A cada ciclo olímpico, atletas e equipes de suporte buscam os conhecimentos mais avançados e inovadores na busca pela medalha de ouro. Nos Jogos Olímpicos de Inverno, tanto os fatores ambientais quanto as exigências específicas de cada modalidade impõem desafios únicos ao desempenho esportivo. Por exemplo, muitos atletas relatam sintomas respiratórios e limitações relacionadas à respiração. Ao mesmo tempo, cresce o interesse pelo conceito de breathwork (técnicas respiratórias) ou de “retreinamento respiratório”, impulsionado pelo desejo de otimizar o desempenho atlético. Portanto, é compreensível que o uso de técnicas, dispositivos e orientações de chamados “gurus da respiração” tenha se tornado cada vez mais comum.
Historicamente, porém, o sistema respiratório não tem sido considerado uma limitação importante ao desempenho esportivo, nem algo que devesse ser manipulado para melhorar a performance. Tradicionalmente, acreditava-se que, durante o exercício, a respiração funcionava de forma predominantemente autônoma, respondendo apenas à demanda metabólica e buscando minimizar o custo energético da ventilação por meio da regulação precisa dos volumes pulmonares operacionais, da ativação dos músculos respiratórios e de suas relações comprimento-tensão. Assim, observa-se frequentemente que o sistema respiratório mantém uma reserva ventilatória, mesmo durante exercícios realizados até a exaustão. Dessa forma, costuma-se considerar que ele é “superdimensionado” (isto é, a capacidade respiratória máxima excede as demandas impostas durante o exercício intenso), especialmente quando comparado ao sistema cardiovascular.
Entretanto, essa suposição contrasta com a alta prevalência de desconforto respiratório relatada por atletas. Uma sensação desagradável de falta de ar excessiva (ou seja, acima do limite considerado normal) é descrita por cerca de metade dos indivíduos fisicamente ativos. Além disso, essa visão provavelmente não leva em conta o impacto de alterações mais complexas, como limitação do fluxo expiratório, fraqueza dos músculos respiratórios e distúrbios do padrão respiratório, que podem surgir durante exercícios vigorosos, causando dispneia e, consequentemente, comprometendo o desempenho esportivo. A inalação de ar frio e seco durante a prática de esportes de inverno pode agravar ainda mais esse quadro.
Estudos epidemiológicos também contestaram a ideia de que o sistema respiratório seja superdimensionado para o exercício, ao demonstrarem uma alta frequência de sintomas respiratórios durante a prática esportiva. Isso pode ser parcialmente explicado pelo fato de que alguns atletas apresentam elevado risco de desenvolver limitações respiratórias decorrentes tanto de condições clínicas ou doenças quanto de alterações que seriam mais adequadamente classificadas como disfunções funcionais.
Nesse contexto, aproximadamente um quarto dos atletas de endurance desenvolve algum tipo de disfunção das vias aéreas inferiores, geralmente caracterizada pela presença de hiper-responsividade das vias aéreas, com ou sem broncoconstrição induzida pelo exercício. Essa condição frequentemente se desenvolve na ausência do perfil típico de biomarcadores observado na asma, ou seja, sem a presença dos marcadores inflamatórios do tipo 2.
Também é amplamente reconhecido que outros distúrbios respiratórios funcionais são prevalentes entre atletas e podem prejudicar o desempenho esportivo. Especificamente, estima-se que até 8% dos jovens atletas relatem dificuldades respiratórias decorrentes de um fechamento transitório da entrada da laringe durante exercícios intensos. Essa condição, denominada obstrução laríngea induzida pelo exercício (EILO), aumenta o trabalho respiratório e pode coexistir com a asma. Além disso, anormalidades no padrão respiratório, conhecidas como respiração disfuncional ou distúrbios do padrão respiratório, afetam até um terço dos atletas, podendo comprometer a eficiência ventilatória.
Esses problemas não apenas são frequentemente subdiagnosticados ou diagnosticados de forma incorreta, mas também costumam apresentar atrasos significativos no encaminhamento para avaliação especializada. Isso pode explicar a elevada prevalência de falta de ar observada tanto em atletas de elite quanto na população fisicamente ativa em geral.
Ao longo da última década, cresceu o interesse na possibilidade de modificar ou aperfeiçoar os padrões respiratórios durante a prática esportiva e, mais especificamente, em determinar se intervenções respiratórias, ou o chamado breathwork, poderiam beneficiar atletas. No entanto, o desenvolvimento de intervenções eficazes é lento e ainda não foi explorado de forma rigorosa. Diversas práticas amplamente utilizadas e recomendadas possuem pouca ou nenhuma evidência científica de suporte.
