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Publicado el 11 de agosto de 2026

Monitoramento continuo de glicose

Como a visualização da glicose em tempo real otimiza o controle metabólico e o estilo de vida no Diabetes Tipo 2

Ensaio clínico FreeDM2 comprovou que o monitoramento contínuo de glicose em tempo real (rt-CGM) superou a glicemia capilar no diabetes tipo 2 de difícil controle sob terapias triplas modernas.

Autor/a: Wilmot E, Moore P, Sathyapalan T et al.

Fuente: The Lancet Diabetes & Endocrinology, V. 14, p. 463-474, 2026 Continuous glucose monitoring versus self-monitoring of blood glucose in individuals with type 2 diabetes: a randomised, multicentre, open-label, superiority trial

Nos últimos anos, o arsenal terapêutico para o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) evoluiu substancialmente. Ensaios clínicos demonstraram o impacto positivo na redução de desfechos clínicos adversos com a introdução de terapias modernas, especificamente os inibidores de SGLT2 (iSGLT2), os agonistas dos receptores de GLP-1 (aGLP-1) e os coagonistas duplos dos receptores de GIP/GLP-1. No entanto, independente da introdução dessas inovações farmacológicas, uma parcela expressiva de pacientes ainda não consegue atingir as metas recomendadas de controle glicêmico.

Nesse cenário, o monitoramento contínuo da glicose (CGM) surge como uma ferramenta promissora. Ao possibilitar a visualização direta e em tempo real dos valores glicêmicos, o CGM tem o potencial de influenciar positivamente no comportamento do paciente, incluindo na ingestão alimentar, na atividade física e no geral da glicose.

Embora o benefício do CGM na melhora dos desfechos glicêmicos esteja descrito na literatura, Wilmot et al., (2026) elaboraram o estudo FreeDM2 com o objetivo de avaliar a eficácia e a segurança do monitoramento contínuo de glicose em tempo real (rt-CGM) em adultos com DM2 que não atingiam as metas de hemoglobina glicada (HbA1c) preconizadas, mesmo em uso de insulina basal associada a inibidores de SGLT2, aGLP-1 ou coagonistas GIP/GLP-1. Para compreender melhor a dinâmica do dispositivo, o ensaio clínico estruturou-se em duas fases: uma primeira etapa voltada para a avaliação do automanejo do paciente (com autoajuste da dose de insulina) e uma segunda focada na intensificação terapêutica apoiada pela equipe médica.

O FreeDM2 foi um ensaio clínico controlado, randomizado, de desenho paralelo, aberto, multicêntrico e de superioridade. O estudo foi conduzido em 24 centros de atenção primária e secundária localizados no Reino Unido. Foram incluídos adultos com idade igual ou superior a 18 anos, com diagnóstico de DM2 há pelo menos um ano, nível basal de HbA1c entre 7,5% e 11,0% e em uso, de no mínimo três meses, de um esquema terapêutico contendo uma associação de insulina basal com inibidores de SGLT2, agonistas do receptor de GLP-1 ou coagonistas duplos de receptor de GIP/GLP-1 (ou uma combinação de ambos), com ou sem outras terapias anti-hiperglicêmicas orais.

Antes de serem efetivamente submetidos à randomização, todos os indivíduos que passaram com sucesso pela triagem inicial foram incluídos em uma fase basal (run-in) de 14 dias, período no qual utilizaram tanto um sensor de CGM FreeStyle Libre 3 quanto um acelerômetro. Apenas os pacientes que obtiveram no mínimo 70% de dados capturados pelo sensor de CGM foram considerados aptos para a randomização. Após, os pacientes foram randomizados em uma proporção de 2:1 para o grupo de intervenção (CGM) ou para o grupo controle de automonitoramento tradicional da glicemia capilar (SMBG).

