O envelhecimento da população, ambientes obesogênicos e estilos de vida sedentários contribuem para o aumento da carga de doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares e AVC. Com o avanço da idade, essas condições tendem a ocorrer simultaneamente, levando à multimorbidade—quando duas ou mais doenças crônicas coexistem. Além disso, condições físicas crônicas frequentemente estão acompanhadas de distúrbios psicológicos e cognitivos.
Dados mostraram que a multimorbidade física, psicológica e cognitiva (PPC-MM) afeta entre 8,1% e 33,9% da população em diversos países. Esse padrão impacta a qualidade de vida e representa desafios sociais e econômicos para os sistemas de saúde globais. Por isso, identificar fatores que contribuem para essa condição ao longo da vida é essencial para mitigar seus efeitos.
Eventos estressantes da vida (SLEs), que abrangem uma ampla gama de experiências traumáticas, são um fator de risco relevante para diversas condições de saúde, incluindo multimorbidade física, psicológica e cognitiva. Estudos demonstraram que SLEs na infância, como conflitos familiares, relacionamentos ruins e perda dos pais, podem aumentar o risco de depressão e doenças crônicas. Na idade adulta, esses eventos estão associados a pior saúde física e mental, especialmente em indivíduos com predisposição para distúrbios psiquiátricos.
Embora publicações existentes tenham fornecido importantes insights sobre a relação entre SLEs e doenças crônicas, sua relação com a PPC-MM ainda não foi explorada.
Diante disso, Zhou e colaboradores (2025) analisaram os impactos dos eventos estressantes ao longo da vida na PPC-MM buscando identificar os padrões de transição associados ao risco em indivíduos expostos a SLEs na infância, na idade adulta ou em ambas as fases, em comparação com aqueles sem essa exposição. Além disso, investigaram de que maneira fatores de estilo de vida, como sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo, podem mediar essas associações.
Dados longitudinais de estudos de coorte do Programa Global de Envelhecimento, Saúde e Política foram agrupados abrangendo os anos de 2011 a 2020. Os participantes eram adultos de meia-idade e idosos (≥45 anos) sem multimorbidades físicas, psicológicas ou cognitivas inicialmente, e com informações sobre seis eventos estressantes vivenciados na infância e seis na idade adulta.
Com relação aos SLEs, esses foram classificados da seguinte forma: na infância, incluíram dificuldades financeiras, desemprego dos pais, abuso de substâncias pelos responsáveis, acolhimento em família substituta, divórcio e falecimento dos pais. Enquanto na idade adulta, abrangeram desemprego, escassez patrimonial, perda de um filho ou cônjuge, doença grave ou acidente e agressão física.
As multimorbidades foram avaliadas com base na coexistência de doenças físicas, psicológicas e cognitivas ao longo do acompanhamento. Paralelamente, três fatores de estilo de vida—sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo—foram considerados potenciais mediadores na análise.
Para estimar o risco de desenvolvimento ou progressão dessas doenças concomitantes ao longo do estudo, foram utilizados modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox, bem como modelos multiestado, que permitiram avaliar tanto a população combinada quanto cada estudo individualmente.
Durante o acompanhamento de 8 a 9 anos, 43,7% dos participantes desenvolveram PPC-MM, sendo que aqueles expostos a SLEs na infância e na idade adulta apresentaram maior risco de apresentarem doenças concomitantes. Os padrões identificados foram: multimorbidade física-psicológica (12,7%), psicológica-cognitiva (2,6%), física-cognitiva (17,2%) e física-psicológica-cognitiva (11,3%).
A análise estatística revelou uma relação dose-resposta entre o número de eventos estressantes e o risco de PPC-MM. Cada evento adicional na infância aumentou em 16% o risco de multimorbidade física-psicológica e em 29% o risco da física-psicológica-cognitiva. Na idade adulta, esse risco foi ainda maior, com elevação de 35% e 33% para multimorbidade física-psicológica e para psicológica-cognitiva, respectivamente.
Além disso, indivíduos que vivenciaram eventos estressantes em ambas as fases da vida apresentaram risco ainda mais significativo para ocorrência de condições crônicas múltiplas, reforçando a hipótese de um efeito acumulativo. Os eventos estressantes na idade adulta tiveram um impacto maior do que os da infância, sendo particularmente associados ao risco de multimorbidade físico-cognitiva e psicológico-cognitiva.
