As doenças dermatológicas representam uma das causas mais abrangentes e negligenciadas de morbidade global, acumulando entre 4,7 e 4,9 bilhões de casos incidentes anuais e correspondendo a mais de 42,9 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs). Essa carga afeta de forma desproporcional crianças e indivíduos em países de baixa e média renda. Apesar de figurarem entre as principais causas de incapacitação no mundo e resultarem em estigma, discriminação e limitação de oportunidades educacionais e econômicas, as enfermidades dermatológicas historicamente receberam atenção limitada no âmbito das políticas públicas.
Esse cenário começou a se modificar em 2025 com a adoção da resolução WHA78.15 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), intitulada "Doenças Cutâneas como Prioridade Global de Saúde Pública". Esse documento estabeleceu a saúde da pele como componente essencial para a cobertura universal de saúde, reconheceu a magnitude do problema e convocou aportes adicionais de financiamento, vigilância epidemiológica e expansão da capacidade da força de trabalho. Paralelamente, foi criada a Comissão do Lancet sobre Saúde da Pele, com o objetivo de formular um arcabouço de governança e um plano de ação global para o setor. O sucesso dessas metas depende criticamente do mapeamento do acesso aos cuidados dermatológicos e do perfil dos profissionais da área, fatores que ainda não haviam sido investigados sistematicamente em escala mundial.
Para preencher essa lacuna, Freeman et al., (2026) analisaram os padrões globais, regionais e por níveis de renda em relação à densidade de dermatologistas e à capacidade dos programas de treinamento. Além disso, examinaram os desequilíbrios na distribuição desses especialistas entre zonas urbanas e rurais e entre os setores público e privado, caracterizando a oferta e os principais prestadores de cuidados gerais e subespecializados para subsidiar estratégias de fortalecimento da força de trabalho e orientar o planejamento público.
Pra o estudo transversal, a população incluída foi composta por partes interessadas e líderes da área dermatológica em cada país, incluindo diretores de sociedades nacionais vinculadas à Liga Internacional de Sociedades Dermatológicas (ILDS) ou lideranças identificadas por meio de redes globais de colaboradores e da OMS. O instrumento de pesquisa foi em um questionário de 47 perguntas disponibilizado em inglês, francês, espanhol e português, distribuído de forma on-line entre agosto de 2024 e outubro de 2025.
Para a classificação socioeconômica e geográfica, os dados populacionais e os níveis de renda dos países (baixa, média-baixa, média-alta e alta) foram extraídos das estimativas de 2024 do Banco Mundial, ao passo que o enquadramento regional seguiu a lista de Estados-Membros da OMS. O estudo estabeleceu como desfechos primários a densidade de dermatologistas por 100.000 habitantes por país e a estimativa do número total de dermatologistas no mundo. Os secundários incluíram a densidade de programas de treinamento, a distribuição geográfica e setorial (urbana/rural e pública/privada), a qualidade percebida do acesso à assistência, os perfis dos principais profissionais prestadores de cuidados, os requisitos nacionais para formação especialista e a escassez percebida de mão de obra.
Os resultados do estudo foram baseados na resposta de 158 países, representando mais de 80% de taxa de resposta e 97% da população mundial. Com base nesses dados, estimou-se a existência de 175.633 dermatologistas no mundo, dos quais 169.366 foram diretamente reportados pelas nações participantes. A densidade média global de dermatologistas foi calculada em 2,66 por 100.000 habitantes, apresentando extrema disparidade em relação ao nível de renda: variou de 0,37 por 100.000 em países de baixa renda até 5,05 por 100.000 naqueles de alta. Disparidades acentuadas também foram observadas no plano regional, com a Região Europeia registrando a maior densidade média (6,00 por 100.000) e a Região Africana a menor (0,26 por 100.000), destacando-se o fato de que nove países relataram não possuir nenhum dermatologista em seu território.
Ao calcular o limiar necessário para garantir uma assistência dermatológica adequada, os pesquisadores identificaram que seria necessária uma densidade mínima de 5,63 dermatologistas por 100.000 habitantes, contudo, apenas 17% dos países avaliados atingiram esse valor de referência. Paralelamente, constatou-se uma marcante má distribuição geográfica e de infraestrutura: em média, 79% dos especialistas concentram-se em centros urbanos, proporção que alcança 91% nos países de baixa renda, em comparação com 74% nos de alta. Do ponto de vista da formação profissional, 21% dos países não possuem programas de residência ou treinamento em dermatologia, sendo que na Região Africana 46% dos países carecem completamente desses programas. A densidade de programas de especialização por 100.000 habitantes variou de 0,004 em nações de baixa renda a 0,044 naqueles de alta.
Em relação à percepção da qualidade do acesso, 42% dos países relataram que o acesso à dermatologia geral é inadequado ou extremamente pobre, e 48% apontaram a mesma limitação quanto aos cuidados especializados. As maiores lacunas foram identificadas nas subespecialidades de dermatologia pediátrica, cirúrgica e dermatopatologia, com severa escassez nas nações de menor renda. Além disso, a infraestrutura de saúde para a prestação desse atendimento foi classificada como inadequada ou extremamente deficiente por 61% dos respondentes em países de baixa renda, em contraste com 20% naqueles de alta. Esse cenário correlaciona-se com a baixa priorização política do tema, visto que apenas 26% dos países pesquisados (e somente 6% daqueles de baixa renda) reportaram que a atenção às doenças dermatológicas constitui uma prioridade de saúde pública governamental.
