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Publicado el 19 de agosto de 2026

Diretriz internacional atualiza diagnóstico e tratamento da puberdade precoce central

Publicada pela Endocrine Society, nova diretriz propõe abordagem mais individualizada para a puberdade precoce central, com redução de exames e intervenções desnecessárias e maior participação de pacientes e familiares nas decisões terapêuticas.

Autor/a: Latronico, A. C. et al.

Fuente: The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, Volume 111, Issue 8, August 2026, Pages 2101–2144 Central precocious puberty: an Endocrine Society clinical practice guideline

A Endocrine Society publicou uma nova diretriz clínica para o diagnóstico e tratamento da puberdade precoce central (PPC), incorporando evidências recentes e propondo uma abordagem mais individualizada para a condição. O documento, liderado por Ana Claudia Latronico, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), foi destaque em editorial da revista The Lancet Diabetes & Endocrinology, que apontou seu potencial para transformar o cuidado de crianças com PPC.

Publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, a diretriz substituiu o consenso internacional de 2009 e é a primeira da Endocrine Society sobre o tema desenvolvida integralmente com a metodologia Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation (GRADE), considerada padrão internacional para recomendações baseadas em evidências.

A puberdade precoce central é caracterizada pela ativação prematura do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, levando ao desenvolvimento de características sexuais secundárias antes dos 8 anos em meninas e dos 9 anos em meninos. Embora possa estar associada à redução da estatura final, além de potenciais repercussões psicossociais e metabólicas, evidências indicaram que nem todas as crianças apresentam a mesma evolução clínica ou se beneficiam das mesmas intervenções.

Entre as principais recomendações da nova diretriz está a adoção de uma estratégia de observação clínica inicial em parte dos casos. Em meninas com telarca entre 7 e 8 anos, por exemplo, sugere-se acompanhamento periódico por 4 a 6 meses antes da realização de exames laboratoriais ou de imagem, permitindo diferenciar formas lentamente progressivas daquelas com evolução mais rápida.

Outra mudança relevante foi a recomendação de utilizar a dosagem basal ultrassensível do hormônio luteinizante (LH) como exame inicial para investigação da ativação puberal central, reduzindo a necessidade de testes de estímulo com GnRH ou agonistas de GnRH.

A diretriz também propôs uma utilização mais criteriosa da ressonância magnética cerebral e dos testes genéticos. Em meninas entre 6 e 8 anos e meninos entre 8 e 9 anos sem sinais de comprometimento neurológico, a realização rotineira de ressonância magnética não é recomendada, considerando a baixa frequência de achados intracranianos relevantes nesses grupos. Da mesma forma, a realização de testes genéticos de rotina não é indicada, embora possa ser considerada em casos familiares, dentro de um processo de decisão compartilhada.

Os agonistas do GnRH permanecem como tratamento de escolha para muitas crianças com PPC. No entanto, a diretriz destacou que alguns subgrupos, especialmente meninas mais velhas com formas lentamente progressivas da doença, podem obter benefício limitado com a terapia.

O documento também reforçou a importância da tomada de decisão compartilhada entre médicos, pacientes e familiares, considerando benefícios, riscos, preferências individuais e impacto na qualidade de vida. Entre as recomendações estão ainda evitar o uso rotineiro de hormônio de crescimento associado ao tratamento e restringir testes laboratoriais de monitoramento a situações de suspeita clínica de falha terapêutica.

No editorial intitulado Less can be more: the 2026 Endocrine Society Guideline for precision care in central precocious puberty, a endocrinologista pediátrica Sasha R. Howard, da Queen Mary University of London, destacou que a diretriz representa uma mudança em direção à medicina de precisão, com maior foco na avaliação individualizada e na redução de intervenções desnecessárias.

Para os autores, o objetivo central das recomendações é equilibrar benefícios clínicos, segurança, custos e viabilidade, direcionando exames e tratamentos para os pacientes com maior probabilidade de obter ganhos reais com a intervenção. Além de orientar a prática atual, a publicação também evidencia importantes lacunas de conhecimento e a necessidade de novas pesquisas na área.