Um esforço internacional de pesquisa projetou um aumento significativo nos casos e mortes por câncer em todo o mundo até 2050. O estudo, intitulado "Global Disparities of Cancer and Its Projected Burden in 2050", publicado no JAMA Network Open, alertou para o aumento das disparidades entre países com baixos índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e os com IDH muito alto, pedindo uma ação urgente na prevenção e tratamento do câncer globalmente.
A pesquisa analisou dados de 36 tipos de câncer em 185 países e territórios, utilizando o banco de dados Global Cancer Observatory. As informações foram organizadas por fatores demográficos, como faixas etárias, sexo, regiões geográficas e o índice de IDH, que reflete as conquistas médias de saúde, educação e renda de um país.
Os pesquisadores coletaram dados sobre a quantidade de pessoas diagnosticadas com câncer e sua mortalidade, ajustando esses números para as diferenças nas distribuições etárias das populações. Esse indicador é conhecido como a Razão Mortalidade/Incidência (MIR), calculado dividindo o número de mortes por câncer pelo número de novos casos. Uma MIR mais alta sugere que mais pessoas diagnosticadas com câncer estão morrendo, indicando taxas de sobrevivência mais baixas.
Para estimar como as taxas de câncer podem mudar até 2050, os pesquisadores usaram projeções populacionais da ONU, assumindo que as taxas de incidência de câncer permaneceriam as mesmas, aplicando esses dados à população global, que será maior e mais envelhecida em 2050.
Os resultados indicaram que os casos de câncer devem aumentar em 76,6%, passando de 20 milhões em 2022 para 35,3 milhões em 2050. A mortalidade deve crescer 89,7%, atingindo 18,5 milhões em 2050, comparado a 9,7 milhões em 2022.
As disparidades são especialmente evidentes entre países com diferentes níveis de IDH. Países com baixo IDH devem ver os casos de câncer quase triplicarem até 2050, com um aumento de 142,1% nos casos e de 146,1% nas mortes. Em contraste, países com IDH muito alto devem enfrentar um aumento de 41,7% nos casos e de 56,8% nas mortes.
Também foram observadas variações na carga do câncer entre regiões, faixas etárias e sexos. Em 2022, os homens tinham taxas mais altas de incidência e mortalidade, e essa disparidade deve aumentar em até 16% até 2050.
A MIR para todos os tipos de câncer era de 46,6% em 2022, o que indica que quase metade dos casos diagnosticados de câncer resultaram em morte. As mais altas foram observadas no câncer pancreático (89,4%) entre os homens (51,7%), indivíduos com 75 anos ou mais (64,3%), países com baixo IDH (69,9%) e na região africana (67,2%).
A África deve experimentar o maior aumento em casos e mortes por câncer, com projeções de um aumento de 139,4% nos casos e de 146,7% nas mortes até 2050. A Europa deve ter o menor aumento de casos de câncer (24,6%) e mortes (36,4%).
Apesar das altas taxas de incidência, países com IDH muito alto, como a Austrália, têm MIRs mais baixas, sugerindo melhores taxas de sobrevivência devido à infraestrutura de saúde avançada e ao acesso a serviços de detecção precoce e tratamento. Países com baixo IDH enfrentam desafios nessas áreas, o que contribui para as MIRs mais altas.
Espera-se que os homens enfrentem um aumento maior nos casos de câncer (84,3%) e nas mortes (93,2%) até 2050, em comparação com as mulheres, que devem ver aumentos de 68,5% e de 85,2%, respectivamente. Fatores como maior exposição a fatores de risco modificáveis, como uso de tabaco e álcool, além da subutilização de exames de rastreamento e opções de tratamento quando disponíveis, podem contribuir para essa disparidade.
O estudo conclui que "fortalecer o acesso e a qualidade dos cuidados de saúde, incluindo cobertura universal de seguro de saúde, e os sistemas de saúde na prevenção, diagnóstico precoce, manejo e tratamento do câncer serão fundamentais para melhorar os resultados clínicos e retardar as tendências projetadas".