Apesar de resultados inconsistentes em estudos anteriores, existe atualmente um conjunto de evidências demonstrando que o treinamento dos músculos respiratórios (RMT, do inglês respiratory muscle training), especialmente dos músculos inspiratórios, pode melhorar o desempenho durante o exercício e reduzir a sensação de falta de ar provocada pelo esforço em determinados atletas, com efeitos de magnitude moderada.
Acredita-se que um dos principais mecanismos responsáveis por essa melhora seja a atenuação do metaboreflexo respiratório, resultando em maior oferta de oxigênio aos músculos em atividade. Embora os efeitos mais robustos sejam observados em intervenções de longo prazo (entre 4 e 8 semanas), uma importante lacuna na pesquisa diz respeito à possível existência de um limiar de força dos músculos respiratórios capaz de diferenciar indivíduos responsivos daqueles que não respondem ao treinamento.
O treinamento dos músculos respiratórios provavelmente é mais eficaz quando associado à supervisão de um fisioterapeuta, ao uso de biofeedback e/ou ao treinamento de estabilidade corporal e equilíbrio. Isso ocorre porque as orientações voltadas ao recrutamento adequado do diafragma demonstram ser eficazes para reduzir a atividade excessiva dos músculos respiratórios acessórios e melhorar desfechos importantes, como a redução dos sintomas e o aumento da tolerância ao exercício.
Existem também outras técnicas respiratórias que não dependem do uso de dispositivos e que podem contribuir para reduzir a dispneia, além de otimizar a recuperação e o desempenho esportivo. Uma dessas estratégias é a chamada respiração lenta e ritmada (slow-paced breathing ou SPB), que normalmente consiste em um padrão respiratório realizado em repouso com menos de dez respirações por minuto.
Por exemplo, a chamada respiração coerente (coherent breathing), frequentemente associada ao biofeedback da variabilidade da frequência cardíaca, consiste em respirar em um ritmo predeterminado, geralmente entre 5,0 e 6,5 respirações por minuto. Essa técnica respiratória, já bem estabelecida na literatura, é utilizada principalmente para promover relaxamento, recuperação física e mental, apresentando benefícios consistentes na redução da ansiedade, dos sintomas depressivos e na melhora dos processos de recuperação.
De forma particularmente relevante, sabe-se que a respiração lenta e ritmada pode também melhorar o desempenho esportivo, especialmente após intervenções prolongadas (>4 semanas), por meio do aprimoramento das funções executivas, da regulação emocional e da capacidade geral de autorregulação.
O treinamento de apneia e as técnicas de retenção da respiração têm despertado grande interesse entre atletas devido ao seu potencial de promover alterações hemodinâmicas residuais. No entanto, os estudos têm apresentado resultados inconsistentes em relação ao desempenho esportivo, provavelmente em razão das diferenças nos protocolos utilizados e na forma como a apneia é aplicada.
Uma técnica específica, denominada “treinamento de sprints repetidos em hipóxia com hipoventilação voluntária em baixo volume pulmonar” (repeated-sprint training in hypoxia with voluntary hypoventilation at low lung volume), tem demonstrado efeitos moderados e consistentes na melhora da resistência à fadiga. Esses benefícios foram observados em modalidades como corrida, ciclismo, natação e remo, sendo provavelmente explicados pela capacidade de sustentar concentrações máximas mais elevadas de lactato sanguíneo durante os sprints.
Embora ainda faltem evidências de alta qualidade para muitas outras técnicas respiratórias aplicadas ao esporte, revisões recentes destacaram o potencial de estratégias que modificam a via respiratória utilizada, o ritmo respiratório ou a frequência da respiração.
A respiração nasal, em particular, tem recebido atenção por seus possíveis benefícios fisiológicos e para a permeabilidade das vias aéreas. Respirar pelo nariz pode reduzir a perda de água durante a ventilação e melhorar a abertura das vias respiratórias por meio da inalação de óxido nítrico produzido nas cavidades nasais. Alguns estudos relataram alterações favoráveis na função do diafragma e na eficiência ventilatória, entretanto, as evidências atuais permanecem limitadas e inconsistentes quando se trata de ganhos efetivos de desempenho esportivo.
Além disso, a respiração nasal costuma estar associada a uma maior sensação de “fome de ar” em indivíduos não habituados à técnica e durante exercícios de maior intensidade, o que destaca a necessidade de um período adequado de adaptação. Atualmente, não há suporte científico para o uso de dilatadores nasais adesivos (nasal dilator strips) como estratégia para melhorar o desempenho esportivo.
