| Introdução |
As desordens atópicas, incluindo alergias alimentares, rinite alérgica, dermatite atópica (DA) e asma, estão entre as doenças crônicas mais comuns em crianças que vivem em países desenvolvidos. Elas se originam através de uma interação complexa entre suscetibilidade genética e fatores ambientais. A patogênese envolve uma mudança do sistema imunológico de uma resposta dominante de células T auxiliares (Th) 1 para uma resposta dominante Th2.
As desordens atópicas podem se manifestar precocemente na infância, e características fenotípicas específicas foram encontradas em recém-nascidos saudáveis que posteriormente desenvolvem uma desordem atópica. Essas descobertas indicaram que a origem dessas condições pode já estar presente na vida fetal.
Os filhos de mulheres que vivem em fazendas durante a gravidez têm um risco reduzido de desordens atópicas, e o sangue do cordão umbilical mostra respostas Th1 mais fortes. O estresse materno durante a gestação tem sido associado a uma resposta dominante Th2 e um aumento do risco de diferentes manifestações atópicas na prole. Outra exposição pré-natal bem estudada é o tabagismo materno durante a gravidez. Diferenças nas citocinas e células imunológicas do sangue do cordão umbilical também foram encontradas entre recém-nascidos que posteriormente desenvolvem uma doença alérgica e controles saudáveis.
O ambiente e as exposições maternas durante a gravidez afetam o feto através da placenta. Essa é responsável pela entrega de oxigênio e nutrientes para o feto e pela remoção de produtos residuais. Ela produz uma ampla gama de hormônios e citocinas cruciais para a manutenção da gravidez e o crescimento e desenvolvimento fetal. Além de funcionar também como o sistema imunológico fetal, transferindo imunoglobulina G da mãe e criando uma barreira que protege o feto de antígenos perigosos.
Dado o papel crucial da placenta no crescimento e no ambiente fetal, foi sugerido que muitas doenças crônicas se originam nela. No entanto, embora revisões abrangentes tenham sido publicadas sobre fatores pré e perinatais que podem programar o feto para um maior risco de desordens atópicas posteriores, nenhuma avaliou criticamente a evidência de uma ligação entre variações placentárias e o risco de desordens atópicas durante a infância. Por isso, Bakoyan e colaboradores (2024) a realizaram e investigaram se a idade gestacional ao nascimento (pré-termo ou termo) influenciou as associações entre alterações placentárias e desordens atópicas na infância.
| Métodos |
A revisão seguiu as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-analysis (PRISMA). Os critérios de inclusão foram artigos de pesquisa originais ou relatos de casos escritos em inglês que descrevem uma alteração placentária humana em relação a doenças que ocorrem na prole durante a infância. Os bancos de dados MEDLINE e EMBASE foram pesquisados para estudos elegíveis. O risco de viés (RV) foi avaliado usando a ferramenta ROBINS-I. Os resultados foram agrupados de forma narrativa e por meio de uma meta-análise.
| Resultados |
No total, 19 estudos com 12.997 participantes foram incluídos. Desses, cinco incluíram apenas crianças nascidas. Vários examinaram o impacto de exposições ambientais no risco de desordens atópicas na prole em relação a alterações placentárias. Essas incluíram um estilo de vida antroposófico, ansiedade ou sofrimento materno, poluentes atmosféricos, níveis de vitamina D, e tabagismo materno juntamente com suplementação de vitamina.
Desordens histopatológicas, principalmente corioamnionite histológica aguda (HCA), foram a alteração placentária mais prevalente. A expressão gênica e as alterações epigenéticas também foram preeminentes. Os resultados mais comuns foram asma e sibilância, seguidos por DA, sensibilização a alérgenos e rinite alérgica. Os resultados foram avaliados em idades variadas (0,5 a 14 anos), mas na maioria das vezes antes dos 3 anos de idade.
A corioamnionite histológica aguda foi a única alteração placentária estudada em crianças nascidas prematuramente, enquanto outras alterações placentárias diferentes foram analisadas em crianças nascidas a termo, como lesões histopatológicas, peso e expressão gênica.
A associação estatisticamente significativa entre uma alteração placentária e um sinal de desordem atópica foi relatada em treze estudos (68%). A associação mais comum foi entre HCA e sintomas relacionados à asma em crianças nascidas prematuramente. A corioamnionite crônica também foi associada à asma, mas a HCA não se correlacionou com sibilância em crianças nascidas a termo. O peso placentário não foi associado ao índice preditivo de asma ou à DA, prescrição de medicação contra asma para lactentes de até 1 ano de idade.
| Conclusão |
Em conclusão, crianças nascidas prematuramente expostas à HCA apresentaram um risco aumentado de desenvolver sintomas relacionados à asma. Nas nascidas a termo, alterações placentárias na expressão gênica e epigenéticas foram associadas ao risco de doenças atópicas. No entanto, mais pesquisas são necessárias.