O estabelecimento e a evolução da microbiota intestinal infantil desempenham um papel crucial no desenvolvimento imunológico inicial e nos desfechos de saúde subsequentes ao longo da vida. Durante o início da vida, o ecossistema intestinal faz a transição de um ambiente amplamente desabitado para uma comunidade microbiana altamente complexa, moldada por interações dinâmicas entre o hospedeiro e fatores ambientais. No entanto, a compreensão integrada de como as exposições pré, peri e pós-natais atuam em conjunto ao longo do tempo ainda é limitada, especialmente no que tange ao papel das exposições maternas e da microbiota da gestante na configuração dos organismos microbianos do lactente. Para preencher essas lacunas, Sinha et al., (2026) analisaram a microbiota de 714 pares de mães e bebês pertencentes à coorte de nascimento holandesa Lifelines NEXT (LLNEXT), realizando uma análise longitudinal que integrou dados metagenômicos com centenas de variáveis clínicas e de exposição.
No âmbito do projeto LLNEXT, os pesquisadores caracterizaram de forma longitudinal as microbiotas intestinais por meio do sequenciamento metagenômico de 1.587 amostras fecais maternas e 2.939 amostras fecais infantis, coletadas ao longo de dez momentos distintos. Adicionalmente, em subgrupos de mães, realizou-se o sequenciamento metagenômico ultraprofundo do microbioma vaginal próximo ao parto (82 amostras) e do microbioma do leite materno no primeiro mês pós-parto (90 amostras), além da quantificação de 24 oligossacarídeos do leite humano (HMOs) em 586 amostras de leite materno coletadas nos primeiros três meses pós-parto.
A caracterização descritiva da coorte revelou que a idade média das mães ao parto era de 32 anos, sendo que 45,1% eram primíparas. A maioria dos bebês nasceu a termo (92,7%), com 84,8% por parto vaginal e 22,5% em partos domiciliares. Em relação à alimentação, 83,8% dos lactentes receberam aleitamento materno ao nascimento, taxa que reduziu para 49,7% aos três meses e para 18,4% aos doze meses de idade.
Ao avaliar a microbiota intestinal materna desde a 12ª semana gestacional (P12) até o terceiro mês de pós-parto (incluindo coletas na 28ª semana e no parto), o estudo constatou que a diversidade alfa permaneceu estável ao longo do tempo, sem flutuações estatisticamente significativas entre os períodos gestacional e puerperal. No entanto, observaram-se mudanças sutis, mas significativas, na composição global do microbioma gestacional e pós-parto ao longo do tempo, com 111 espécies bacterianas exibindo variações temporais relevantes. Um exemplo marcante é o aumento progressivo da abundância de Bifidobacterium longum durante a gestação, seguido por um leve declínio aos três meses de pós-parto, padrão que corrobora achados prévios que correlacionam o aumento dos níveis de progesterona gestacional ao estímulo de crescimento de bifidobactérias.
A microbiota intestinal do lactente, por sua vez, demonstrou alta dinamicidade ao longo do primeiro ano de vida, avaliado em sete momentos específicos (2 semanas, 1, 2, 3, 6, 9 e 12 meses de idade). A diversidade alfa aumentou de forma acentuada e progressiva com a idade, e a composição global da comunidade microbiana apresentou uma forte associação com o tempo (R² global = 7,78%, P < 1 × 10⁻⁴). Na segunda semana de vida, o ecossistema intestinal do recém-nascido era dominado por espécies de Bifidobacterium, Escherichia coli, táxons cutâneos comensais (como Staphylococcus epidermidis) e bactérias orais (como Streptococcus salivarius e Veillonella dispar). Com o avançar dos meses, a abundância desses colonizadores pioneiros de origem cutânea e oral regrediu de forma acentuada, ao passo que as espécies de Bifidobacterium proliferaram, atingindo a abundância máxima aos seis meses. Próximo aos doze meses, ocorreu uma transição funcional e taxonômica marcante com o surgimento e a expansão de bactérias anaeróbias estritas características da microbiota adulta e especializadas na fermentação de carboidratos complexos, com destaque para Ruminococcus gnavus e Faecalibacterium prausnitzii.
Para determinar se esse processo de colonização inicial seguia um padrão determinístico, os pesquisadores analisaram as amostras obtidas às duas semanas de vida dos bebês. A análise de agrupamento identificou oito perfis comunitários distintos (clusters) nesse período. Entre esses, os clusters 1, 2, 3, 4 e 7 eram fortemente dominados por um único táxon prevalente, sendo eles respectivamente: E. coli, Bifidobacterium bifidum, B. longum, B. breve ou Bacteroides fragilis. Notavelmente, a composição da microbiota materna pré-natal não serviu como um preditor acurado do perfil comunitário do bebê às duas semanas de vida, e a classificação do lactente em um cluster específico nessa idade precoce também não foi capaz de prever as comunidades de bactérias subsequentes aos 6, 9 ou 12 meses de idade. Tais achados sugeriram que a maturação da microbiota intestinal do lactente segue uma trajetória não-determinística.
Por fim, o estudo realizou comparações intra e interindividuais para mapear os padrões de similaridade microbiana. Verificou-se que os lactentes apresentaram menor variabilidade intra e interindividual quando comparados aos adultos (mães). A microbiota intestinal do lactente mostrou-se significativamente mais semelhante dentro de um mesmo indivíduo ao longo do tempo e entre indivíduos com parentesco biológico (gêmeos e irmãos) do que em relação a controles não aparentados. De igual modo, amostras longitudinais coletadas de uma mesma mãe (durante a gravidez e aos 3 meses de pós-parto) mantiveram uma assinatura altamente estável e mais similar entre si do que com indivíduos não relacionados. Entre as 18 mães que forneceram amostras ao longo de duas gestações distintas durante o estudo, a variabilidade intraindividual entre as gestações subsequentes foi maior do que a distância observada dentro de uma única gravidez, mas manteve-se significativamente menor do que as distâncias interindividuais de sujeitos sem correlação familiar, ressaltando o caráter personalizado e a persistência de longo prazo da microbiota.
Para compreender os fatores que impulsionam a variação temporal da microbiota intestinal infantil durante o primeiro ano de vida, os pesquisadores realizaram uma análise fatorial que dividiu a microbiota em três fatores dependentes do tempo. Excluindo os efeitos puramente temporais e técnicos, a via de parto emergiu como a variável biológica mais robusta associada a esses fatores. O nascimento por via vaginal mostrou-se associado a valores positivos no fator 1 e negativos no fator 2, ao passo que o nascimento por cesárea apresentou o padrão inverso. As espécies bacterianas que mais contribuíram positivamente para o fator 1 (característico do parto vaginal) foram Bacteroides uniformis, Phocaeicola vulgatus e Parabacteroides distasonis.