Embora a respiração nasal seja uma abordagem promissora, especialmente para atletas com disfunções das vias aéreas, ainda não está claro se os benefícios potenciais superam o tempo e o esforço necessários para a adaptação à técnica.
As técnicas respiratórias que envolvem expiração ativa e/ou prolongada, como a respiração com lábios semicerrados (pursed-lip breathing), têm sido estudadas principalmente em indivíduos com doenças pulmonares obstrutivas. Nesses casos, elas ajudam a modular a pressão ao final da expiração, prevenindo o colapso das vias aéreas durante a saída do ar, reduzindo a limitação do fluxo expiratório e podendo minimizar a hiperinsuflação dinâmica ao melhorar o fluxo expiratório.
Esses mesmos mecanismos podem também beneficiar atletas, sobretudo durante exercícios realizados em altitude, em parte devido ao recrutamento de alvéolos previamente colapsados e ao aumento da pressão alveolar. A expiração prolongada, mesmo sem o uso da técnica dos lábios semicerrados, tem sido associada à melhora da eficiência ventilatória e da modulação autonômica, por meio do aumento da atividade parassimpática.
Entretanto, ainda não está claro se essa estratégia é capaz de prevenir a limitação do fluxo expiratório ou a hiperinsuflação dinâmica em atletas, especialmente naqueles que apresentam disfunções das vias aéreas.
Um grupo crescente de técnicas voltadas ao controle do fluxo aéreo tem demonstrado aplicabilidade clínica por parecer reduzir os sintomas respiratórios relacionados ao exercício em atletas com disfunções das vias aéreas. Muitas dessas foram originalmente desenvolvidas no contexto da fonoaudiologia, compartilhando objetivos como desacelerar o fluxo inspiratório e favorecer a abertura da laringe.
Ensaios clínicos randomizados atualmente em andamento indicaram mudanças pequenas, mas clinicamente relevantes, tanto nos escores obtidos por meio da laringoscopia contínua durante o exercício quanto na percepção subjetiva dos sintomas de obstrução laríngea induzida pelo exercício (EILO) e seu impacto sobre a tolerância ao esforço.
Apesar disso, ainda existem poucos estudos avaliando diretamente os efeitos dessas técnicas sobre o desempenho esportivo, e sua incorporação à prática esportiva permanece lenta fora do contexto específico da literatura sobre EILO.
O acoplamento locomotor-respiratório (locomotor-respiratory coupling), também chamado de sincronização respiratória (entrainment), ocorre quando a respiração e o movimento corporal passam a acontecer de forma sincronizada. Essa sincronização gera fluxos respiratórios induzidos pelo padrão de passadas (step-driven flows), capazes de alterar a ventilação pulmonar (isto é, o volume corrente) em até 10% em comparação com a respiração não sincronizada durante a corrida.
Outras atividades que envolvem mecânicas complementares do tronco, como os movimentos de flexão e extensão da coluna no esqui e no remo, também favorecem elevados níveis de acoplamento entre movimento e respiração, produzindo potenciais benefícios metabólicos. Contudo, essa área ainda permanece pouco estudada.
Investigações recentes sugeriram benefícios subjetivos semelhantes ao estado psicológico de “flow” (fluxo), caracterizado por uma combinação de esforço físico, ritmo e concentração. Esses efeitos parecem estar associados à redução da sensação de falta de ar durante o exercício. Entretanto, os impactos exatos da sincronização respiratória sobre o desempenho esportivo permanecem desconhecidos devido à limitada quantidade de pesquisas disponíveis.
Embora a maioria das intervenções respiratórias descritas anteriormente tenha sido estudada principalmente em esportes de endurance, também existem evidências de sua eficácia em modalidades intermitentes e em esportes de força e potência.
Por exemplo, a prática prévia de respiração lenta e ritmada pode melhorar a capacidade de realizar sprints repetidos. Além disso, técnicas como o lung packing (insuflação pulmonar ativa), a manobra de Valsalva e estratégias respiratórias de braceamento (bracing) ou contração abdominal (hollowing) são conhecidas por melhorar a estabilização do tronco, a estabilidade postural e reduzir o chamado sticking point (região crítica de dificuldade durante a execução de movimentos de força), por meio da manipulação da pressão intra-abdominal.
Da mesma forma, grunhidos (grunting) e outras vocalizações exploram a ativação dos músculos expiratórios e o aumento da pressão intra-abdominal para ampliar a potência dos golpes em esportes de combate.