Entre os 24.955 participantes, 15,4% fizeram a transição para multimorbidade física-psicológica, 19,6% para física-cognitiva, 4,6% para psicológica-cognitiva e 8,3% diretamente para física-psicológica-cognitiva. Indivíduos que vivenciaram múltiplos eventos estressantes na idade adulta tiveram um risco 1,73 vezes maior de desenvolver PPC-MM, chegando a 2,10 vezes maior entre aqueles que vivenciaram mais de dois eventos estressantes.
Os fatores de estilo de vida apresentaram influência moderada na relação entre eventos estressantes e a coexistência de doenças crônicas. O tabagismo mediou entre 2,8% e 7,3% dos casos, enquanto o sedentarismo teve um impacto ligeiramente maior — 4,5% a 11,7%. O consumo de álcool demonstrou a maior influência como mediador, variando de 4,2% a 18,2%, dependendo do padrão de multimorbidade.
Os resultados indicaram que os eventos estressantes podem desencadear alterações em vias neurológicas e psicológicas, além de comprometer o sistema imunológico, aumentando o risco de multimorbidade ao longo da vida. Além disso, o estudo sugeriu que indivíduos inicialmente saudáveis podem ser mais vulneráveis aos impactos desses eventos ao longo da vida, reforçando a necessidade de estratégias preventivas desde cedo. A análise temporal confirmou a importância de intervenções direcionadas e personalizadas para reduzir o impacto da multimorbidade na população idosa, promovendo uma abordagem integrada de prevenção e cuidado.
Em síntese, eventos estressantes ao longo da vida mostraram uma forte associação (PPC-MM), sendo que apenas uma pequena parcela dessa relação foi mediada por fatores de estilo de vida, como sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo. Os achados de Zhou e colaboradores (2025) reforçaram a necessidade de estratégias preventivas abrangentes, que sejam iniciadas precocemente e integrem tanto aspectos sociais quanto mudanças no estilo de vida, promovendo uma abordagem mais eficaz na redução do impacto da multimorbidade ao longo do envelhecimento.
Publicado el 1 de junio de 2025
Impacto do estresse na saúde
Como o estresse pode impactar a saúde na terceira idade
Estudo revelou que eventos estressantes na infância e na idade adulta aumentaram o risco de multimorbidades físicas, psicológicas e cognitivas.
Autor/a: Zhou, Yaguan et al.
Fuente: eClinicalMedicine, v. 83, p. 103225, 2025. Stressful life events in childhood and adulthood and risk of physical, psychological and cognitive multimorbidities: a multicohort study
O envelhecimento da população, ambientes obesogênicos e estilos de vida sedentários contribuem para o aumento da carga de doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares e AVC. Com o avanço da idade, essas condições tendem a ocorrer simultaneamente, levando à multimorbidade—quando duas ou mais doenças crônicas coexistem. Além disso, condições físicas crônicas frequentemente estão acompanhadas de distúrbios psicológicos e cognitivos.
Dados mostraram que a multimorbidade física, psicológica e cognitiva (PPC-MM) afeta entre 8,1% e 33,9% da população em diversos países. Esse padrão impacta a qualidade de vida e representa desafios sociais e econômicos para os sistemas de saúde globais. Por isso, identificar fatores que contribuem para essa condição ao longo da vida é essencial para mitigar seus efeitos.
Eventos estressantes da vida (SLEs), que abrangem uma ampla gama de experiências traumáticas, são um fator de risco relevante para diversas condições de saúde, incluindo multimorbidade física, psicológica e cognitiva. Estudos demonstraram que SLEs na infância, como conflitos familiares, relacionamentos ruins e perda dos pais, podem aumentar o risco de depressão e doenças crônicas. Na idade adulta, esses eventos estão associados a pior saúde física e mental, especialmente em indivíduos com predisposição para distúrbios psiquiátricos.
Embora publicações existentes tenham fornecido importantes insights sobre a relação entre SLEs e doenças crônicas, sua relação com a PPC-MM ainda não foi explorada.
Diante disso, Zhou e colaboradores (2025) analisaram os impactos dos eventos estressantes ao longo da vida na PPC-MM buscando identificar os padrões de transição associados ao risco em indivíduos expostos a SLEs na infância, na idade adulta ou em ambas as fases, em comparação com aqueles sem essa exposição. Além disso, investigaram de que maneira fatores de estilo de vida, como sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo, podem mediar essas associações.