Adicionalmente, o estudo constatou que a diversidade alfa da microbiota do lactente foi significativamente influenciada pela via de nascimento. Bebês nascidos por parto vaginal apresentaram uma diversidade alfa significativamente maior no início da vida em comparação com os nascidos por cesárea. O impacto do modo de parto também se refletiu de forma marcante na abundância de táxons específicos ao longo do tempo. Os lactentes nascidos por cesárea exibiram uma acentuada depleção de espécies do gênero Bacteroides até o terceiro mês de vida. Em contrapartida, os bebês nascidos por parto vaginal apresentaram uma colonização bimodal de Bacteroides, sendo que as diferenças na abundância desse gênero entre os dois grupos de parto persistiram de forma perceptível até os 12 meses de idade.
Essas diferenças de composição também se traduziram em variações funcionais: os bebês nascidos de parto vaginal mostraram-se enriquecidos em enzimas ativas em carboidratos (CAZymes) envolvidas no metabolismo de polissacarídeos não amiláceos, enquanto o grupo de cesárea apresentou enriquecimento em CAZymes voltadas à metabolização do amido.
A grande representação de partos vaginais na coorte (84,8% do total, correspondendo a 585 bebês) permitiu aos autores investigar de forma detalhada o papel de variáveis específicas do ambiente de nascimento. Entre esses partos vaginais, 155 ocorreram em ambiente doméstico (22,5% do total da coorte). A análise revelou que o parto domiciliar apresentou uma associação apenas moderada com a composição geral da microbiota intestinal do bebê, com um efeito muito menor do que a via de parto em si e comparável a outras variáveis clínicas do nascimento. No entanto, foram observadas reduções nominalmente significativas na abundância de espécies importantes de Bacteroides (especialmente B. uniformis e Bacteroides xylanisolvens) nos bebês nascidos por parto vaginal em ambiente hospitalar quando comparados àqueles nascidos em casa.
Análises detalhadas revelaram que o atraso na colonização por Bacteroides em partos vaginais não decorre de um fator isolado, mas sim de múltiplos aspectos associados a trabalhos de parto prolongados ou complicados. Fatores como a maior duração do trabalho de parto, o uso materno de analgésicos e anestésicos (como opioides) e um tempo prolongado de bolsa rota correlacionaram-se de forma consistente com a redução na abundância de diversas espécies de Bacteroides. Outras associações taxonômicas específicas incluíram o aumento da abundância de Veillonella parvula em casos de trabalho de parto prolongado e de Enterococcus casseliflavus quando houve uso de analgesia epidural. A bolsa rota também demonstrou associação nominal com o aumento de Veillonella atypica e Klebsiella pneumoniae. Por fim, o nascimento em ambiente hospitalar foi associado a uma menor abundância de Sutterella wadsworthensis. Esses achados sugeriram que as perturbações na microbiota pioneira do lactente refletem o estresse fisiológico e as intervenções clínicas típicas de partos complexos no ambiente hospitalar.
A alimentação do lactente exerceu um impacto profundo na estruturação e no desenvolvimento funcional da microbiota intestinal ao longo do primeiro ano de vida. Ao avaliarem os efeitos individuais da alimentação imediatamente após o nascimento, os padrões alimentares longitudinais e o histórico de aleitamento, os pesquisadores observaram que o perfil bacteriano de bebês que receberam fórmula infantil logo ao nascer assemelhava-se de forma muito estreita ao daqueles que foram alimentados exclusivamente com fórmula até os 12 meses de idade ou que nunca foram amamentados.
Para investigar se componentes bioativos específicos do leite materno participavam diretamente dessas associações, o estudo analisou 24 oligossacarídeos do leite humano (HMOs) em uma subcoorte de 277 lactentes em aleitamento materno exclusivo nos primeiros três meses de vida. Constatou-se que os filhos de mães não-secretoras apresentavam uma menor diversidade de Shannon no microbioma intestinal, embora essa análise específica tenha sido limitada pelo pequeno tamanho amostral (9 amostras provenientes de 3 mães). Nesse mesmo grupo, houve um aumento nominal na abundância de Clostridium perfringens. Apesar dessas observações, não foram identificadas associações estatisticamente significativas entre os HMOs individuais mensurados e a diversidade, espécies ou vias metabólicas do microbioma do lactente.
Uma das contribuições mais inovadoras nesse tópico foi a avaliação do potencial neuroativo microbiano, mensurado por meio da abundância estimada de módulos intestino-cérebro (GBMs). Foram identificadas 125 associações significativas, a maior parte delas estreitamente ligada ao tipo de alimentação do lactente. Entre os achados mais expressivos, os lactentes alimentados com fórmula apresentaram uma redução marcante na via de degradação do ácido quinolínico, ao passo que a via de síntese de acetato I mostrou-se significativamente enriquecida nos bebês amamentados. Essas discrepâncias metabólicas funcionais ressaltaram como as práticas alimentares precoces podem modular diretamente a produção de compostos neuroativos mediados pela microbiota intestinal infantojuvenil.
Com a introdução de alimentos complementares e a transição para a dieta sólida aos 6, 9 e 12 meses de idade, novos padrões de associação da microbiota emergiram. Os alimentos foram catalogados em 18 categorias aos 6 meses e em 21 categorias aos 9 e 12 meses, revelando que a maioria dos grupos alimentares (71,4%) exibia correlações com a microbiota do bebê. No entanto, após o ajuste estatístico para o tipo de aleitamento e o consumo calórico diário total (kcal/dia), apenas as categorias de laticínios, bebidas adocicadas e leguminosas mantiveram associações significativas com espécies bacterianas específicas. De forma notável, o consumo de iogurte e coalhada pelo lactente associou-se positivamente com a abundância de Streptococcus thermophilus, um padrão de colonização alimentar muito semelhante ao que é documentado em indivíduos adultos.
Diante da capacidade limitada do repertório endógeno de enzimas digestivas do lactente, o desenvolvimento do bebê apresenta uma alta dependência do metabolismo de carboidratos realizado por sua microbiota intestinal. Para compreender essa dinâmica funcional, os pesquisadores definiram os perfis de CAZymes nas microbiotas maternas e infantis. Enquanto o perfil de CAZymes materno permaneceu notavelmente estável durante toda a gestação, o do lactente mostrou-se altamente dinâmico ao longo de todo o primeiro ano de vida. No ecossistema intestinal infantil, os gêneros Bacteroides, Parabacteroides e Phocaeicola emergiram como os principais impulsionadores da variação no perfil de CAZymes. Em contrapartida, o gênero Bacteroides desempenhou um papel significativamente menos proeminente nos perfis de CAZymes intestinais das mães.