Após a randomização, o protocolo clínico estendeu-se por 32 semanas consecutivas divididas em duas etapas metodologicamente. A primeira etapa compreendeu as semanas 1 a 16, caracterizando-se como uma fase de autogerenciamento. Durante esse intervalo, os pacientes receberam orientações verbais e escritas detalhadas para realizar o autoajuste (titulação) da dose de insulina basal guiada pelos dados do seu respectivo método de monitoramento. No grupo intervenção, os pacientes utilizaram o sistema FreeStyle Libre 3 com alarmes opcionais e receberam treinamento focado na análise retrospectiva dos padrões de glicose. A segunda etapa ocorreu entre as semanas 17 e 32, consistindo em uma fase de apoio clínico na qual os participantes revisaram seus registros glicêmicos e exames de HbA1c com profissionais de saúde em consultas que podiam ser presenciais ou remotas, viabilizando a intensificação de tratamentos e o acréscimo de novas drogas anti-hiperglicêmicas de acordo com as necessidades individuais e em conformidade com as diretrizes clínicas nacionais.

Para avaliar o impacto das intervenções, amostras de sangue para dosagem de HbA1c foram colhidas no início do estudo, na semana 16 e na semana 32, com processamento centralizado em laboratório. Para fins comparativos sob cegamento, o grupo controle utilizou sensores de CGM mascarados durante as duas semanas anteriores às consultas das semanas 16 e 32, permitindo que os investigadores extraíssem métricas glicêmicas padronizadas internacionalmente, tais como o tempo no alvo (3,9 a 10,0 mmol/L), tempo no alvo estreito (3,9 a 7,8 mmol/L), tempo em hiperglicemia e tempo em hipoglicemia. Os níveis de atividade física foram monitorados objetivamente por meio do uso de um acelerômetro triaxial de pulso mascarado (GENEActiv) por duas semanas antes de cada visita final. A coleta de dados englobou também variações de peso corporal, índice de massa corporal (IMC), pressão arterial, consumo de fármacos anti-hiperglicêmicos e questionários psicométricos validados para medir a satisfação com o monitoramento, qualidade da dieta, confiança e medo associados à hipoglicemia, e índices de satisfação com o sono.

Por fim, o desfecho primário do FreeDM2 foi estabelecido como a diferença média de HbA1c entre os dois grupos na semana 16, enquanto a diferença média na semana 32 figurou como o desfecho secundário. Outros desfechos de eficácia incluíram as taxas de atingimento de metas específicas de HbA1c (≤7,0%, ≤7,5% e ≤8,0%), proporções de redução clínica absoluta ou relativa do indicador, métricas detalhadas obtidas pelos sensores e desfechos de segurança, mapeados pela ocorrência de eventos adversos gerais, cetose e episódios de hipoglicemia grave.

No total, 303 participantes foram incluídos no estudo. Desses, 198 foram alocados no grupo de intervenção com monitoramento contínuo de glicose em tempo real (rt-CGM) e 105 no grupo controle de automonitoramento por glicemia capilar (SMBG). A coorte do estudo apresentou uma média de idade de 60,7 anos, tempo médio de diagnóstico de diabetes de 16,7 anos e uma distribuição demográfica caracterizada por 67% de participantes do sexo masculino e 84% de etnia branca.

No início, a HbA1c basal média era idêntica em ambos os braços, registrando 8,8%. Ao final da fase de autogerenciamento, na semana 16, o grupo que utilizou rt-CGM apresentou uma redução expressiva da HbA1c média para 8,0%, enquanto o grupo controle obteve apenas 8,7%, determinando uma diferença média ajustada de -0,6 pontos percentuais altamente favorável à intervenção. Essa superioridade metabólica consolidou-se ao final do período de acompanhamento clínico na semana 32, quando a HbA1c recuou para 7,8% no grupo rt-CGM e para 8,3% no grupo controle, estabelecendo uma diferença média ajustada sustentada de -0,5 pontos percentuais.

A análise de alcance de alvos terapêuticos evidenciou taxas de sucesso clínico significativamente maiores no grupo de intervenção. Na semana 16, 15% dos participantes do grupo rt-CGM atingiram a meta estrita de HbA1c inferior ou igual a 7,0% frente a meros 2% no grupo controle, com superioridade também observada para as metas de HbA1c de ≤7,5% e ≤8,0%. Embora a diferença absoluta entre os grupos tenha se tornado menos acentuada na semana 32 após a intervenção clínica em ambos os braços, a proporção de pacientes que atingiram os patamares de controle permaneceu estatisticamente favorável ao rt-CGM, com 20% do grupo intervenção alcançando uma HbA1c inferior a 7,0%. As métricas glicêmicas de leitura dos sensores confirmaram de forma direta essa melhora no perfil metabólico.