Dados longitudinais de estudos de coorte do Programa Global de Envelhecimento, Saúde e Política foram agrupados abrangendo os anos de 2011 a 2020. Os participantes eram adultos de meia-idade e idosos (≥45 anos) sem multimorbidades físicas, psicológicas ou cognitivas inicialmente, e com informações sobre seis eventos estressantes vivenciados na infância e seis na idade adulta.
Com relação aos SLEs, esses foram classificados da seguinte forma: na infância, incluíram dificuldades financeiras, desemprego dos pais, abuso de substâncias pelos responsáveis, acolhimento em família substituta, divórcio e falecimento dos pais. Enquanto na idade adulta, abrangeram desemprego, escassez patrimonial, perda de um filho ou cônjuge, doença grave ou acidente e agressão física.
As multimorbidades foram avaliadas com base na coexistência de doenças físicas, psicológicas e cognitivas ao longo do acompanhamento. Paralelamente, três fatores de estilo de vida—sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo—foram considerados potenciais mediadores na análise.
Para estimar o risco de desenvolvimento ou progressão dessas doenças concomitantes ao longo do estudo, foram utilizados modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox, bem como modelos multiestado, que permitiram avaliar tanto a população combinada quanto cada estudo individualmente.
Durante o acompanhamento de 8 a 9 anos, 43,7% dos participantes desenvolveram PPC-MM, sendo que aqueles expostos a SLEs na infância e na idade adulta apresentaram maior risco de apresentarem doenças concomitantes. Os padrões identificados foram: multimorbidade física-psicológica (12,7%), psicológica-cognitiva (2,6%), física-cognitiva (17,2%) e física-psicológica-cognitiva (11,3%).
A análise estatística revelou uma relação dose-resposta entre o número de eventos estressantes e o risco de PPC-MM. Cada evento adicional na infância aumentou em 16% o risco de multimorbidade física-psicológica e em 29% o risco da física-psicológica-cognitiva. Na idade adulta, esse risco foi ainda maior, com elevação de 35% e 33% para multimorbidade física-psicológica e para psicológica-cognitiva, respectivamente.
Além disso, indivíduos que vivenciaram eventos estressantes em ambas as fases da vida apresentaram risco ainda mais significativo para ocorrência de condições crônicas múltiplas, reforçando a hipótese de um efeito acumulativo. Os eventos estressantes na idade adulta tiveram um impacto maior do que os da infância, sendo particularmente associados ao risco de multimorbidade físico-cognitiva e psicológico-cognitiva.
Entre os 24.955 participantes, 15,4% fizeram a transição para multimorbidade física-psicológica, 19,6% para física-cognitiva, 4,6% para psicológica-cognitiva e 8,3% diretamente para física-psicológica-cognitiva. Indivíduos que vivenciaram múltiplos eventos estressantes na idade adulta tiveram um risco 1,73 vezes maior de desenvolver PPC-MM, chegando a 2,10 vezes maior entre aqueles que vivenciaram mais de dois eventos estressantes.
Os fatores de estilo de vida apresentaram influência moderada na relação entre eventos estressantes e a coexistência de doenças crônicas. O tabagismo mediou entre 2,8% e 7,3% dos casos, enquanto o sedentarismo teve um impacto ligeiramente maior — 4,5% a 11,7%. O consumo de álcool demonstrou a maior influência como mediador, variando de 4,2% a 18,2%, dependendo do padrão de multimorbidade.
Os resultados indicaram que os eventos estressantes podem desencadear alterações em vias neurológicas e psicológicas, além de comprometer o sistema imunológico, aumentando o risco de multimorbidade ao longo da vida. Além disso, o estudo sugeriu que indivíduos inicialmente saudáveis podem ser mais vulneráveis aos impactos desses eventos ao longo da vida, reforçando a necessidade de estratégias preventivas desde cedo. A análise temporal confirmou a importância de intervenções direcionadas e personalizadas para reduzir o impacto da multimorbidade na população idosa, promovendo uma abordagem integrada de prevenção e cuidado.
Em síntese, eventos estressantes ao longo da vida mostraram uma forte associação (PPC-MM), sendo que apenas uma pequena parcela dessa relação foi mediada por fatores de estilo de vida, como sedentarismo, consumo de álcool e tabagismo. Os achados de Zhou e colaboradores (2025) reforçaram a necessidade de estratégias preventivas abrangentes, que sejam iniciadas precocemente e integrem tanto aspectos sociais quanto mudanças no estilo de vida, promovendo uma abordagem mais eficaz na redução do impacto da multimorbidade ao longo do envelhecimento.