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Publicado el 9 de agosto de 2026

Asma pediátrica

Budesonida-formoterol por demanda: O novo paradigma no manejo da asma leve pediátrica

O uso de budesonida-formoterol por demanda demonstrou ser significativamente mais eficaz que o salbutamol isolado na prevenção de exacerbações em pacientes de 5 a 15 anos

A associação de um corticoide inalatório (CI) com o formoterol é, atualmente, o tratamento preferencial para adolescentes e adultos com asma leve. Essa recomendação é sustentada por evidências de ensaios clínicos randomizados que reportaram reduções relativas nas crises de asma em comparação à monoterapia com agonista β₂ de curta duração (SABA). No entanto, os dados específicos para a população adolescente são limitados. A lacuna de evidências é ainda mais acentuada para a faixa etária pediátrica, uma vez que não foram identificados estudos comparando o uso de CI-formoterol versus SABA isolado em crianças menores de 12 anos. Esse cenário é clinicamente relevante, pois a asma representa uma das doenças crônicas mais comuns na infância, associando-se a uma morbidade considerável e ao risco de morte.

Com base nessas premissas, Hatter e colaboradores (2025) realizaram um estudo para testar a hipótese de que o uso de budesonida-formoterol reduz a taxa de crises de asma em comparação ao salbutamol em crianças e adolescentes. Para isso, os autores desenharam um ensaio clínico randomizado, controlado, de fase três, aberto, multicêntrico e de superioridade denominado Children’s Anti-Inflammatory Reliever (CARE). O estudo teve duração de 52 semanas e foi conduzido em quinze centros de pesquisa da Nova Zelândia. A amostra incluiu crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos com diagnóstico médico de asma que utilizavam exclusivamente SABA como terapia de alívio. Para serem elegíveis, os participantes precisavam apresentar pelo menos um critério de risco no ano anterior, como o uso de SABA por três ou mais dias consecutivos, uso médio de pelo menos dois dias por mês ou a necessidade de atendimento médico urgente por agravamento da asma. Foram excluídos aqueles que utilizaram outras medicações de controle nos seis meses anteriores, pacientes com histórico de internação hospitalar por asma superior a 24 horas nos últimos 12 meses ou casos prévios de asma fatal com admissão em UTI.

A randomização ocorreu na proporção 1:1, sendo estratificada por faixa etária (5–11 e 12–15 anos) e pelo histórico de crises graves no último ano. No braço de intervenção, os participantes receberam a combinação de budesonida 50 μg e formoterol 3 μg (dois jatos sob demanda) para o alívio dos sintomas. O grupo controle utilizou salbutamol 100 μg (dois jatos sob demanda) conforme necessário. O protocolo previu o escalonamento do tratamento em caso de crises graves: no grupo salbutamol, a terapia evoluía para o uso regular de CI, enquanto no grupo budesonida-formoterol, a dose era ajustada para uso fixo e por demanda (terapia MART).

O desfecho primário definido foi a taxa de crises de asma por participante ao ano, considerando crises moderadas e graves. Como desfechos secundários, os pesquisadores avaliaram a taxa isolada de crises graves, o controle da asma pelo questionário ACQ-5, a função pulmonar (VEF₁), os níveis de óxido nítrico exalado (FeNO), a velocidade de crescimento e a ocorrência de eventos adversos.

Entre janeiro de 2021 e junho de 2023, o estudo avaliou 382 participantes, dos quais 360 foram randomizados (179 para o grupo budesonida-formoterol e 181 para o grupo salbutamol). A idade média da amostra foi de 10 anos, com um perfil basal que incluía 21% de pacientes com histórico de ao menos uma crise grave nos 12 meses anteriores à inclusão no estudo. O desfecho primário revelou que a taxa anualizada de crises de asma foi significativamente menor no grupo que utilizou budesonida-formoterol por demanda em comparação ao grupo salbutamol, com uma redução relativa de 45% no risco de crises.

Análises de subgrupo sugeriram que o efeito terapêutico da budesonida-formoterol foi potencialmente mais pronunciado em crianças mais velhas (12–15 anos) do que nas mais jovens (5–11 anos), bem como em pacientes do sexo masculino e naqueles com níveis basais elevados de óxido nítrico exalado (FeNO ≥ 44 ppb). No que tange às crises graves, observou-se uma taxa de 0,11 no grupo intervenção versus 0,18 no controle. Embora o ponto de estimativa tenha favorecido a budesonida-formoterol com uma redução de 40%, esse desfecho secundário não atingiu significância estatística. Contudo, o tempo para a primeira crise de asma (moderada ou grave) foi significativamente maior no grupo intervenção.

Outro achado relevante foi que os participantes do grupo budesonida-formoterol tiveram uma probabilidade significativamente maior de permanecer no Step 1 de tratamento ao final de 52 semanas, indicando uma menor necessidade de escalonamento para terapias de manutenção fixa. Não foram observadas diferenças significativas entre os grupos em relação ao controle da asma medido pelo ACQ-5, na VEF₁ ou na velocidade de crescimento estatural.

Quanto à segurança, o perfil foi similar entre as duas estratégias, com 91% dos participantes no grupo budesonida-formoterol e 92% no grupo salbutamol relatando ao menos um evento adverso, sendo as infecções das vias aéreas superiores e a própria asma os mais comuns. Eventos adversos graves foram raros, ocorrendo em 3% e 4% do grupo intervenção e controle, respectivamente, e a maioria não apresentou relação com as medicações do estudo. Além disso, o grupo budesonida-formoterol tendeu a utilizar uma dose total média menor de corticoide oral (18,5 mg vs. 26,6 mg no grupo salbutamol) ao longo do seguimento.

Em suma, Hatter e colaboradores (2025) demonstraram que, em crianças e adolescentes de 5 a 15 anos com asma leve, a terapia de alívio com budesonida-formoterol por demanda foi superior ao uso isolado de salbutamol na prevenção de crises de asma, promovendo uma redução de 45% na taxa anual de exacerbações. Esta estratégia mostrou-se segura, sem evidências de prejuízo na velocidade de crescimento estatural, na função pulmonar ou no controle clínico dos sintomas (ACQ-5), apresentando um perfil de eventos adversos comparável ao do tratamento padrão com SABA. Tais achados forneceram evidências robustas que fundamentaram a extensão das recomendações para o uso de combinações de CI-formoterol como alívio para a faixa etária pediátrica a partir dos 5 anos, visando mitigar o risco de crises mesmo em pacientes com doença de baixa gravidade aparente.