O aumento expressivo das taxas de obesidade e sobrepeso na população pediátrica tem colocado a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) como a principal causa de hepatopatia crônica em crianças. Paralelamente, estudos em adultos demonstram que indivíduos obesos — com ou sem MASLD — apresentam maior prevalência de supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO). Além disso, pacientes com doença hepática frequentemente exibem aumento da permeabilidade intestinal, o que favorece a translocação bacteriana e está associado a um maior diagnóstico de SIBO. Esses achados sugerem uma interação bidirecional no eixo intestino-fígado, cuja compreensão é essencial para a abordagem clínica de crianças com risco metabólico.
Pacientes diagnosticados com MASLD apresentam alterações significativas na microbiota intestinal, particularmente nas bactérias Gram-negativas típicas do SIBO. Esse supercrescimento leva a uma redução na diversidade bacteriana e à produção de moléculas pró-inflamatórias, como lipopolissacarídeos, etanol e trimetilamina. Essas, por sua vez, atingem os hepatócitos através da veia porta, podendo intensificar a inflamação, a esteatose hepática e a fibrose, acelerando potencialmente a progressão da MASLD.
Como os dados entre SIBO e MASLD são escassos na pediatria, Belei e colaboradores (2025) investigaram a prevalência da doença hepática entre crianças com sobrepeso e obesas com e sem SIBO e avaliaram se a disbiose intestinal representaria um fator de risco para a hepatopatia.
No total, 125 crianças com sobrepeso e obesas com idade entre 10 e 18 anos e 120 controles foram inscritos. O SIBO foi avaliado pelo teste de hidrogênio expirado com glicose, enquanto a MASLD a partir de exames de imagem abdominal e achados laboratoriais.
Dentre as crianças com obesidade ou sobrepeso, 37,6% apresentaram disbiose intestinal e 62,4% foram negativas para SIBO. Apenas 3,3% controles foram positivas para o supercrescimento bacteriano. A MASLD foi detectada em 59,5% do grupo obeso positivo para SIBO, em comparação com 10,2% do mesmo grupo, mas sem SIBO. Ademais, nenhuma do grupo controle apresentou resultado positivo a MASLD. Crianças do grupo obeso positivo para SIBO tiveram taxas mais elevadas de níveis elevados de aminotransferases: aspartato aminotransferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT) e eram mais propensas a terem diagnóstico de hipertensão e síndrome metabólica.
Em conclusão, crianças com obesidade ou sobrepeso que apresentam supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) demonstram um risco aumentado para o desenvolvimento de MASLD. Essa associação reforça a importância do eixo intestino-fígado na fisiopatologia da doença hepática pediátrica. Nesse contexto, intervenções nutricionais direcionadas à modulação da microbiota intestinal surgem como estratégias promissoras para prevenir ou atenuar a progressão da MASLD em populações pediátricas de risco.