Diante da escassez de especialistas, a atenção primária e profissionais não dermatologistas assumem papel central na linha de frente. Os médicos de família e pediatras foram citados com frequência equivalente à dos dermatologistas como os principais prestadores de cuidados para doenças cutâneas em todas as faixas de renda. Além disso, em países de baixa e média-baixa renda, outros profissionais de saúde, incluindo agentes de saúde, enfermeiros, farmacêuticos e terapeutas tradicionais, responderam por parcela substancial do diagnóstico e tratamento de afecções dermatológicas em 36% a 44% das nações. Vale destacar que 85% dos países expressaram alta ou máxima certeza sobre as respostas fornecidas e 64% embasaram suas informações em dados estatísticos formais.
Sendo assim, o acesso à atenção dermatológica enfrenta uma severa crise de equidade global, na qual a maior carga de doenças incide justamente nos países de baixa e média renda, onde a escassez de especialistas, de programas de residência e de infraestrutura é mais acentuada. A marcante concentração urbana e a prática dupla (público-privada) em cenários de menor renda reduzem substancialmente a oferta de cuidados no sistema público. Além disso, mesmo países de alta renda enfrentam "desertos dermatológicos" e, em muitos casos, registram densidades abaixo do limiar de 5,63 especialistas por 100.000 habitantes. Para conter a migração profissional e suprir a escassez de subespecialistas, destaca-se a necessidade urgente de investimentos em centros regionais de formação.
Diante da baixa priorização governamental da saúde cutânea em 74% das nações, a redistribuição de tarefas e o treinamento formal de profissionais da atenção primária, enfermeiros, farmacêuticos e outros agentes de saúde emergem como estratégias custo-efetivas e essenciais para expandir o manejo de dermatoses comuns na linha de frente. Em conclusão, alcançar a equidade exige o incentivo à descentralização da prática médica, o fortalecimento de programas locais de especialização e a capacitação da força de trabalho de atenção primária.
Publicado el 20 de septiembre de 2026
Dermatologia
Disparidades globais na dermatologia: apenas 17% dos países atingem a densidade mínima de especialistas
Estudo publicado no JAMA Dermatology em 158 países revelou que 42% das nações têm acesso inadequado à dermatologia e destacou o papel central da atenção primária
Autor/a: Freeman EE, Yardman-Frank JM, Kilmer J, et al.
Fuente: JAMA Dermatol. Published online August 26, 2026. doi:10.1001/jamadermatol.2026.3112 Global Disparities in Access to Dermatological Care
As doenças dermatológicas representam uma das causas mais abrangentes e negligenciadas de morbidade global, acumulando entre 4,7 e 4,9 bilhões de casos incidentes anuais e correspondendo a mais de 42,9 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs). Essa carga afeta de forma desproporcional crianças e indivíduos em países de baixa e média renda. Apesar de figurarem entre as principais causas de incapacitação no mundo e resultarem em estigma, discriminação e limitação de oportunidades educacionais e econômicas, as enfermidades dermatológicas historicamente receberam atenção limitada no âmbito das políticas públicas.
Esse cenário começou a se modificar em 2025 com a adoção da resolução WHA78.15 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), intitulada "Doenças Cutâneas como Prioridade Global de Saúde Pública". Esse documento estabeleceu a saúde da pele como componente essencial para a cobertura universal de saúde, reconheceu a magnitude do problema e convocou aportes adicionais de financiamento, vigilância epidemiológica e expansão da capacidade da força de trabalho. Paralelamente, foi criada a Comissão do Lancet sobre Saúde da Pele, com o objetivo de formular um arcabouço de governança e um plano de ação global para o setor. O sucesso dessas metas depende criticamente do mapeamento do acesso aos cuidados dermatológicos e do perfil dos profissionais da área, fatores que ainda não haviam sido investigados sistematicamente em escala mundial.
Para preencher essa lacuna, Freeman et al., (2026) analisaram os padrões globais, regionais e por níveis de renda em relação à densidade de dermatologistas e à capacidade dos programas de treinamento. Além disso, examinaram os desequilíbrios na distribuição desses especialistas entre zonas urbanas e rurais e entre os setores público e privado, caracterizando a oferta e os principais prestadores de cuidados gerais e subespecializados para subsidiar estratégias de fortalecimento da força de trabalho e orientar o planejamento público.
Pra o estudo transversal, a população incluída foi composta por partes interessadas e líderes da área dermatológica em cada país, incluindo diretores de sociedades nacionais vinculadas à Liga Internacional de Sociedades Dermatológicas (ILDS) ou lideranças identificadas por meio de redes globais de colaboradores e da OMS. O instrumento de pesquisa foi em um questionário de 47 perguntas disponibilizado em inglês, francês, espanhol e português, distribuído de forma on-line entre agosto de 2024 e outubro de 2025.