Está claro que a respiração pode ser manipulada de inúmeras formas, mas as evidências sobre melhorias diretas no desempenho esportivo permanecem inconsistentes. A redução de sintomas respiratórios, a diminuição da sensação de falta de ar e o aumento da tolerância ao exercício podem melhorar o desempenho de forma indireta, ao permitir maiores cargas de treinamento, especialmente em intensidades elevadas.
Há necessidade de estudos de intervenção de alta qualidade, como ensaios clínicos randomizados, que incluam a manipulação explícita dos padrões respiratórios e critérios claros de adaptação às técnicas utilizadas. Atualmente, ainda não está totalmente claro qual é a magnitude dos benefícios fisiológicos, ou mesmo dos possíveis custos, associados às diferentes estratégias respiratórias.
Os potenciais benefícios dessas estratégias vão além dos aspectos puramente fisiológicos. Existe um volume considerável de evidências demonstrando benefícios psicológicos das técnicas respiratórias, e seus efeitos podem também se estender a vantagens biomecânicas, como a melhora da estabilidade postural.
Considerando a elevada prevalência de doenças das vias aéreas e de distúrbios do padrão respiratório entre atletas, esses indivíduos provavelmente constituem o grupo que mais pode se beneficiar dessas intervenções. Infelizmente, ainda existem poucas diretrizes sobre como aplicar estratégias respiratórias no contexto esportivo, e a literatura descreve abordagens amplas, heterogêneas e pouco padronizadas.
É evidente que são necessárias mais evidências de alta qualidade, na forma de ensaios clínicos randomizados ou estudos prospectivos de coorte. As populações-alvo devem incluir grupos com maior probabilidade de apresentar problemas respiratórios e, portanto, maior potencial de se beneficiar de intervenções respiratórias, como nadadores e atletas de esportes de inverno.
Os estudos devem sempre incorporar questionários multidimensionais para avaliação da dispneia e incluir a mensuração de limitações respiratórias relevantes por meio de ferramentas como a pletismografia optoeletrônica e a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS). Além disso, os pesquisadores devem considerar ampliar a representatividade dos participantes e aumentar a validade ecológica dos estudos utilizando medições em campo e sensores vestíveis, uma vez que as máscaras utilizadas na espirometria podem alterar os padrões respiratórios naturais.
Roupas equipadas com sensores de alongamento e pressão já permitem medir com precisão a frequência respiratória, o acoplamento locomotor-respiratório e a coordenação toracolombar. Ferramentas baseadas na análise de sons respiratórios também podem auxiliar na triagem de problemas respiratórios relacionados ao exercício, uma vez que a broncoconstrição induzida pelo exercício e a obstrução laríngea induzida pelo exercício (EILO) frequentemente apresentam assinaturas sonoras características. Isso abre caminho para intervenções realizadas exatamente no momento em que os sintomas surgem.
Também é necessário desenvolver soluções inovadoras e baseadas em evidências que permitam aplicar intervenções respiratórias de forma consistente, tanto presencialmente quanto à distância. Por fim, os estudos devem considerar cuidadosamente os processos de adaptação às técnicas respiratórias e a individualização das intervenções, a fim de aprimorar seu desenho metodológico.
Atualmente, clínicos e atletas podem implementar conhecimentos considerados boas práticas nessa área, começando por um rastreamento mais eficaz de patologias e limitações respiratórias em atletas jovens. Durante testes de exercício realizados em campo com dispositivos vestíveis, podem ser incluídas variáveis respiratórias potencialmente limitantes, como a relação entre volume corrente e ventilação minuto.
No contexto do treinamento dos músculos respiratórios (RMT) e de outras intervenções, pesquisadores e profissionais devem priorizar a orientação para um padrão respiratório mais diafragmático ou com predominância da expansão da região inferior do tórax. Esse aspecto é fundamental para a eficácia das intervenções respiratórias e pode contribuir para reduzir a atividade excessiva dos músculos respiratórios acessórios.
Também é importante reconhecer que algumas intervenções podem gerar benefícios predominantemente psicológicos e que são necessárias semanas ou até meses para que os indivíduos se adaptem adequadamente a novos padrões respiratórios. Da mesma forma, é essencial que profissionais da saúde mantenham uma postura simultaneamente curiosa e cautelosa diante das alegações feitas sobre novas intervenções respiratórias, especialmente aquelas com finalidade comercial.