A maior parte das associações entre as CAZymes infantis e as variáveis clínicas esteve estreitamente ligada à via de parto. Esse impacto foi decorrente, sobretudo, das diferenças acentuadas na presença ou ausência dos gêneros Bacteroides, Parabacteroides e Phocaeicola entre os lactentes nascidos por parto vaginal e por cesárea. Em termos práticos de degradação de substratos, os bebês nascidos por parto vaginal apresentaram um enriquecimento de CAZymes envolvidas no metabolismo de polissacarídeos não amiláceos, enquanto aqueles nascidos por cesárea exibiram um perfil enriquecido em CAZymes voltadas à metabolização do amido.
O tipo de alimentação também atuou como um fator determinante na modulação funcional enzimática. O aleitamento materno associou-se a um enriquecimento robusto de CAZymes infantis direcionadas à metabolização de oligossacarídeos resistentes, mucina e glicanos do leite humano quando comparado à alimentação por fórmulas infantis. Além das variáveis de nascimento e dieta, o estudo identificou associações significativas entre os índices de crescimento físico do bebê e subfamílias específicas de CAZymes, mesmo após o ajuste estatístico para a via de parto e o padrão alimentar. Um achado de destaque foi a associação consistente da família de glicosídeo hidrolases GH89 com o peso, o comprimento e o perímetro cefálico do lactente.
Por fim, a transição funcional e o amadurecimento metabólico da microbiota infantil ficaram evidentes ao longo do tempo. Nos primeiros meses de vida, observou-se um enriquecimento significativo de CAZymes envolvidas na degradação de oligossacarídeos resistentes, amido, peptideoglicano, amilose/amilopectina e pululana. Já nas fases mais tardias (idade igual ou superior a 6 meses), o perfil enzimático do lactente passou a apresentar um enriquecimento expressivo de CAZymes associadas ao metabolismo de glicoproteínas, pectina e arabinogalactana. Essa transição temporal reflete a rápida maturação da capacidade funcional da microbiota intestinal na infância sob a influência direta do modo de parto e da introdução alimentar.
Um dos achados mais clinicamente relevantes e inovadores do estudo foi a demonstração de que a microbiota intestinal materna atuou como um preditor significativo para o desenvolvimento de eczema no lactente durante o primeiro ano de vida. Os pesquisadores observaram que a diversidade alfa materna foi significativamente menor em mulheres cujos bebês desenvolveram o diagnóstico de eczema ao longo do primeiro ano pós-parto. Para determinar se essa correlação era independente de outros fatores de risco clássicos, foi realizada uma análise de regressão logística multivariada que incluiu a diversidade de Shannon materna, o histórico de tabagismo pré-gestacional da mãe e o histórico familiar de doença alérgica. Notavelmente, apenas a diversidade alfa materna permaneceu de forma independente e significativamente associada ao desfecho de eczema infantil, enquanto as demais variáveis testadas não mantiveram relevância estatística no modelo multivariado.
A partir dessas observações, os autores desenvolveram modelos preditivos utilizando algoritmos de aprendizado de máquina (XGBoost) para avaliar a capacidade da microbiota materna coletada no momento do parto em prever a ocorrência futura de eczema no lactente. Foram testados três conjuntos de variáveis preditivas: a composição taxonômica baseada em espécies (SGBs), que obteve uma Área Sob a Curva (AUC) de 0,74; o perfil de vias metabólicas funcionais, que alcançou uma AUC de 0,73; e a diversidade alfa isolada, com uma AUC de 0,68.
Ao investigar as contribuições individuais das espécies bacterianas para o modelo taxonômico por meio de valores de Shapley additive explanations (SHAP), a bactéria Dialister invisus emergiu como a espécie de maior destaque e importância preditiva. A presença e abundância dessa espécie na microbiota materna associou-se fortemente a um menor risco de desenvolvimento de eczema no bebê. Na literatura científica, a bactéria já havia sido correlacionada anteriormente à capacidade de modular processos inflamatórios sistêmicos em resposta a uma dieta materna prudente.
Embora os mecanismos exatos subjacentes a essa associação preditiva ainda precisem ser totalmente elucidados, os autores propuseram que a microbiota intestinal materna durante a gestação pode influenciar ativamente o desenvolvimento do sistema imunológico fetal. Essa modulação ocorreria por meio de metabólitos produzidos no útero ou pela transferência direta de anticorpos e citocinas maternas influenciadas pela microbiota.
A investigação das rotas de transmissão e compartilhamento de cepas entre mães e bebês representou um dos pilares mais detalhados do estudo, utilizando sequenciamento metagenômico ultraprofundo em nichos maternos de baixa biomassa ou com alta concentração de DNA humano. Para discernir se as cepas encontradas no lactente eram idênticas às maternas, os pesquisadores analisaram 90 amostras de leite materno coletadas no primeiro mês de vida e 82 amostras vaginais colhidas próximas ao parto, integrando-as com os perfis fecais longitudinais dos pares de mães e bebês e aplicando limites de distância genética otimizados para cada espécie metagenômica.
Os resultados revelaram que o leite materno não constitui um reservatório primário para as cepas colonizadoras dominantes no intestino do lactente. Embora espécies como Staphylococcus epidermidis, Streptococcus mitis e o grupo Streptococcus salivarius tenham sido abundantes e prevalentes na microbiota do leite, ocorrendo simultaneamente no intestino do bebê em taxas de 50%, 42,2% e 38,9% dos pares, respectivamente, o compartilhamento dessas espécies no nível de cepa ocorreu apenas de forma esporádica. Por exemplo, o compartilhamento de cepas da colonizadora abundante S. epidermidis foi identificado em apenas duas famílias. Diferenças filogenéticas significativas entre cepas de pares relacionados versus não relacionados foram detectadas unicamente para Bifidobacterium breve e Enterococcus faecalis, limitando-se à transmissão em duas famílias para cada espécie. De forma semelhante, a microbiota vaginal materna mostrou-se um reservatório secundário com poucas espécies compartilhadas com o intestino infantil. Bactérias vaginais dominantes, como Lactobacillus crispatus, Lactobacillus iners e Gardnerella vaginalis, foram raramente detectadas nas fezes dos lactentes. A única exceção marcante foi a bactéria Bifidobacterium breve: em todas as cinco mães nas quais foi possível reconstruir a cepa vaginal dominante dessa espécie, a mesma cepa exata foi encontrada no intestino do respectivo bebê (sendo quatro nascidos por parto vaginal e um por cesárea pós-trabalho de parto), indicando uma transmissão vertical direta durante o nascimento, com cepas distintas sendo adquiridas posteriormente.
