O American Urological Association Annual Meeting (AUA 2025), realizado em abril deste ano em Las Vegas, reuniu especialistas de diversas partes do mundo para discutir avanços científicos, novas diretrizes e inovações tecnológicas no campo da urologia. O evento trouxe debates sobre manejo clínico, opções terapêuticas emergentes e tendências para o futuro da prática urológica, oferecendo aos participantes a oportunidade de integrar conhecimento baseado em evidências com a experiência clínica.
A equipe da IntraMed Brasil selecionou os principais tópicos apresentados no AUA 2025 para que você se mantenha atualizado com as tendências e descobertas mais relevantes da área. Confira abaixo o resumo das discussões e resultados mais importantes do congresso.
| Como aconselhar pacientes com câncer de próstata e seus parceiros(as) sobre efeitos colaterais sexuais e reabilitação |
A disfunção sexual é uma consequência comum e impactante dos tratamentos para câncer de próstata, afetando a qualidade de vida de homens e seus parceiros(as). Apesar disso, a saúde sexual nem sempre é abordada como parte essencial dos cuidados de acompanhamento após o tratamento. Novas diretrizes apresentadas na AUA 2025 reforçaram a importância de incluir a saúde sexual como um componente fundamental do cuidado com os sobreviventes de câncer de próstata.
Profissionais de saúde devem iniciar conversas abertas sobre os potenciais efeitos colaterais sexuais antes mesmo do início do tratamento, envolvendo os parceiros quando apropriado. Esse deve ser inclusivo, sensível às questões culturais e às necessidades de pessoas LGBTQIA+, ajudando os pacientes a formar expectativas realistas sobre a função sexual pós-tratamento. Intervenções estruturadas e aconselhamento sexual adicional, como a Terapia de Aceitação e Compromisso para Disfunção Erétil, podem melhorar os resultados e o bem-estar emocional.
Um avanço importante foi a apresentação da Sexual Minorities and Prostate Cancer Scale (SMAC), uma ferramenta para avaliar questões específicas de minorias sexuais e de gênero em relação ao câncer de próstata. Essa escala considerou aspectos como dor durante o sexo anal receptivo, mudanças nos papéis sexuais e alterações no orgasmo em contextos não heterossexuais, promovendo um cuidado mais abrangente e sensível às necessidades de todos os pacientes.
MEHTA, Akanksha et al. AUA2025 RECAP How to Counsel Prostate Cancer Patients and Partners on Sexual Side Effects and Rehabilitation. American Urological Association News, 2025. Disponível em: <https://auanews.net/issues/articles/2025/september-2025/aua2025-recap-how-to-counsel-prostate-cancer-patients-and-partners-on-sexual-side-effects-and-rehabilitation>. Acessado em 03/10/2025.
| Casos desafiadores nas infecções urinárias recorrentes |
No AUA 2025, foi apresentado um caso envolvendo uma paciente de 75 anos com histórico de infecção do trato urinário (ITU) recorrente e queixas persistentes de frequência urinária, urgência e queimação vaginal na ausência de infecção bacteriana. A sua deficiência de estrogênio foi associada a sintomas vaginais comuns, incluindo secura, queimação, irritação, dispareunia e sintomas urinários, como urgência e disúria. Essa contribui para o aumento do risco de ITU, reduzindo o glicogênio vaginal, diminuindo os lactobacilos e criando um ambiente vaginal mais alcalino. Neste caso, o estrogênio vaginal pode ser considerado uma opção de tratamento seguro e eficaz.
Além disso, foi discutido o caso de uma paciente de 82 anos com histórico de ITUs recorrentes, que estava usando creme de estrogênio vaginal, mas continuava a apresentar sintomas de ITU apesar de culturas de urina negativas. Embora sejam o método diagnóstico padrão, culturas de urina apresentam limitações, pois podem não identificar organismos dominantes que existem dentro de biofilmes, levando potencialmente a um tratamento incompleto com antibióticos. Neste caso, o PCR e o sequenciamento de nova geração (NGS) podem ser estratégias mais precisas e eficientes para analisar micróbios urinários.