O tempo na faixa de alvo glicêmico recomendado de 3,9 a 10,0 mmol/L (TIR, ou Time in Range) partiu de um patamar de cerca de 39,7% no grupo intervenção para atingir 54,0% na semana 16 e progredir para 60,2% na semana 32, ao passo que o grupo controle exibiu TIR de 45,1% e 50,1% nas mesmas datas, resultando em diferenças médias ajustadas estatisticamente robustas de 10,4% e 10,6%, respectivamente. Essa ampliação do TIR foi acompanhada por reduções significativas no tempo despendido em hiperglicemia acentuada (glicemias superiores a 10,0 mmol/L, 13,9 mmol/L e 16,7 mmol/L), sem que houvesse qualquer elevação indesejada do tempo em faixas de hipoglicemia, que permaneceu em níveis mínimos e semelhantes em ambos os grupos de participantes.

Notavelmente, durante as primeiras 16 semanas de autogerenciamento, as melhoras acentuadas de controle glicêmico ocorreram sem que houvesse qualquer diferença significativa entre os grupos nas doses diárias de insulina administradas ou no número de trocas de fármacos não insulínicos, sugerindo fortemente que os benefícios glicêmicos precoces foram capitaneados por mudanças comportamentais e de estilo de vida induzidas pelo feedback visual imediato das curvas glicêmicas. Esta interpretação foi apoiada pelos dados objetivos de acelerometria na semana 16, que revelaram um aumento clinicamente relevante no volume de atividade física diária geral e no tempo de atividade leve no grupo rt-CGM, além de melhoras temporárias nos índices de qualidade dietética mapeados por questionário estruturado. Na fase subsequente de intervenção médica, a disponibilidade dos dados de monitoramento contínuo direcionou de forma mais eficaz a escalada do tratamento pelo corpo clínico, resultando em uma probabilidade quatro vezes maior de início de insulina prandial no grupo rt-CGM do que no controle, provavelmente pela identificação facilitada de picos glicêmicos pós-prandiais que de outra forma passariam despercebidos.

No que tange à satisfação, aceitação e aspectos psicométricos, o monitoramento contínuo promoveu reduções expressivas na sobrecarga emocional e comportamental relacionada ao manejo do diabetes, além de incrementos expressivos na autoconfiança para evitar episódios hipoglicêmicos, motivando uma adesão extraordinária ao uso do rt-CGM, cuja mediana de uso ativo do dispositivo superou 97,6% em ambas as fases. No âmbito da segurança, a incidência geral de eventos adversos graves e não relacionados ao dispositivo foi equivalente nos dois braços do ensaio. Reações dermatológicas e queixas locais no sítio de inserção do sensor representaram a totalidade das ocorrências adversas relacionadas ao dispositivo, consistindo majoritariamente em eritema leve, prurido localizado, pequenos hematomas ou sangramento pontual e dor transitória.

Em conclusão, o ensaio clínico randomizado FreeDM2 demonstrou que a utilização de monitoramento contínuo de glicose em tempo real promoveu reduções clínica e estatisticamente superiores nos níveis de hemoglobina glicada em adultos com DM2 que mantêm controle inadequado mesmo em uso de insulinoterapia basal associada a fármacos modernos. O estudo inovou ao ilustrar que esses benefícios glicêmicos foram sustentados por meio de duas vertentes complementares: em um primeiro momento, pela capacitação do autogerenciamento ativo do paciente, estimulando ajustes imediatos e bem-sucedidos em hábitos alimentares e de atividade física e, sequencialmente, pelo fornecimento de dados contínuos altamente qualificados que otimizam as decisões clínicas de intensificação farmacológica por parte dos profissionais de saúde. Ao evidenciar um perfil de segurança impecável, livre de elevações nas taxas de hipoglicemia e associado a altos índices de satisfação dos usuários, o FreeDM2 forneceu respaldo científico de alto nível para a incorporação do rt-CGM na prática clínica diária de manejo do diabetes tipo 2 de difícil controle.