Em contrapartida, o intestino materno destacou-se como o reservatório principal para a colonização pioneira do bebê, demonstrando um amplo compartilhamento de cepas fecal-fecal que se revelou fortemente dependente do tempo. Ao avaliar 81 espécies bacterianas em mais de 20 pares de mães e bebês, os autores identificaram 7.345 eventos de transmissão vertical. Todas as 81 espécies analisadas registraram ao menos um evento de compartilhamento de cepa na coorte, com uma taxa média geral de compartilhamento de 33% de cepas idênticas por par mãe-bebê, em contraste com 0% entre pares não aparentados. Essa dinâmica mostrou-se altamente temporal, com a proporção de cepas compartilhadas reduzindo de uma mediana de 65% nas primeiras duas semanas e no primeiro mês de vida para 25% aos 12 meses de idade. Esse declínio longitudinal é justificado pela aquisição progressiva de novas cepas ambientais e pela transmissão horizontal decorrente de novos contatos sociais do lactente.
No nível de espécies individuais, a taxa de compartilhamento de cepas variou amplamente, indo de 2,21% em S. salivarius a 100% em Phocaeicola coprophilus. Algumas espécies, como Bacteroides clarus e Bacteroides fragilis, exibiram taxas de compartilhamento elevadas de forma persistente e independente do tempo (90,6% e 86,3%, respectivamente). Em contrapartida, espécies tipicamente adquiridas por vias externas, como Streptococcus thermophilus (associada ao consumo infantil de iogurte ou coalhada) e S. salivarius (associada à alimentação por fórmulas), foram raramente compartilhadas entre mães e bebês (4,3% e 2,2%, respectivamente). Adicionalmente, verificou-se a ocorrência de efeitos de prioridade, de modo que os bebês que compartilhavam uma cepa materna (como Phocaeicola vulgatus ou B. longum) apresentaram uma abundância significativamente maior dessas bactérias no início da vida. A probabilidade de transmissão também foi correlacionada com a abundância bacteriana no intestino da própria mãe antes do parto, observando-se que espécies altamente abundantes na microbiota materna (como Phocaeicola dorei e Bacteroides uniformis) apresentaram maiores chances de colonizar o bebê.
O estudo demonstrou também que as cepas transmitidas verticalmente no início da vida (às 2 semanas ou 1 mês) possuíram uma maior propensão à persistência de longo prazo no intestino infantil aos 9 ou 12 meses de idade, com destaque para as espécies Bifidobacterium adolescentis e Bacteroides thetaiotaomicron. Clinicamente, o aleitamento materno e o parto vaginal atuaram como os principais facilitadores desse compartilhamento: a amamentação foi significativamente associada a maiores taxas gerais de transmissão de cepas intestinais maternas em comparação ao uso de fórmula, enquanto o parto vaginal aumentou de forma robusta e específica a transmissão vertical de cepas de B. thetaiotaomicron e B. longum quando comparado ao parto por cesárea. Sob a ótica funcional, as cepas transmitidas foram significativamente enriquecidas em 121 grupos de genes ortólogos (COGs), envolvendo funções cruciais de transporte e metabolismo de carboidratos, coenzimas e potencial imunomodulador, como a acetilação de lipopolissacarídeos (LPS), fornecendo vantagens adaptativas para a colonização estável do intestino infantil, com a espécie P. vulgatus emergindo como a principal contribuinte para essa transmissão de funções metabólicas.
A variação genética intraespecífica tem sido progressivamente associada a desfechos de saúde em populações adultas, mas o seu comportamento e o seu papel ecológico no início da vida dos lactentes ainda eram pouco compreendidos. Para avançar nessa compreensão, os pesquisadores avaliaram a variação filogenética intraespecífica infantil em relação à idade cronológica do bebê e a uma ampla gama de preditores ambientais e clínicos.
A análise revelou que a variação filogenética em 19 espécies bacterianas (FDR < 0,05) apresentou uma associação altamente significativa com a idade do lactente. Em várias dessas filogenias, observou-se uma separação clara e bem-definida entre as cepas colonizadoras de fases precoces (de bebês com 2 semanas a 3 meses de vida) e aquelas encontradas em fases mais tardias (de lactentes com 6 a 12 meses de idade). Um dos exemplos mais evidentes dessa diferenciação temporal ocorreu na filogenia de Streptococcus thermophilus. A variação filogenética dessa espécie foi fortemente impulsionada pela introdução de iogurte e coalhada na dieta infantil a partir do nono mês. Constatou-se que os bebês que consumiam esses alimentos adquiriam linhagens genéticas pertencentes a um clado filogenético estreito e específico. Essa especificidade em nível de cepa alinhou-se de forma direta com as correlações macroscópicas observadas no estudo entre a abundância geral e a prevalência de S. thermophilus e a frequência do consumo desses derivados lácteos aos 9 e 12 meses de idade.
Além da idade e da introdução alimentar básica, o estudo investigou as associações de outros preditores com as filogenias bacterianas, aplicando modelos estatísticos ajustados para o momento da coleta. Dentre as 6.831 associações avaliadas, 18 mostraram-se estatisticamente significativas. Entre essas, identificou-se que o modo de alimentação do lactente esteve associado à variação filogenética da espécie Prevotella copri clado A (SGB1626). Outro achado foi a associação da variação filogenética de duas espécies altamente prevalentes no ecossistema intestinal infantil, Veillonella dispar (SGB6952) e Ruminococcus gnavus (SGB4584), com a paridade materna (que funciona como um indicador indireto da presença de irmãos no ambiente familiar). Em conjunto, esses resultados sugeriram que fatores como a via de aleitamento, a composição da dieta e a estrutura familiar influenciam a microbiota do bebê de maneira muito mais refinada do que se supunha, moldando o ecossistema intestinal do lactente não apenas na abundância de espécies, mas também diretamente no nível de linhagens genéticas específicas.
Publicado el 27 de agosto de 2026
Microbiota materna
Do parto à alimentação: a dinâmica da microbiota intestinal do bebê no primeiro ano de vida
Compreenda a dinâmica do microbioma infantil na coorte Lifelines NEXT. Veja como o intestino materno coloniza o bebê, o papel da via de parto e a predição do eczema infantil.