Feng, Danni et al. AUA2025 RECAP Challenging Cases in Recurrent Urinary Tract Infections. American Urological Association News, 2025. Disponível em: <https://auanews.net/issues/articles/2025/september-2025/aua2025-plenary-recap-challenging-cases-in-recurrent-urinary-tract-infections>. Acessado em 03/10/2025.
| Tendências atuais na biópsia da próstata |
A melhor forma de realizar biópsias para detectar câncer de próstata foi um tema debatido na AUA 2025. Algumas das principais questões em discussão FORAM se é possível dispensar biópsias sistemáticas (aquelas que não são guiadas por ressonância magnética), qual o melhor método para combinar as imagens da ressonância com o ultrassom e qual a melhor técnica para a biópsia em si (transretal versus transperineal).
Estudos mostraram que a ressonância magnética (RM) é mais eficiente que a biópsia transretal tradicional para identificar áreas suspeitas na próstata. No entanto, outros indicaram que a combinação da biópsia guiada por ressonância com a biópsia sistemática pode ser a forma mais precisa de diagnosticar o câncer de próstata clinicamente importante, já que cerca de 10% a 20% dos casos poderiam passar despercebidos se apenas um dos métodos fosse utilizado. A Associação de Urologia dos Estados Unidos recomendou o uso da RM no processo de biópsia.
Também foi discutido sobre qual a melhor forma de usar as imagens da ressonância para guiar a biópsia. Existem três técnicas: a fusão cognitiva, fusão com software e RM intraoperatória. Um estudo comparou essas três técnicas e não encontrou diferenças significativas na detecção de câncer de próstata clinicamente importante. Outro debate foi sobre a via de acesso da agulha: a tradicional biópsia transretal e a transperineal. A primeira é mais comum e fácil de realizar, enquanto a segunda tem a vantagem de reduzir o risco de infecções e facilitar o acesso a tumores em certas áreas da próstata, mas, em termos de detecção de câncer e complicações, não houve diferenças significativas entre as duas.
BULLER, Dylan. AUA2025 RECAP Current Trends in Prostate Biopsy. American Urological Association News, 2025. Disponível em: <https://auanews.net/issues/articles/2025/september-2025/aua2025-recap-current-trends-in-prostate-biopsy>. Acessado em 03/10/2025.
| Vigilância ativa para câncer de próstata de baixo risco |
Para pacientes com câncer de próstata (CPa) de baixo risco, a vigilância ativa (VA) é a estratégia de tratamento preferida na diretriz da Associação Americana de Urologia. Embora a VA venha aumentado constantemente nos Estados Unidos em pacientes com CPa de baixo risco, as suas taxas ainda permanecem baixas. Estudos demonstraram a segurança da VA, com taxas baixas de metástase e mortalidade, especialmente com biópsias direcionadas por protocolo. No entanto, alguns pacientes de baixo risco podem não ser ideais para VA devido a fatores como alta densidade do antígeno prostático específico (PSA) e volume tumoral elevado.
Uma área de interesse é a desintensificação da VA, aumentando o intervalo entre biópsias em pacientes selecionados com resultados negativos anteriores. A RM tem sido avaliada para substituir biópsias de vigilância, mas estudos mostraram que seu valor preditivo negativo é limitado, e as reclassificações podem ocorrer fora das lesões identificadas na RM. Portanto, esse método não pode substituir as biópsias periódicas durante a VA.
Finalmente, pacientes com CPa de risco intermediário geralmente apresentam resultados menos favoráveis em comparação com aqueles de baixo risco, mas alguns pacientes com perfis de risco favoráveis podem ser considerados para VA. Em resumo, o conhecimento dessas informações auxilia no processo de tomada de decisão entre médico e paciente sobre a escolha de tratamento para câncer de próstata de baixo risco.