Publicado el 18 de agosto de 2026
Técnicas respiratórias
Breathwork melhora o desempenho esportivo? Evidências, limitações e aplicações clínicas
Técnicas como respiração lenta, treinamento muscular respiratório e apneia estão em evidência
Autor/a: Harbour E, Illidi C, Hull J
Fuente: The Lancet Respiratory Medicine, V. 14, N. 3, Pg. 200-202, 2026 Breathing in sport: can we make breath work better?
A cada ciclo olímpico, atletas e equipes de suporte buscam os conhecimentos mais avançados e inovadores na busca pela medalha de ouro. Nos Jogos Olímpicos de Inverno, tanto os fatores ambientais quanto as exigências específicas de cada modalidade impõem desafios únicos ao desempenho esportivo. Por exemplo, muitos atletas relatam sintomas respiratórios e limitações relacionadas à respiração. Ao mesmo tempo, cresce o interesse pelo conceito de breathwork (técnicas respiratórias) ou de “retreinamento respiratório”, impulsionado pelo desejo de otimizar o desempenho atlético. Portanto, é compreensível que o uso de técnicas, dispositivos e orientações de chamados “gurus da respiração” tenha se tornado cada vez mais comum.
Historicamente, porém, o sistema respiratório não tem sido considerado uma limitação importante ao desempenho esportivo, nem algo que devesse ser manipulado para melhorar a performance. Tradicionalmente, acreditava-se que, durante o exercício, a respiração funcionava de forma predominantemente autônoma, respondendo apenas à demanda metabólica e buscando minimizar o custo energético da ventilação por meio da regulação precisa dos volumes pulmonares operacionais, da ativação dos músculos respiratórios e de suas relações comprimento-tensão. Assim, observa-se frequentemente que o sistema respiratório mantém uma reserva ventilatória, mesmo durante exercícios realizados até a exaustão. Dessa forma, costuma-se considerar que ele é “superdimensionado” (isto é, a capacidade respiratória máxima excede as demandas impostas durante o exercício intenso), especialmente quando comparado ao sistema cardiovascular.
Entretanto, essa suposição contrasta com a alta prevalência de desconforto respiratório relatada por atletas. Uma sensação desagradável de falta de ar excessiva (ou seja, acima do limite considerado normal) é descrita por cerca de metade dos indivíduos fisicamente ativos. Além disso, essa visão provavelmente não leva em conta o impacto de alterações mais complexas, como limitação do fluxo expiratório, fraqueza dos músculos respiratórios e distúrbios do padrão respiratório, que podem surgir durante exercícios vigorosos, causando dispneia e, consequentemente, comprometendo o desempenho esportivo. A inalação de ar frio e seco durante a prática de esportes de inverno pode agravar ainda mais esse quadro.
Estudos epidemiológicos também contestaram a ideia de que o sistema respiratório seja superdimensionado para o exercício, ao demonstrarem uma alta frequência de sintomas respiratórios durante a prática esportiva. Isso pode ser parcialmente explicado pelo fato de que alguns atletas apresentam elevado risco de desenvolver limitações respiratórias decorrentes tanto de condições clínicas ou doenças quanto de alterações que seriam mais adequadamente classificadas como disfunções funcionais.
Nesse contexto, aproximadamente um quarto dos atletas de endurance desenvolve algum tipo de disfunção das vias aéreas inferiores, geralmente caracterizada pela presença de hiper-responsividade das vias aéreas, com ou sem broncoconstrição induzida pelo exercício. Essa condição frequentemente se desenvolve na ausência do perfil típico de biomarcadores observado na asma, ou seja, sem a presença dos marcadores inflamatórios do tipo 2.
Também é amplamente reconhecido que outros distúrbios respiratórios funcionais são prevalentes entre atletas e podem prejudicar o desempenho esportivo. Especificamente, estima-se que até 8% dos jovens atletas relatem dificuldades respiratórias decorrentes de um fechamento transitório da entrada da laringe durante exercícios intensos. Essa condição, denominada obstrução laríngea induzida pelo exercício (EILO), aumenta o trabalho respiratório e pode coexistir com a asma. Além disso, anormalidades no padrão respiratório, conhecidas como respiração disfuncional ou distúrbios do padrão respiratório, afetam até um terço dos atletas, podendo comprometer a eficiência ventilatória.
Esses problemas não apenas são frequentemente subdiagnosticados ou diagnosticados de forma incorreta, mas também costumam apresentar atrasos significativos no encaminhamento para avaliação especializada. Isso pode explicar a elevada prevalência de falta de ar observada tanto em atletas de elite quanto na população fisicamente ativa em geral.