Autor/a: Sinha, T., Brushett, S., Fernández-Pato, A. et al.
Fuente: Nature (2026). https://doi.org/10.1038/s41586-026-10922-9 Maternal influences on infant gut microbiome and health.
O estabelecimento e a evolução da microbiota intestinal infantil desempenham um papel crucial no desenvolvimento imunológico inicial e nos desfechos de saúde subsequentes ao longo da vida. Durante o início da vida, o ecossistema intestinal faz a transição de um ambiente amplamente desabitado para uma comunidade microbiana altamente complexa, moldada por interações dinâmicas entre o hospedeiro e fatores ambientais. No entanto, a compreensão integrada de como as exposições pré, peri e pós-natais atuam em conjunto ao longo do tempo ainda é limitada, especialmente no que tange ao papel das exposições maternas e da microbiota da gestante na configuração dos organismos microbianos do lactente. Para preencher essas lacunas, Sinha et al., (2026) analisaram a microbiota de 714 pares de mães e bebês pertencentes à coorte de nascimento holandesa Lifelines NEXT (LLNEXT), realizando uma análise longitudinal que integrou dados metagenômicos com centenas de variáveis clínicas e de exposição.
No âmbito do projeto LLNEXT, os pesquisadores caracterizaram de forma longitudinal as microbiotas intestinais por meio do sequenciamento metagenômico de 1.587 amostras fecais maternas e 2.939 amostras fecais infantis, coletadas ao longo de dez momentos distintos. Adicionalmente, em subgrupos de mães, realizou-se o sequenciamento metagenômico ultraprofundo do microbioma vaginal próximo ao parto (82 amostras) e do microbioma do leite materno no primeiro mês pós-parto (90 amostras), além da quantificação de 24 oligossacarídeos do leite humano (HMOs) em 586 amostras de leite materno coletadas nos primeiros três meses pós-parto.
A caracterização descritiva da coorte revelou que a idade média das mães ao parto era de 32 anos, sendo que 45,1% eram primíparas. A maioria dos bebês nasceu a termo (92,7%), com 84,8% por parto vaginal e 22,5% em partos domiciliares. Em relação à alimentação, 83,8% dos lactentes receberam aleitamento materno ao nascimento, taxa que reduziu para 49,7% aos três meses e para 18,4% aos doze meses de idade.
Ao avaliar a microbiota intestinal materna desde a 12ª semana gestacional (P12) até o terceiro mês de pós-parto (incluindo coletas na 28ª semana e no parto), o estudo constatou que a diversidade alfa permaneceu estável ao longo do tempo, sem flutuações estatisticamente significativas entre os períodos gestacional e puerperal. No entanto, observaram-se mudanças sutis, mas significativas, na composição global do microbioma gestacional e pós-parto ao longo do tempo, com 111 espécies bacterianas exibindo variações temporais relevantes. Um exemplo marcante é o aumento progressivo da abundância de Bifidobacterium longum durante a gestação, seguido por um leve declínio aos três meses de pós-parto, padrão que corrobora achados prévios que correlacionam o aumento dos níveis de progesterona gestacional ao estímulo de crescimento de bifidobactérias.
A microbiota intestinal do lactente, por sua vez, demonstrou alta dinamicidade ao longo do primeiro ano de vida, avaliado em sete momentos específicos (2 semanas, 1, 2, 3, 6, 9 e 12 meses de idade). A diversidade alfa aumentou de forma acentuada e progressiva com a idade, e a composição global da comunidade microbiana apresentou uma forte associação com o tempo (R² global = 7,78%, P < 1 × 10⁻⁴). Na segunda semana de vida, o ecossistema intestinal do recém-nascido era dominado por espécies de Bifidobacterium, Escherichia coli, táxons cutâneos comensais (como Staphylococcus epidermidis) e bactérias orais (como Streptococcus salivarius e Veillonella dispar). Com o avançar dos meses, a abundância desses colonizadores pioneiros de origem cutânea e oral regrediu de forma acentuada, ao passo que as espécies de Bifidobacterium proliferaram, atingindo a abundância máxima aos seis meses. Próximo aos doze meses, ocorreu uma transição funcional e taxonômica marcante com o surgimento e a expansão de bactérias anaeróbias estritas características da microbiota adulta e especializadas na fermentação de carboidratos complexos, com destaque para Ruminococcus gnavus e Faecalibacterium prausnitzii.
Para determinar se esse processo de colonização inicial seguia um padrão determinístico, os pesquisadores analisaram as amostras obtidas às duas semanas de vida dos bebês. A análise de agrupamento identificou oito perfis comunitários distintos (clusters) nesse período. Entre esses, os clusters 1, 2, 3, 4 e 7 eram fortemente dominados por um único táxon prevalente, sendo eles respectivamente: E. coli, Bifidobacterium bifidum, B. longum, B. breve ou Bacteroides fragilis. Notavelmente, a composição da microbiota materna pré-natal não serviu como um preditor acurado do perfil comunitário do bebê às duas semanas de vida, e a classificação do lactente em um cluster específico nessa idade precoce também não foi capaz de prever as comunidades de bactérias subsequentes aos 6, 9 ou 12 meses de idade. Tais achados sugeriram que a maturação da microbiota intestinal do lactente segue uma trajetória não-determinística.
Por fim, o estudo realizou comparações intra e interindividuais para mapear os padrões de similaridade microbiana. Verificou-se que os lactentes apresentaram menor variabilidade intra e interindividual quando comparados aos adultos (mães). A microbiota intestinal do lactente mostrou-se significativamente mais semelhante dentro de um mesmo indivíduo ao longo do tempo e entre indivíduos com parentesco biológico (gêmeos e irmãos) do que em relação a controles não aparentados. De igual modo, amostras longitudinais coletadas de uma mesma mãe (durante a gravidez e aos 3 meses de pós-parto) mantiveram uma assinatura altamente estável e mais similar entre si do que com indivíduos não relacionados. Entre as 18 mães que forneceram amostras ao longo de duas gestações distintas durante o estudo, a variabilidade intraindividual entre as gestações subsequentes foi maior do que a distância observada dentro de uma única gravidez, mas manteve-se significativamente menor do que as distâncias interindividuais de sujeitos sem correlação familiar, ressaltando o caráter personalizado e a persistência de longo prazo da microbiota.