MERRA, R., Lin, D. AUA2025 RECAP Active Surveillance for Low-Risk Prostate Cancer: What Clinical Trials Teach Us. American Urological Association News, 2025. Disponível em: <https://auanews.net/issues/articles/2025/september-2025/aua2025-plenary-recap-active-surveillance-for-low-risk-prostate-cancer-what-clinical-trials-teach-us>. Acessado em 03/10/2025.
| Manejo do cálculo renal assintomático |
O tratamento de cálculos renais não obstrutivos assintomáticos é um tema controverso, com a observação e a intervenção cirúrgica precoce sendo opções aceitáveis em muitos casos. As Diretrizes da AUA de 2016 sugeriram que a observação é adequada para cálculos caliciais assintomáticos se o paciente for informado sobre os riscos de progressão, passagem e dor. No entanto, essa recomendação é condicional e baseada em evidências de baixa qualidade. A tomada de decisão compartilhada, ponderando os riscos e benefícios da cirurgia versus observação, é crucial para a criação de um plano de tratamento individualizado.
Embora a intervenção cirúrgica precoce possa prevenir eventos agudos futuros, ela também pode levar a tratamentos desnecessários em pacientes que nunca desenvolveriam sintomas significativos. Além disso, pode sobrecarregar o sistema de saúde. Por outro lado, eventos agudos inesperados podem causar estresse, custos adicionais e impacto na qualidade de vida.
Novas tecnologias não invasivas baseadas em ultrassom, como a propulsão ultrassônica e a litotripsia por ondas de choque, estão surgindo como tratamentos promissores. Essas tecnologias podem reposicionar e fragmentar os cálculos por via transcutânea, geralmente sem anestesia e em consultório. Ensaios clínicos demonstraram a segurança, viabilidade e eficácia desses métodos, com alguns mostrando taxas de recidiva mais baixas em comparação com a observação. À medida que a cirurgia se torna mais segura e menos mórbida com esses avanços, a intervenção precoce pode se tornar mais favorecida, resolvendo potencialmente a controvérsia em torno do tratamento de cálculos renais assintomáticos.
LINGEMAN, James et al. AUA2025 RECAP Controversies in Urology: Management of the Asymptomatic Kidney Stone . American Urological Association News, 2025. Disponível em: <https://auanews.net/issues/articles/2025/july/august-2025/aua2025-plenary-recap-controversies-in-urology-management-of-the-asymptomatic-kidney-stone>. Acessado em 03/10/2025.
| Incontinência após tratamento da próstata |
O manejo inicial pós-prostatectomia radical (RP) deve incluir aconselhamento sobre a probabilidade de incontinência urinária (com resolução geralmente em doze meses), a possibilidade de incontinência durante a atividade sexual e climactúria, e a discussão dos fatores de risco conhecidos. Exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico devem ser recomendados inicialmente para todos os pacientes, especialmente para aqueles que buscam tratamento para intervenções na próstata (IPT). Para incontinência urinária de esforço (IUE), opções cirúrgicas e não cirúrgicas devem ser discutidas, empregando um modelo de decisão compartilhada para alinhar expectativas e avaliar o grau de incômodo do paciente.
Em casos de IUE ou incontinência mista com predominância de esforço que não respondem a medidas conservadoras, o esfíncter urinário artificial (AUS) é uma opção a ser considerada. É crucial que os profissionais de saúde confirmem que o paciente tem capacidade física e cognitiva para operar o dispositivo e está ciente dos riscos, como falha mecânica, infecção e erosão. Slings masculinos podem ser considerados para IUE leve a moderada, mas não são recomendados para casos graves. Dispositivos de balão ajustáveis são uma opção para IUE leve após tratamento da próstata, mas a experiência com eles ainda é limitada. Em pacientes submetidos à radioterapia de resgate após RP, o AUS é preferível a slings ou balões ajustáveis. Complicações pós-operatórias são comuns, e a reoperação pode ser necessária.
SANDHU, Jaspreet et al. AUA2025 RECAP Case-Based Guidelines Panel Discussion: Incontinence After Prostate Treatment. American Urological Association News, 2025. Disponível em: <https://auanews.net/issues/articles/2025/june-2025/aua2025-plenary-recap-case-based-guidelines-panel-discussion-incontinence-after-prostate-treatment>. Acessado em 03/10/2025.