Ao longo da última década, cresceu o interesse na possibilidade de modificar ou aperfeiçoar os padrões respiratórios durante a prática esportiva e, mais especificamente, em determinar se intervenções respiratórias, ou o chamado breathwork, poderiam beneficiar atletas. No entanto, o desenvolvimento de intervenções eficazes é lento e ainda não foi explorado de forma rigorosa. Diversas práticas amplamente utilizadas e recomendadas possuem pouca ou nenhuma evidência científica de suporte.
Apesar de resultados inconsistentes em estudos anteriores, existe atualmente um conjunto de evidências demonstrando que o treinamento dos músculos respiratórios (RMT, do inglês respiratory muscle training), especialmente dos músculos inspiratórios, pode melhorar o desempenho durante o exercício e reduzir a sensação de falta de ar provocada pelo esforço em determinados atletas, com efeitos de magnitude moderada.
Acredita-se que um dos principais mecanismos responsáveis por essa melhora seja a atenuação do metaboreflexo respiratório, resultando em maior oferta de oxigênio aos músculos em atividade. Embora os efeitos mais robustos sejam observados em intervenções de longo prazo (entre 4 e 8 semanas), uma importante lacuna na pesquisa diz respeito à possível existência de um limiar de força dos músculos respiratórios capaz de diferenciar indivíduos responsivos daqueles que não respondem ao treinamento.
O treinamento dos músculos respiratórios provavelmente é mais eficaz quando associado à supervisão de um fisioterapeuta, ao uso de biofeedback e/ou ao treinamento de estabilidade corporal e equilíbrio. Isso ocorre porque as orientações voltadas ao recrutamento adequado do diafragma demonstram ser eficazes para reduzir a atividade excessiva dos músculos respiratórios acessórios e melhorar desfechos importantes, como a redução dos sintomas e o aumento da tolerância ao exercício.
Existem também outras técnicas respiratórias que não dependem do uso de dispositivos e que podem contribuir para reduzir a dispneia, além de otimizar a recuperação e o desempenho esportivo. Uma dessas estratégias é a chamada respiração lenta e ritmada (slow-paced breathing ou SPB), que normalmente consiste em um padrão respiratório realizado em repouso com menos de dez respirações por minuto.
Por exemplo, a chamada respiração coerente (coherent breathing), frequentemente associada ao biofeedback da variabilidade da frequência cardíaca, consiste em respirar em um ritmo predeterminado, geralmente entre 5,0 e 6,5 respirações por minuto. Essa técnica respiratória, já bem estabelecida na literatura, é utilizada principalmente para promover relaxamento, recuperação física e mental, apresentando benefícios consistentes na redução da ansiedade, dos sintomas depressivos e na melhora dos processos de recuperação.
De forma particularmente relevante, sabe-se que a respiração lenta e ritmada pode também melhorar o desempenho esportivo, especialmente após intervenções prolongadas (>4 semanas), por meio do aprimoramento das funções executivas, da regulação emocional e da capacidade geral de autorregulação.
O treinamento de apneia e as técnicas de retenção da respiração têm despertado grande interesse entre atletas devido ao seu potencial de promover alterações hemodinâmicas residuais. No entanto, os estudos têm apresentado resultados inconsistentes em relação ao desempenho esportivo, provavelmente em razão das diferenças nos protocolos utilizados e na forma como a apneia é aplicada.
Uma técnica específica, denominada “treinamento de sprints repetidos em hipóxia com hipoventilação voluntária em baixo volume pulmonar” (repeated-sprint training in hypoxia with voluntary hypoventilation at low lung volume), tem demonstrado efeitos moderados e consistentes na melhora da resistência à fadiga. Esses benefícios foram observados em modalidades como corrida, ciclismo, natação e remo, sendo provavelmente explicados pela capacidade de sustentar concentrações máximas mais elevadas de lactato sanguíneo durante os sprints.
Embora ainda faltem evidências de alta qualidade para muitas outras técnicas respiratórias aplicadas ao esporte, revisões recentes destacaram o potencial de estratégias que modificam a via respiratória utilizada, o ritmo respiratório ou a frequência da respiração.
A respiração nasal, em particular, tem recebido atenção por seus possíveis benefícios fisiológicos e para a permeabilidade das vias aéreas. Respirar pelo nariz pode reduzir a perda de água durante a ventilação e melhorar a abertura das vias respiratórias por meio da inalação de óxido nítrico produzido nas cavidades nasais. Alguns estudos relataram alterações favoráveis na função do diafragma e na eficiência ventilatória, entretanto, as evidências atuais permanecem limitadas e inconsistentes quando se trata de ganhos efetivos de desempenho esportivo.