Para a classificação socioeconômica e geográfica, os dados populacionais e os níveis de renda dos países (baixa, média-baixa, média-alta e alta) foram extraídos das estimativas de 2024 do Banco Mundial, ao passo que o enquadramento regional seguiu a lista de Estados-Membros da OMS. O estudo estabeleceu como desfechos primários a densidade de dermatologistas por 100.000 habitantes por país e a estimativa do número total de dermatologistas no mundo. Os secundários incluíram a densidade de programas de treinamento, a distribuição geográfica e setorial (urbana/rural e pública/privada), a qualidade percebida do acesso à assistência, os perfis dos principais profissionais prestadores de cuidados, os requisitos nacionais para formação especialista e a escassez percebida de mão de obra.
Os resultados do estudo foram baseados na resposta de 158 países, representando mais de 80% de taxa de resposta e 97% da população mundial. Com base nesses dados, estimou-se a existência de 175.633 dermatologistas no mundo, dos quais 169.366 foram diretamente reportados pelas nações participantes. A densidade média global de dermatologistas foi calculada em 2,66 por 100.000 habitantes, apresentando extrema disparidade em relação ao nível de renda: variou de 0,37 por 100.000 em países de baixa renda até 5,05 por 100.000 naqueles de alta. Disparidades acentuadas também foram observadas no plano regional, com a Região Europeia registrando a maior densidade média (6,00 por 100.000) e a Região Africana a menor (0,26 por 100.000), destacando-se o fato de que nove países relataram não possuir nenhum dermatologista em seu território.
Ao calcular o limiar necessário para garantir uma assistência dermatológica adequada, os pesquisadores identificaram que seria necessária uma densidade mínima de 5,63 dermatologistas por 100.000 habitantes, contudo, apenas 17% dos países avaliados atingiram esse valor de referência. Paralelamente, constatou-se uma marcante má distribuição geográfica e de infraestrutura: em média, 79% dos especialistas concentram-se em centros urbanos, proporção que alcança 91% nos países de baixa renda, em comparação com 74% nos de alta. Do ponto de vista da formação profissional, 21% dos países não possuem programas de residência ou treinamento em dermatologia, sendo que na Região Africana 46% dos países carecem completamente desses programas. A densidade de programas de especialização por 100.000 habitantes variou de 0,004 em nações de baixa renda a 0,044 naqueles de alta.
Em relação à percepção da qualidade do acesso, 42% dos países relataram que o acesso à dermatologia geral é inadequado ou extremamente pobre, e 48% apontaram a mesma limitação quanto aos cuidados especializados. As maiores lacunas foram identificadas nas subespecialidades de dermatologia pediátrica, cirúrgica e dermatopatologia, com severa escassez nas nações de menor renda. Além disso, a infraestrutura de saúde para a prestação desse atendimento foi classificada como inadequada ou extremamente deficiente por 61% dos respondentes em países de baixa renda, em contraste com 20% naqueles de alta. Esse cenário correlaciona-se com a baixa priorização política do tema, visto que apenas 26% dos países pesquisados (e somente 6% daqueles de baixa renda) reportaram que a atenção às doenças dermatológicas constitui uma prioridade de saúde pública governamental.
Diante da escassez de especialistas, a atenção primária e profissionais não dermatologistas assumem papel central na linha de frente. Os médicos de família e pediatras foram citados com frequência equivalente à dos dermatologistas como os principais prestadores de cuidados para doenças cutâneas em todas as faixas de renda. Além disso, em países de baixa e média-baixa renda, outros profissionais de saúde, incluindo agentes de saúde, enfermeiros, farmacêuticos e terapeutas tradicionais, responderam por parcela substancial do diagnóstico e tratamento de afecções dermatológicas em 36% a 44% das nações. Vale destacar que 85% dos países expressaram alta ou máxima certeza sobre as respostas fornecidas e 64% embasaram suas informações em dados estatísticos formais.
Sendo assim, o acesso à atenção dermatológica enfrenta uma severa crise de equidade global, na qual a maior carga de doenças incide justamente nos países de baixa e média renda, onde a escassez de especialistas, de programas de residência e de infraestrutura é mais acentuada. A marcante concentração urbana e a prática dupla (público-privada) em cenários de menor renda reduzem substancialmente a oferta de cuidados no sistema público. Além disso, mesmo países de alta renda enfrentam "desertos dermatológicos" e, em muitos casos, registram densidades abaixo do limiar de 5,63 especialistas por 100.000 habitantes. Para conter a migração profissional e suprir a escassez de subespecialistas, destaca-se a necessidade urgente de investimentos em centros regionais de formação.
Diante da baixa priorização governamental da saúde cutânea em 74% das nações, a redistribuição de tarefas e o treinamento formal de profissionais da atenção primária, enfermeiros, farmacêuticos e outros agentes de saúde emergem como estratégias custo-efetivas e essenciais para expandir o manejo de dermatoses comuns na linha de frente. Em conclusão, alcançar a equidade exige o incentivo à descentralização da prática médica, o fortalecimento de programas locais de especialização e a capacitação da força de trabalho de atenção primária.