato ou paladar continuam presentes em um subgrupo importante de indivíduos. Esse padrão de persistência sintomática crônica indicou que a recuperação clínica completa da COVID longa permanece incerta para muitos pacientes, com limitações funcionais diárias que, embora predominantemente leves para a maioria dos indivíduos acometidos pela forma subjetiva da condição, tendem a se perpetuar ao longo do tempo.
Diante desse cenário, os autores enfatizam que a COVID longa deve ser formalmente reconhecida como uma condição crônica que demanda suporte clínico e social de longo prazo. Torna-se imperativo o fomento a pesquisas científicas adicionais destinadas a elucidar os mecanismos fisiopatológicos subjacentes da síndrome, bem como a identificar marcadores diagnósticos específicos e a desenvolver tratamentos que sejam verdadeiramente efetivos.