Para compreender os fatores que impulsionam a variação temporal da microbiota intestinal infantil durante o primeiro ano de vida, os pesquisadores realizaram uma análise fatorial que dividiu a microbiota em três fatores dependentes do tempo. Excluindo os efeitos puramente temporais e técnicos, a via de parto emergiu como a variável biológica mais robusta associada a esses fatores. O nascimento por via vaginal mostrou-se associado a valores positivos no fator 1 e negativos no fator 2, ao passo que o nascimento por cesárea apresentou o padrão inverso. As espécies bacterianas que mais contribuíram positivamente para o fator 1 (característico do parto vaginal) foram Bacteroides uniformis, Phocaeicola vulgatus e Parabacteroides distasonis.
Adicionalmente, o estudo constatou que a diversidade alfa da microbiota do lactente foi significativamente influenciada pela via de nascimento. Bebês nascidos por parto vaginal apresentaram uma diversidade alfa significativamente maior no início da vida em comparação com os nascidos por cesárea. O impacto do modo de parto também se refletiu de forma marcante na abundância de táxons específicos ao longo do tempo. Os lactentes nascidos por cesárea exibiram uma acentuada depleção de espécies do gênero Bacteroides até o terceiro mês de vida. Em contrapartida, os bebês nascidos por parto vaginal apresentaram uma colonização bimodal de Bacteroides, sendo que as diferenças na abundância desse gênero entre os dois grupos de parto persistiram de forma perceptível até os 12 meses de idade.
Essas diferenças de composição também se traduziram em variações funcionais: os bebês nascidos de parto vaginal mostraram-se enriquecidos em enzimas ativas em carboidratos (CAZymes) envolvidas no metabolismo de polissacarídeos não amiláceos, enquanto o grupo de cesárea apresentou enriquecimento em CAZymes voltadas à metabolização do amido.
A grande representação de partos vaginais na coorte (84,8% do total, correspondendo a 585 bebês) permitiu aos autores investigar de forma detalhada o papel de variáveis específicas do ambiente de nascimento. Entre esses partos vaginais, 155 ocorreram em ambiente doméstico (22,5% do total da coorte). A análise revelou que o parto domiciliar apresentou uma associação apenas moderada com a composição geral da microbiota intestinal do bebê, com um efeito muito menor do que a via de parto em si e comparável a outras variáveis clínicas do nascimento. No entanto, foram observadas reduções nominalmente significativas na abundância de espécies importantes de Bacteroides (especialmente B. uniformis e Bacteroides xylanisolvens) nos bebês nascidos por parto vaginal em ambiente hospitalar quando comparados àqueles nascidos em casa.
Análises detalhadas revelaram que o atraso na colonização por Bacteroides em partos vaginais não decorre de um fator isolado, mas sim de múltiplos aspectos associados a trabalhos de parto prolongados ou complicados. Fatores como a maior duração do trabalho de parto, o uso materno de analgésicos e anestésicos (como opioides) e um tempo prolongado de bolsa rota correlacionaram-se de forma consistente com a redução na abundância de diversas espécies de Bacteroides. Outras associações taxonômicas específicas incluíram o aumento da abundância de Veillonella parvula em casos de trabalho de parto prolongado e de Enterococcus casseliflavus quando houve uso de analgesia epidural. A bolsa rota também demonstrou associação nominal com o aumento de Veillonella atypica e Klebsiella pneumoniae. Por fim, o nascimento em ambiente hospitalar foi associado a uma menor abundância de Sutterella wadsworthensis. Esses achados sugeriram que as perturbações na microbiota pioneira do lactente refletem o estresse fisiológico e as intervenções clínicas típicas de partos complexos no ambiente hospitalar.
A alimentação do lactente exerceu um impacto profundo na estruturação e no desenvolvimento funcional da microbiota intestinal ao longo do primeiro ano de vida. Ao avaliarem os efeitos individuais da alimentação imediatamente após o nascimento, os padrões alimentares longitudinais e o histórico de aleitamento, os pesquisadores observaram que o perfil bacteriano de bebês que receberam fórmula infantil logo ao nascer assemelhava-se de forma muito estreita ao daqueles que foram alimentados exclusivamente com fórmula até os 12 meses de idade ou que nunca foram amamentados.
Para investigar se componentes bioativos específicos do leite materno participavam diretamente dessas associações, o estudo analisou 24 oligossacarídeos do leite humano (HMOs) em uma subcoorte de 277 lactentes em aleitamento materno exclusivo nos primeiros três meses de vida. Constatou-se que os filhos de mães não-secretoras apresentavam uma menor diversidade de Shannon no microbioma intestinal, embora essa análise específica tenha sido limitada pelo pequeno tamanho amostral (9 amostras provenientes de 3 mães). Nesse mesmo grupo, houve um aumento nominal na abundância de Clostridium perfringens. Apesar dessas observações, não foram identificadas associações estatisticamente significativas entre os HMOs individuais mensurados e a diversidade, espécies ou vias metabólicas do microbioma do lactente.
Uma das contribuições mais inovadoras nesse tópico foi a avaliação do potencial neuroativo microbiano, mensurado por meio da abundância estimada de módulos intestino-cérebro (GBMs). Foram identificadas 125 associações significativas, a maior parte delas estreitamente ligada ao tipo de alimentação do lactente. Entre os achados mais expressivos, os lactentes alimentados com fórmula apresentaram uma redução marcante na via de degradação do ácido quinolínico, ao passo que a via de síntese de acetato I mostrou-se significativamente enriquecida nos bebês amamentados. Essas discrepâncias metabólicas funcionais ressaltaram como as práticas alimentares precoces podem modular diretamente a produção de compostos neuroativos mediados pela microbiota intestinal infantojuvenil.
Com a introdução de alimentos complementares e a transição para a dieta sólida aos 6, 9 e 12 meses de idade, novos padrões de associação da microbiota emergiram. Os alimentos foram catalogados em 18 categorias aos 6 meses e em 21 categorias aos 9 e 12 meses, revelando que a maioria dos grupos alimentares (71,4%) exibia correlações com a microbiota do bebê. No entanto, após o ajuste estatístico para o tipo de aleitamento e o consumo calórico diário total (kcal/dia), apenas as categorias de laticínios, bebidas adocicadas e leguminosas mantiveram associações significativas com espécies bacterianas específicas. De forma notável, o consumo de iogurte e coalhada pelo lactente associou-se positivamente com a abundância de Streptococcus thermophilus, um padrão de colonização alimentar muito semelhante ao que é documentado em indivíduos adultos.
