Artículos

Publicado el 19 de noviembre de 2024

Impacto do SARS-CoV-2

Características e preditores da COVID Longa em crianças

Estudo revela os impactos duradouros da COVID longa, identificando preditores e o papel das vacinas no risco de persistência dos sintomas

Autor/a: Camporesi, Anna et al.

Fuente: eClinicalMedicine, Volume 76, 102815 Characteristics and predictors of Long Covid in children: a 3-year prospective cohort study

Vários estudos independentes demonstraram que a infecção pelo SARS-CoV-2 pode causar um padrão duradouro de sintomas debilitantes que atualmente afetam milhões de pessoas em todo o mundo. Essa condição, conhecida como Covid Longa, é caracterizada pela persistência de sinais e sintomas que não estavam presentes antes da infecção pelo SARS-CoV-2 e duram pelo menos 12 semanas, impactando negativamente a vida diária.

A COVID longa tem sido amplamente descrita tanto em adultos quanto em crianças, particularmente em adolescentes. No último ano, houve um progresso substancial na compreensão desse fenômeno, com vários estudos lançando luz sobre seus mecanismos subjacentes. A pesquisa pediátrica tem se concentrado principalmente em estudos observacionais, descrevendo sintomas relatados principalmente pelos pais por telefone ou pesquisas online, ou em grandes conjuntos de dados de registros eletrônicos de saúde. No entanto, nesse grupo, os desfechos a longo prazo e seus preditores são poucos descritos.

Por isso, Camporesi e colaboradores (2024) investigaram a persistência de sintomas a longo prazo e os fatores de risco para o desenvolvimento da COVID Longa em uma grande coorte de crianças usando avaliações clínicas realizadas até 36 meses após a infecção.

Para isso, crianças entre 0 e 18 anos, com infecção confirmada por SARS-CoV-2, foram convidadas a participar de uma avaliação de acompanhamento prospectivo em uma clínica pediátrica pós-Covid em Roma, Itália, em intervalos sequenciais (3, 6, 12, 18, 24 e 36 meses após o início da infecção, entre 01/02/2020 e 28/02/2024). A Covid Longa foi definida como a persistência de sintomas inexplicáveis por pelo menos três meses após a infecção inicial.

Foram incluídos 1.319 pacientes, com idade média de 87 meses, sendo 45,9% do sexo feminino e 14,4% apresentaram comorbidades pré-existentes. Durante a infecção aguda, 8,6% estavam assintomáticos, 88,6% apresentaram quadro leve, 2,2% moderado e 0,2% grave da COVID-19. A maioria das crianças foi diagnosticada com o vírus quando a variante Ômicron estava predominante (71,2%). A maioria (79,6%) dessas não estavam vacinadas antes da infecção, enquanto respectivamente 6,2% (82), 12,6% (166) e 5,2% (20) haviam recebido uma, duas e três doses da vacina contra a COVID-19.

Febre (66,7%), rinite (45,9%), tosse (36,8%), fadiga (22,3%) e dor de cabeça (22,2%) foram os sintomas mais frequentemente relatados durante a fase aguda.

Entre os 1.296 pacientes que realizaram uma avaliação de acompanhamento aos 3 meses, 23,2% relataram sintomas persistentes ou novos, com impacto negativo nas atividades diárias, atendendo aos critérios para COVID Longa. Durante os seis meses, 13,2% permaneceram sintomáticos, 7,9% aos 12 meses, 6,1% aos 18 meses e 7,1% aos 24 meses. Apenas 47 crianças atingiram o marco de 36 meses, das quais 11 apresentaram sintomas persistentes. Apenas 0,4% foram diagnosticadas com Síndrome Inflamatória Multissistêmica (MIS-C). Os sintomas persistentes mais relatados no primeiro acompanhamento, três meses após a infecção, foram fadiga (13,1%), dispneia de esforço (6,3%), dor de cabeça (5,9%) e sintomas gastrointestinais (4,9%).

