| Introdução |
O tabagismo é amplamente reconhecido como a principal causa de câncer no mundo, sendo relacionado a até 18 tipos de tumor. Curiosamente, estudos recentes indicaram que a incidência de melanoma primário entre fumantes pode ser significativamente menor do que entre não fumantes. No entanto, o tabagismo foi associado a maiores taxas de recorrência da doença e a piores desfechos de sobrevivência, sendo o prognóstico para fumantes com melanoma geralmente mais desfavorável. Além disso, tendem a apresentar a doença em estágios mais avançados.
Em 1979, foi levantada a hipótese de que o tabagismo, ao comprometer a função imunológica, poderia influenciar o curso do melanoma em fumantes. Neste contexto, Friedman e colaboradores (2024) analisaram dados disponíveis sobre o risco de mortalidade por melanoma ou outras causas, as características da doença no diagnóstico e os resultados do tratamento em fumantes com melanoma.
| Métodos |
Para esta revisão, foram realizadas buscas nas bases de dados Medline, Embase e Cochrane até o ano de 2024, utilizando termos relacionados a melanoma e tabagismo. Foram incluídos estudos que relataram desfechos como gravidade da doença no momento do diagnóstico, risco de mortalidade ou efeitos adversos do tratamento em fumantes e não fumantes com melanoma. Não foram impostas restrições quanto ao desenho dos estudos ou idioma. O risco de viés foi avaliado por meio da ferramenta Newcastle–Ottawa.
| Resultados |
Após a busca e análise, foram identificados 46 estudos que envolveram um total de 164.166 pacientes com melanoma, dos quais 70.766 eram fumantes. As taxas de risco (HR) agrupadas a partir de análises multivariadas indicaram que o risco de morte por melanoma foi 33% maior em fumantes atuais em comparação com aqueles que nuna foram tabagistas (HR 1,33, IC 95% 1,14–1,55, p = 0,0002, n > 13.971). Em contraste, ex-fumantes e nunca fumantes apresentaram taxas semelhantes de mortalidade por melanoma (HR 1,04, IC 95% 0,94–1,14, p = 0,52, n > 16.307).
Análises univariadas revelaram que fumantes atuais apresentaram maior risco de positividade do linfonodo sentinela em comparação com os nunca fumantes (HR 1,35, IC 95% 1,13–1,62, p = 0,001, n = 5.163).
| Conclusão |
A revisão revelou que pacientes com melanoma que são fumantes no momento do diagnóstico apresentaram maior probabilidade de morrer em decorrência do melanoma, desenvolver complicações cirúrgicas nos linfonodos e ter “positivo” no linfonodo sentinela. No entanto, ex-fumantes demonstraram um risco de mortalidade por melanoma semelhante ao dos que nunca fumaram.
Diante desses achados, é essencial que os clínicos incentivem seus pacientes com melanoma a interromper o hábito de fumar. Além disso, para compreender melhor os efeitos do tabagismo no desenvolvimento, progressão e resposta ao tratamento da doença, é fundamental coletar informações detalhadas sobre o status de tabagismo de todos os pacientes. Isso permitirá uma avaliação mais precisa do impacto do cigarro na eficácia dos tratamentos e nos desfechos clínicos.