Dois estudos clínicos, com participação do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, trouxeram novas evidências sobre o tratamento da insuficiência cardíaca causada pela doença de Chagas. Publicadas nas revistas JAMA e Journal of the American College of Cardiology (JACC), as pesquisas avaliaram o uso do sacubitril/valsartana, terapia moderna já utilizada em outras formas de insuficiência cardíaca.
A doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, afeta milhões de pessoas e pode levar a complicações cardíacas graves em 30% a 40% dos pacientes infectados. Apesar disso, essa população historicamente foi pouco representada nos grandes ensaios clínicos que fundamentam as diretrizes terapêuticas atuais.
O estudo internacional Parachute-HF acompanhou 922 pacientes em 83 centros de pesquisa da América Latina e comparou o sacubitril/valsartana com o tratamento convencional à base de enalapril. Os resultados mostraram que ambos os medicamentos apresentaram segurança semelhante e desempenho comparável na prevenção de morte cardiovascular e hospitalizações por insuficiência cardíaca.
Entretanto, os pacientes tratados com sacubitril/valsartana apresentaram redução significativamente maior dos níveis de NT-proBNP, biomarcador associado ao estresse cardíaco. Após 12 semanas, a queda foi de 30,6% no grupo do medicamento mais moderno, contra 5,5% entre os pacientes que receberam enalapril.
Já o estudo brasileiro Answer-HF, conduzido integralmente pelo InCor ao longo de sete anos, avaliou 190 pacientes em um ensaio clínico duplo-cego. Os resultados reforçaram os achados do Parachute-HF, demonstrando que o sacubitril/valsartana reduz de forma mais expressiva os marcadores de sobrecarga cardíaca, mantendo perfil de segurança adequado.
Segundo os pesquisadores, os estudos representam um avanço importante para uma população frequentemente excluída de pesquisas cardiovasculares de grande porte. Além de fornecer dados específicos para pacientes com cardiomiopatia chagásica, os trabalhos reforçam o papel da ciência brasileira na produção de evidências voltadas para doenças negligenciadas.