Ademais, 15 pacientes (1,1%) desenvolveram distúrbios autoimunes. Em particular, dois pacientes desenvolveram Tireoidite de Hashimoto, quatro Doença Celíaca, um Lúpus Eritematoso Sistêmico, três Urticária Autoimune Crônica, e os outros cinco apresentaram doença autoimune do tecido conectivo não diferenciada. A infecção pela variante original do SARS-CoV-2 foi associada a um risco maior de desenvolver distúrbios autoimunes.

Para o desfecho primário da Covid Longa aos três, seis, doze e dezoito meses, foram realizados modelos de análise de regressão logística multivariada para cada ponto de tempo, incluindo idade, vacinação, variante do SARS-CoV-2, sexo feminino e presença de comorbidades. Idade avançada, comorbidades, infecção durante as variantes original e alfa e sexo feminino foram preditores da COVID Longa aos três meses, e a maioria desses também se manteve aos seis, doze e dezoito meses de acompanhamento. Em particular, encontramos que aos 12 anos houve um aumento acentuado no risco de Covid Longa. Ademais, em particular, a infecção com variantes pré-Ômicron permaneceu um fator de risco estatisticamente significativo para o desenvolvimento da COVID Longa.

Embora a vacinação não tenha mostrado um efeito protetor geral para a COVID Longa isoladamente, seu papel foi analisado em diferentes faixas etárias, número de doses recebidas e variantes do SARS-CoV-2. Para crianças de 0 a 4 anos, como praticamente nenhum paciente foi vacinado, não foi possível realizar a análise.

Para crianças de 5 a 11 anos, foi observado um efeito significativo de três doses da vacina na presença de Covid Longa aos 3 meses, no sentido de redução. Para crianças de 12 anos ou mais, uma dose da vacina teve um efeito significativo na redução da probabilidade da COVID Longa aos 3 meses a partir dos 14 anos.

Os dados sobre reinfecções foram obtidos de 1.125 pacientes. No total, 19% tiveram uma reinfecção documentada e 2,58% tiveram duas. Nenhum desses pacientes precisou de internação. Um paciente foi diagnosticado com COVID Longa após uma reinfecção.

Ter comorbidades, ser infectado por variantes pré-Ômicron e ter sido diagnosticado com Covid Longa aos três meses de acompanhamento estavam significativamente associados a um risco maior de reinfecções. No entanto, apenas uma infecção inicial assintomática foi significativamente associada a uma reinfecção sintomática.

A probabilidade de uma nova infecção foi estudada conforme a idade do paciente e o número de doses de vacina recebidas. Não houve efeito significativo de uma dose de vacina em comparação com nenhuma vacina, mas foi observada uma redução significativa na probabilidade de uma nova infecção com 2 doses de vacina em qualquer idade e uma redução significativa da probabilidade com 3 doses de vacina após os 14 anos.

Em conclusão, os autores mostraram um impacto significativo e duradouro da COVID Longa em crianças e adolescentes, com duração de até 36 meses após a infecção inicial. Além de fornecer vários preditores demográficos e clínicos, também encontraram uma associação entre as ondas iniciais da pandemia e o desenvolvimento de doenças autoimunes após a infecção pelo SARS-CoV-2, ampliando o conhecimento sobre a ligação entre infecções virais e eventos imunológicos subsequentes. As vacinas contra a COVID-19 estiveram associadas a um menor risco de desenvolvimento da COVID Longa, especialmente em adolescentes, enquanto as reinfecções tiveram um impacto mínimo na maioria dos pacientes, embora tenha sido identificado um caso de Covid Longa após reinfecção. Em conjunto, os achados reforçaram a necessidade urgente de financiar centros clínicos e de pesquisa para desenvolver testes diagnósticos, avaliar se a inflamação crônica está envolvida na Covid Longa pediátrica e explorar estratégias terapêuticas.