Além disso, a respiração nasal costuma estar associada a uma maior sensação de “fome de ar” em indivíduos não habituados à técnica e durante exercícios de maior intensidade, o que destaca a necessidade de um período adequado de adaptação. Atualmente, não há suporte científico para o uso de dilatadores nasais adesivos (nasal dilator strips) como estratégia para melhorar o desempenho esportivo.
Embora a respiração nasal seja uma abordagem promissora, especialmente para atletas com disfunções das vias aéreas, ainda não está claro se os benefícios potenciais superam o tempo e o esforço necessários para a adaptação à técnica.
As técnicas respiratórias que envolvem expiração ativa e/ou prolongada, como a respiração com lábios semicerrados (pursed-lip breathing), têm sido estudadas principalmente em indivíduos com doenças pulmonares obstrutivas. Nesses casos, elas ajudam a modular a pressão ao final da expiração, prevenindo o colapso das vias aéreas durante a saída do ar, reduzindo a limitação do fluxo expiratório e podendo minimizar a hiperinsuflação dinâmica ao melhorar o fluxo expiratório.
Esses mesmos mecanismos podem também beneficiar atletas, sobretudo durante exercícios realizados em altitude, em parte devido ao recrutamento de alvéolos previamente colapsados e ao aumento da pressão alveolar. A expiração prolongada, mesmo sem o uso da técnica dos lábios semicerrados, tem sido associada à melhora da eficiência ventilatória e da modulação autonômica, por meio do aumento da atividade parassimpática.
Entretanto, ainda não está claro se essa estratégia é capaz de prevenir a limitação do fluxo expiratório ou a hiperinsuflação dinâmica em atletas, especialmente naqueles que apresentam disfunções das vias aéreas.
Um grupo crescente de técnicas voltadas ao controle do fluxo aéreo tem demonstrado aplicabilidade clínica por parecer reduzir os sintomas respiratórios relacionados ao exercício em atletas com disfunções das vias aéreas. Muitas dessas foram originalmente desenvolvidas no contexto da fonoaudiologia, compartilhando objetivos como desacelerar o fluxo inspiratório e favorecer a abertura da laringe.
Ensaios clínicos randomizados atualmente em andamento indicaram mudanças pequenas, mas clinicamente relevantes, tanto nos escores obtidos por meio da laringoscopia contínua durante o exercício quanto na percepção subjetiva dos sintomas de obstrução laríngea induzida pelo exercício (EILO) e seu impacto sobre a tolerância ao esforço.
Apesar disso, ainda existem poucos estudos avaliando diretamente os efeitos dessas técnicas sobre o desempenho esportivo, e sua incorporação à prática esportiva permanece lenta fora do contexto específico da literatura sobre EILO.
O acoplamento locomotor-respiratório (locomotor-respiratory coupling), também chamado de sincronização respiratória (entrainment), ocorre quando a respiração e o movimento corporal passam a acontecer de forma sincronizada. Essa sincronização gera fluxos respiratórios induzidos pelo padrão de passadas (step-driven flows), capazes de alterar a ventilação pulmonar (isto é, o volume corrente) em até 10% em comparação com a respiração não sincronizada durante a corrida.
Outras atividades que envolvem mecânicas complementares do tronco, como os movimentos de flexão e extensão da coluna no esqui e no remo, também favorecem elevados níveis de acoplamento entre movimento e respiração, produzindo potenciais benefícios metabólicos. Contudo, essa área ainda permanece pouco estudada.
Investigações recentes sugeriram benefícios subjetivos semelhantes ao estado psicológico de “flow” (fluxo), caracterizado por uma combinação de esforço físico, ritmo e concentração. Esses efeitos parecem estar associados à redução da sensação de falta de ar durante o exercício. Entretanto, os impactos exatos da sincronização respiratória sobre o desempenho esportivo permanecem desconhecidos devido à limitada quantidade de pesquisas disponíveis.
Embora a maioria das intervenções respiratórias descritas anteriormente tenha sido estudada principalmente em esportes de endurance, também existem evidências de sua eficácia em modalidades intermitentes e em esportes de força e potência.
Por exemplo, a prática prévia de respiração lenta e ritmada pode melhorar a capacidade de realizar sprints repetidos. Além disso, técnicas como o lung packing (insuflação pulmonar ativa), a manobra de Valsalva e estratégias respiratórias de braceamento (bracing) ou contração abdominal (hollowing) são conhecidas por melhorar a estabilização do tronco, a estabilidade postural e reduzir o chamado sticking point (região crítica de dificuldade durante a execução de movimentos de força), por meio da manipulação da pressão intra-abdominal.