Diante da capacidade limitada do repertório endógeno de enzimas digestivas do lactente, o desenvolvimento do bebê apresenta uma alta dependência do metabolismo de carboidratos realizado por sua microbiota intestinal. Para compreender essa dinâmica funcional, os pesquisadores definiram os perfis de CAZymes nas microbiotas maternas e infantis. Enquanto o perfil de CAZymes materno permaneceu notavelmente estável durante toda a gestação, o do lactente mostrou-se altamente dinâmico ao longo de todo o primeiro ano de vida. No ecossistema intestinal infantil, os gêneros Bacteroides, Parabacteroides e Phocaeicola emergiram como os principais impulsionadores da variação no perfil de CAZymes. Em contrapartida, o gênero Bacteroides desempenhou um papel significativamente menos proeminente nos perfis de CAZymes intestinais das mães.
A maior parte das associações entre as CAZymes infantis e as variáveis clínicas esteve estreitamente ligada à via de parto. Esse impacto foi decorrente, sobretudo, das diferenças acentuadas na presença ou ausência dos gêneros Bacteroides, Parabacteroides e Phocaeicola entre os lactentes nascidos por parto vaginal e por cesárea. Em termos práticos de degradação de substratos, os bebês nascidos por parto vaginal apresentaram um enriquecimento de CAZymes envolvidas no metabolismo de polissacarídeos não amiláceos, enquanto aqueles nascidos por cesárea exibiram um perfil enriquecido em CAZymes voltadas à metabolização do amido.
O tipo de alimentação também atuou como um fator determinante na modulação funcional enzimática. O aleitamento materno associou-se a um enriquecimento robusto de CAZymes infantis direcionadas à metabolização de oligossacarídeos resistentes, mucina e glicanos do leite humano quando comparado à alimentação por fórmulas infantis. Além das variáveis de nascimento e dieta, o estudo identificou associações significativas entre os índices de crescimento físico do bebê e subfamílias específicas de CAZymes, mesmo após o ajuste estatístico para a via de parto e o padrão alimentar. Um achado de destaque foi a associação consistente da família de glicosídeo hidrolases GH89 com o peso, o comprimento e o perímetro cefálico do lactente.
Por fim, a transição funcional e o amadurecimento metabólico da microbiota infantil ficaram evidentes ao longo do tempo. Nos primeiros meses de vida, observou-se um enriquecimento significativo de CAZymes envolvidas na degradação de oligossacarídeos resistentes, amido, peptideoglicano, amilose/amilopectina e pululana. Já nas fases mais tardias (idade igual ou superior a 6 meses), o perfil enzimático do lactente passou a apresentar um enriquecimento expressivo de CAZymes associadas ao metabolismo de glicoproteínas, pectina e arabinogalactana. Essa transição temporal reflete a rápida maturação da capacidade funcional da microbiota intestinal na infância sob a influência direta do modo de parto e da introdução alimentar.
Um dos achados mais clinicamente relevantes e inovadores do estudo foi a demonstração de que a microbiota intestinal materna atuou como um preditor significativo para o desenvolvimento de eczema no lactente durante o primeiro ano de vida. Os pesquisadores observaram que a diversidade alfa materna foi significativamente menor em mulheres cujos bebês desenvolveram o diagnóstico de eczema ao longo do primeiro ano pós-parto. Para determinar se essa correlação era independente de outros fatores de risco clássicos, foi realizada uma análise de regressão logística multivariada que incluiu a diversidade de Shannon materna, o histórico de tabagismo pré-gestacional da mãe e o histórico familiar de doença alérgica. Notavelmente, apenas a diversidade alfa materna permaneceu de forma independente e significativamente associada ao desfecho de eczema infantil, enquanto as demais variáveis testadas não mantiveram relevância estatística no modelo multivariado.
A partir dessas observações, os autores desenvolveram modelos preditivos utilizando algoritmos de aprendizado de máquina (XGBoost) para avaliar a capacidade da microbiota materna coletada no momento do parto em prever a ocorrência futura de eczema no lactente. Foram testados três conjuntos de variáveis preditivas: a composição taxonômica baseada em espécies (SGBs), que obteve uma Área Sob a Curva (AUC) de 0,74; o perfil de vias metabólicas funcionais, que alcançou uma AUC de 0,73; e a diversidade alfa isolada, com uma AUC de 0,68.
Ao investigar as contribuições individuais das espécies bacterianas para o modelo taxonômico por meio de valores de Shapley additive explanations (SHAP), a bactéria Dialister invisus emergiu como a espécie de maior destaque e importância preditiva. A presença e abundância dessa espécie na microbiota materna associou-se fortemente a um menor risco de desenvolvimento de eczema no bebê. Na literatura científica, a bactéria já havia sido correlacionada anteriormente à capacidade de modular processos inflamatórios sistêmicos em resposta a uma dieta materna prudente.
Embora os mecanismos exatos subjacentes a essa associação preditiva ainda precisem ser totalmente elucidados, os autores propuseram que a microbiota intestinal materna durante a gestação pode influenciar ativamente o desenvolvimento do sistema imunológico fetal. Essa modulação ocorreria por meio de metabólitos produzidos no útero ou pela transferência direta de anticorpos e citocinas maternas influenciadas pela microbiota.
A investigação das rotas de transmissão e compartilhamento de cepas entre mães e bebês representou um dos pilares mais detalhados do estudo, utilizando sequenciamento metagenômico ultraprofundo em nichos maternos de baixa biomassa ou com alta concentração de DNA humano. Para discernir se as cepas encontradas no lactente eram idênticas às maternas, os pesquisadores analisaram 90 amostras de leite materno coletadas no primeiro mês de vida e 82 amostras vaginais colhidas próximas ao parto, integrando-as com os perfis fecais longitudinais dos pares de mães e bebês e aplicando limites de distância genética otimizados para cada espécie metagenômica.
Os resultados revelaram que o leite materno não constitui um reservatório primário para as cepas colonizadoras dominantes no intestino do lactente. Embora espécies como Staphylococcus epidermidis, Streptococcus mitis e o grupo Streptococcus salivarius tenham sido abundantes e prevalentes na microbiota do leite, ocorrendo simultaneamente no intestino do bebê em taxas de 50%, 42,2% e 38,9% dos pares, respectivamente, o compartilhamento dessas espécies no nível de cepa ocorreu apenas de forma esporádica. Por exemplo, o compartilhamento de cepas da colonizadora abundante S. epidermidis foi identificado em apenas duas famílias. Diferenças filogenéticas significativas entre cepas de pares relacionados versus não relacionados foram detectadas unicamente para Bifidobacterium breve e Enterococcus faecalis, limitando-se à transmissão em duas famílias para cada espécie. De forma semelhante, a microbiota vaginal materna mostrou-se um reservatório secundário com poucas espécies compartilhadas com o intestino infantil. Bactérias vaginais dominantes, como Lactobacillus crispatus, Lactobacillus iners e Gardnerella vaginalis, foram raramente detectadas nas fezes dos lactentes. A única exceção marcante foi a bactéria Bifidobacterium breve: em todas as cinco mães nas quais foi possível reconstruir a cepa vaginal dominante dessa espécie, a mesma cepa exata foi encontrada no intestino do respectivo bebê (sendo quatro nascidos por parto vaginal e um por cesárea pós-trabalho de parto), indicando uma transmissão vertical direta durante o nascimento, com cepas distintas sendo adquiridas posteriormente.
