| Introdução |
Ao longo dos anos, o padrão de apresentação da doença celíaca (DC) no diagnóstico em crianças mudou, tanto em relação aos sintomas quanto às características clínicas. No passado, a apresentação clássica era a de uma criança pequena com falha de crescimento, diarreia e má absorção. Atualmente, as crianças são mais velhas com sintomas extraintestinais ou assintomáticas e com peso normal ou excessivo. Com relação específica ao status do índice de massa corporal (IMC), tem sido relatado um aumento de indivíduos com sobrepeso e obesidade, junto com uma redução daqueles com baixo peso no diagnóstico.
Como não existem estudos que detalhem como a apresentação clínica dos pacientes pediátricos com DC mudou, Monzani e colaboradores (2024) realizaram um estudo retrospectivo para analisar essa questão.
| Métodos |
Realizaram um estudo retrospectivo de centro único. Recrutaram crianças e adolescentes de 0 a 18 anos com diagnóstico de doença celíaca na Clínica Ambulatorial de Gastroenterologia Pediátrica do Hospital Universitário Maggiore Della Carità em Novara, Piemonte, Itália, no período de 1990–2011 e as compararam com as diagnosticadas em 2012–2022.
Coletaram características demográficas (sexo e idade no diagnóstico) e dados antropométricos (altura, peso e IMC). O IMC foi caracterizado de acordo com os pontos de corto da International Obesity Task Force: baixo (BW, IMC < 3º percentil), normal (PN, IMC 3º-75º percentil), sobrepeso (SP, IMC 75º-95º percentil) e obesidade (OB, IMC > 95º percentil). Ademais, características clínicas, como dor abdominal recorrente, diarreia, constipação, falha de crescimento, anemia, fadiga, dor de cabeça, dermatite herpetiforme, e outros sintomas, foram coletadas. O histórico familiar e dados sorológicos (título máximo de anticorpos IgA anti-transglutaminase (TGA-A)) foram obtidos.
Comparações dos dados demográficos, clínicos e sorológicos foram feitas entre os sujeitos com baixo peso e sobrepeso/obesidade nas coortes histórica e recente.
| Resultados |
A coorte de 1990-2011 incluiu 250 participantes, com idade média de 7,3 anos e a de 2012-2022 243 sujeitos com idade média de 7,1 anos. A prevalência de baixo peso foi significativamente maior na coorte de 1990–2011 (24,4% em 1990-2011 vs. 12,7% em 2012-2022). A de indivíduos com peso normal foi semelhante nas duas coortes (71,2% em 1990–2011 vs. 74,1% em 2012–2022) e a de sobrepeso e obesidade foi significativamente maior em 2012-2022 (9,9% vs. 4% e 3,3% vs. 0,4% em 2012-2022 vs. 1999-2011, respectivamente).
Na coorte de 1999-2011, todas as crianças realizaram endoscopia para diagnóstico de DC, enquanto na de 2012–2022, uma abordagem sem biópsia foi relatada em 58,4% dos novos diagnósticos. Tanto na coorte de 1990–2011 quanto na de 2012–2022, o aumento do TGA-A foi semelhante entre as crianças, independentemente do nível de IMC.
Em relação aos sintomas apresentados, os gastrointestinais (dor abdominal, diarreia e constipação), considerados em conjunto, foram significativamente mais frequentes em crianças com sobrepeso e obesidade, independentemente da coorte. Entre os mais relatados, em 1990–2011, as crianças com sobrepeso e obesidade apresentavam mais frequentemente constipação, enquanto em 2012–2022, dor abdominal. Em ambas as coortes, a falha de crescimento foi o sintoma mais frequente entre os sujeitos com baixo peso.
A prevalência de histórico familiar positivo para DC não foi significativamente diferente entre as diferentes classes de IMC em ambas as coortes. A frequência de condições relacionadas à DC, como tireoidite autoimune, diabetes tipo 1 e síndrome de Down ou Turner, foi maior em crianças com sobrepeso e obesidade do que em crianças com baixo peso em 1990–2011, mas semelhante em 2012–2022.
| Discussão |
Na coorte, foram observadas uma mudança substancial no fenótipo de crianças recém-diagnosticadas com DC ao longo do tempo: a prevalência de baixo peso diminuiu pela metade, a de sobrepeso mais que dobrou e a de obesidade se tornou três vezes maior.
Várias hipóteses foram formuladas para explicar a associação entre doença celíaca e sobrepeso/obesidade, sendo a principal a "compensatória". Segundo essa, a porção distal do intestino passa por mudanças morfológicas, incluindo aumento na altura das vilosidades, elongação das criptas e aumento no número de enterócitos, para compensar a má absorção no duodeno atrófico. Isso pode aumentar a absorção na parte funcionalmente preservada do intestino e, se o processo levar à supercompensação, pode resultar em maior ingestão de energia do que as necessidades do paciente, aumentando assim o risco de sobrepeso/obesidade. A superfície intestinal que passa por esse processo tende a aumentar com a idade do paciente, o que explica a distribuição etária dos sintomas no diagnóstico da doença celíaca: pacientes com menos de 2 anos frequentemente apresentam manifestações clássicas, ao contrário dos mais velhos, que geralmente relatam sintomas atípicos, incluindo aumento do IMC.
Outro fator potencialmente responsável pelo aumento no número de pacientes celíacos com alto IMC no diagnóstico é o aumento mundial na prevalência de sobrepeso/obesidade observado ao redor do mundo.
| Conclusão |
O estudo revelou uma mudança significativa no perfil clínico de crianças com doença celíaca ao longo das últimas três décadas. A prevalência de baixo peso diminuiu, enquanto o número de crianças com sobrepeso e obesidade aumentou consideravelmente. Assim, é crucial que a suspeita de doença celíaca seja considerada independentemente do status de IMC da criança, para evitar diagnósticos tardios e garantir um manejo adequado da condição.