Da mesma forma, grunhidos (grunting) e outras vocalizações exploram a ativação dos músculos expiratórios e o aumento da pressão intra-abdominal para ampliar a potência dos golpes em esportes de combate.
Está claro que a respiração pode ser manipulada de inúmeras formas, mas as evidências sobre melhorias diretas no desempenho esportivo permanecem inconsistentes. A redução de sintomas respiratórios, a diminuição da sensação de falta de ar e o aumento da tolerância ao exercício podem melhorar o desempenho de forma indireta, ao permitir maiores cargas de treinamento, especialmente em intensidades elevadas.
Há necessidade de estudos de intervenção de alta qualidade, como ensaios clínicos randomizados, que incluam a manipulação explícita dos padrões respiratórios e critérios claros de adaptação às técnicas utilizadas. Atualmente, ainda não está totalmente claro qual é a magnitude dos benefícios fisiológicos, ou mesmo dos possíveis custos, associados às diferentes estratégias respiratórias.
Os potenciais benefícios dessas estratégias vão além dos aspectos puramente fisiológicos. Existe um volume considerável de evidências demonstrando benefícios psicológicos das técnicas respiratórias, e seus efeitos podem também se estender a vantagens biomecânicas, como a melhora da estabilidade postural.
Considerando a elevada prevalência de doenças das vias aéreas e de distúrbios do padrão respiratório entre atletas, esses indivíduos provavelmente constituem o grupo que mais pode se beneficiar dessas intervenções. Infelizmente, ainda existem poucas diretrizes sobre como aplicar estratégias respiratórias no contexto esportivo, e a literatura descreve abordagens amplas, heterogêneas e pouco padronizadas.
É evidente que são necessárias mais evidências de alta qualidade, na forma de ensaios clínicos randomizados ou estudos prospectivos de coorte. As populações-alvo devem incluir grupos com maior probabilidade de apresentar problemas respiratórios e, portanto, maior potencial de se beneficiar de intervenções respiratórias, como nadadores e atletas de esportes de inverno.
Os estudos devem sempre incorporar questionários multidimensionais para avaliação da dispneia e incluir a mensuração de limitações respiratórias relevantes por meio de ferramentas como a pletismografia optoeletrônica e a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS). Além disso, os pesquisadores devem considerar ampliar a representatividade dos participantes e aumentar a validade ecológica dos estudos utilizando medições em campo e sensores vestíveis, uma vez que as máscaras utilizadas na espirometria podem alterar os padrões respiratórios naturais.
Roupas equipadas com sensores de alongamento e pressão já permitem medir com precisão a frequência respiratória, o acoplamento locomotor-respiratório e a coordenação toracolombar. Ferramentas baseadas na análise de sons respiratórios também podem auxiliar na triagem de problemas respiratórios relacionados ao exercício, uma vez que a broncoconstrição induzida pelo exercício e a obstrução laríngea induzida pelo exercício (EILO) frequentemente apresentam assinaturas sonoras características. Isso abre caminho para intervenções realizadas exatamente no momento em que os sintomas surgem.
Também é necessário desenvolver soluções inovadoras e baseadas em evidências que permitam aplicar intervenções respiratórias de forma consistente, tanto presencialmente quanto à distância. Por fim, os estudos devem considerar cuidadosamente os processos de adaptação às técnicas respiratórias e a individualização das intervenções, a fim de aprimorar seu desenho metodológico.
Atualmente, clínicos e atletas podem implementar conhecimentos considerados boas práticas nessa área, começando por um rastreamento mais eficaz de patologias e limitações respiratórias em atletas jovens. Durante testes de exercício realizados em campo com dispositivos vestíveis, podem ser incluídas variáveis respiratórias potencialmente limitantes, como a relação entre volume corrente e ventilação minuto.
No contexto do treinamento dos músculos respiratórios (RMT) e de outras intervenções, pesquisadores e profissionais devem priorizar a orientação para um padrão respiratório mais diafragmático ou com predominância da expansão da região inferior do tórax. Esse aspecto é fundamental para a eficácia das intervenções respiratórias e pode contribuir para reduzir a atividade excessiva dos músculos respiratórios acessórios.
Também é importante reconhecer que algumas intervenções podem gerar benefícios predominantemente psicológicos e que são necessárias semanas ou até meses para que os indivíduos se adaptem adequadamente a novos padrões respiratórios. Da mesma forma, é essencial que profissionais da saúde mantenham uma postura simultaneamente curiosa e cautelosa diante das alegações feitas sobre novas intervenções respiratórias, especialmente aquelas com finalidade comercial.