Em contrapartida, o intestino materno destacou-se como o reservatório principal para a colonização pioneira do bebê, demonstrando um amplo compartilhamento de cepas fecal-fecal que se revelou fortemente dependente do tempo. Ao avaliar 81 espécies bacterianas em mais de 20 pares de mães e bebês, os autores identificaram 7.345 eventos de transmissão vertical. Todas as 81 espécies analisadas registraram ao menos um evento de compartilhamento de cepa na coorte, com uma taxa média geral de compartilhamento de 33% de cepas idênticas por par mãe-bebê, em contraste com 0% entre pares não aparentados. Essa dinâmica mostrou-se altamente temporal, com a proporção de cepas compartilhadas reduzindo de uma mediana de 65% nas primeiras duas semanas e no primeiro mês de vida para 25% aos 12 meses de idade. Esse declínio longitudinal é justificado pela aquisição progressiva de novas cepas ambientais e pela transmissão horizontal decorrente de novos contatos sociais do lactente.
No nível de espécies individuais, a taxa de compartilhamento de cepas variou amplamente, indo de 2,21% em S. salivarius a 100% em Phocaeicola coprophilus. Algumas espécies, como Bacteroides clarus e Bacteroides fragilis, exibiram taxas de compartilhamento elevadas de forma persistente e independente do tempo (90,6% e 86,3%, respectivamente). Em contrapartida, espécies tipicamente adquiridas por vias externas, como Streptococcus thermophilus (associada ao consumo infantil de iogurte ou coalhada) e S. salivarius (associada à alimentação por fórmulas), foram raramente compartilhadas entre mães e bebês (4,3% e 2,2%, respectivamente). Adicionalmente, verificou-se a ocorrência de efeitos de prioridade, de modo que os bebês que compartilhavam uma cepa materna (como Phocaeicola vulgatus ou B. longum) apresentaram uma abundância significativamente maior dessas bactérias no início da vida. A probabilidade de transmissão também foi correlacionada com a abundância bacteriana no intestino da própria mãe antes do parto, observando-se que espécies altamente abundantes na microbiota materna (como Phocaeicola dorei e Bacteroides uniformis) apresentaram maiores chances de colonizar o bebê.
O estudo demonstrou também que as cepas transmitidas verticalmente no início da vida (às 2 semanas ou 1 mês) possuíram uma maior propensão à persistência de longo prazo no intestino infantil aos 9 ou 12 meses de idade, com destaque para as espécies Bifidobacterium adolescentis e Bacteroides thetaiotaomicron. Clinicamente, o aleitamento materno e o parto vaginal atuaram como os principais facilitadores desse compartilhamento: a amamentação foi significativamente associada a maiores taxas gerais de transmissão de cepas intestinais maternas em comparação ao uso de fórmula, enquanto o parto vaginal aumentou de forma robusta e específica a transmissão vertical de cepas de B. thetaiotaomicron e B. longum quando comparado ao parto por cesárea. Sob a ótica funcional, as cepas transmitidas foram significativamente enriquecidas em 121 grupos de genes ortólogos (COGs), envolvendo funções cruciais de transporte e metabolismo de carboidratos, coenzimas e potencial imunomodulador, como a acetilação de lipopolissacarídeos (LPS), fornecendo vantagens adaptativas para a colonização estável do intestino infantil, com a espécie P. vulgatus emergindo como a principal contribuinte para essa transmissão de funções metabólicas.
A variação genética intraespecífica tem sido progressivamente associada a desfechos de saúde em populações adultas, mas o seu comportamento e o seu papel ecológico no início da vida dos lactentes ainda eram pouco compreendidos. Para avançar nessa compreensão, os pesquisadores avaliaram a variação filogenética intraespecífica infantil em relação à idade cronológica do bebê e a uma ampla gama de preditores ambientais e clínicos.
A análise revelou que a variação filogenética em 19 espécies bacterianas (FDR < 0,05) apresentou uma associação altamente significativa com a idade do lactente. Em várias dessas filogenias, observou-se uma separação clara e bem-definida entre as cepas colonizadoras de fases precoces (de bebês com 2 semanas a 3 meses de vida) e aquelas encontradas em fases mais tardias (de lactentes com 6 a 12 meses de idade). Um dos exemplos mais evidentes dessa diferenciação temporal ocorreu na filogenia de Streptococcus thermophilus. A variação filogenética dessa espécie foi fortemente impulsionada pela introdução de iogurte e coalhada na dieta infantil a partir do nono mês. Constatou-se que os bebês que consumiam esses alimentos adquiriam linhagens genéticas pertencentes a um clado filogenético estreito e específico. Essa especificidade em nível de cepa alinhou-se de forma direta com as correlações macroscópicas observadas no estudo entre a abundância geral e a prevalência de S. thermophilus e a frequência do consumo desses derivados lácteos aos 9 e 12 meses de idade.
Além da idade e da introdução alimentar básica, o estudo investigou as associações de outros preditores com as filogenias bacterianas, aplicando modelos estatísticos ajustados para o momento da coleta. Dentre as 6.831 associações avaliadas, 18 mostraram-se estatisticamente significativas. Entre essas, identificou-se que o modo de alimentação do lactente esteve associado à variação filogenética da espécie Prevotella copri clado A (SGB1626). Outro achado foi a associação da variação filogenética de duas espécies altamente prevalentes no ecossistema intestinal infantil, Veillonella dispar (SGB6952) e Ruminococcus gnavus (SGB4584), com a paridade materna (que funciona como um indicador indireto da presença de irmãos no ambiente familiar). Em conjunto, esses resultados sugeriram que fatores como a via de aleitamento, a composição da dieta e a estrutura familiar influenciam a microbiota do bebê de maneira muito mais refinada do que se supunha, moldando o ecossistema intestinal do lactente não apenas na abundância de espécies, mas também diretamente no nível de linhagens genéticas específicas.