| Introdução |
No mundo todo, o SARS-CoV-2 infectou mais de 700 milhões de indivíduos, com cerca de 7 milhões de mortes estimadas. Embora muitos se recuperem da COVID-19 aguda, uma proporção substancial experimenta efeitos de longo prazo, denominados COVID longa.
O sexo biológico parece ser uma fonte de variabilidade no desenvolvimento, apresentação e trajetórias longitudinais da COVID longa. Numerosos estudos têm demonstrado que homens têm casos mais graves de COVID-19 aguda e maior mortalidade do que mulheres. No entanto, a literatura sugere que mulheres podem ter maior risco de sintomas novos e persistentes após a infecção.
Os estudos ainda não levaram totalmente em conta fatores que podem distorcer a verdadeira estimativa do risco da COVID longa relacionado ao sexo biológico (por exemplo, idade, estado menstrual, comorbidades, estado de vacinação, variantes, gravidade da doença aguda e engajamento diferencial nos cuidados de saúde). Assim, ainda existem lacunas significativas na literatura sobre o risco de COVID longa relacionado ao sexo.
Por isso, Shah e colaboradores (2025) analisaram dados da coorte Researching COVID to Enhance Recovery (RECOVER) para compreender as diferenças no desenvolvimento de COVID longa entre participantes homens e mulheres.
| Métodos |
O Researching COVID to Enhance Recovery (RECOVER) consiste no acompanhamento de indivíduos de 33 estados dos Estados Unidos, além de Washington, DC e Porto Rico. Os dados foram examinados de todos os participantes inscritos entre 29 de outubro de 2021 e 5 de julho de 2024, que tiveram uma visita de estudo qualificada 6 meses ou mais após a infecção inicial por SARS-CoV-2.
Os principais resultados analisados foram o desenvolvimento da COVID longa, medido através de um questionário autoaplicável baseado em sintomas e uma diretriz de pontuação na primeira visita de estudo que ocorreu pelo menos seis meses após a infecção. O pareamento por escore de propensão foi usado para estimar razões de risco (RR) e diferenças de risco (IC de 95%). O modelo completo incluiu características demográficas e clínicas e determinantes sociais da saúde, e o modelo reduzido incluiu apenas idade, raça e etnia.
| Resultados |
A coorte incluiu 12.276 participantes, sendo 73% mulheres e 27% homens, com idade média de 46 anos. Destes, 3.814, 7.691 e 771 foram inscritos no período agudo, pós-agudo e crossover.
Os participantes do sexo masculino eram mais velhos do que os do sexo feminino (idade mediana de infecção, 52 anos versus 46 anos), apresentaram taxas mais altas de obesidade, asma e condições de saúde mental. Ademais, tiveram taxas mais altas de hospitalização durante a infecção aguda.
O sexo feminino foi associado a um maior risco de COVID longa. Essa descoberta foi observada em todos os grupos etários, exceto entre 18 e 39 anos. Ademais, foi associado a um risco geral significativamente maior de COVID-19 longa quando a análise foi restrita a participantes não grávidas. Entre aqueles com idade entre 40 e 54 anos, a razão de risco foi de 1,42 em participantes do sexo feminino na menopausa e 1,45 não menopausadas em comparação com participantes do sexo masculino.
Em conclusão, o sexo feminino foi associado a um risco aumentado de COVID longa em comparação com o sexo masculino, e essa associação foi dependente da idade, gravidez e estado menopausal. Essas descobertas destacaram a necessidade de identificar mecanismos biológicos que contribuam para a especificidade do sexo, a fim de facilitar a estratificação de risco, o desenvolvimento direcionado de medicamentos e a melhoria do gerenciamento da COVID longa.