A identificação de biomarcadores capazes de prever a resposta à imunoterapia pode representar um importante avanço no manejo do câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) em estágio avançado. Um estudo publicado na revista iScience demonstrou que características específicas das células imunológicas circulantes no sangue são capazes de antecipar quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar da combinação entre imunoterapia e quimioterapia.
O CPCNP corresponde a aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão e frequentemente é diagnosticado em estágios avançados, quando as opções terapêuticas se tornam mais limitadas. Embora a introdução dos inibidores de checkpoint imunológico tenha transformado o tratamento desses pacientes, a resposta clínica permanece bastante variável, tornando necessária a busca por marcadores capazes de orientar a seleção dos candidatos mais propensos a responder à terapia.
Na pesquisa, foram avaliados 33 pacientes com CPCNP metastático, sem tratamento prévio, que receberam imunoterapia anti-PD-1 associada à quimioterapia. Os pesquisadores analisaram amostras de sangue coletadas antes do início do tratamento para investigar o perfil imunológico basal dos participantes.
Após nove semanas de terapia, 22 pacientes foram classificados como respondedores e 11 como não respondedores. A análise revelou diferenças importantes entre os grupos: pacientes que apresentaram melhores resultados clínicos possuíam maior frequência de linfócitos T circulantes expressando marcadores associados à ativação e à capacidade de resposta imunológica, incluindo CD69, TCF-1 e CXCR3. Por outro lado, os pacientes que não responderam ao tratamento apresentaram maior proporção de células T expressando moléculas relacionadas à regulação ou supressão da resposta imune, como CTLA-4, CD161 e IL-10.
Segundo os autores, esse conjunto de características imunológicas forma uma assinatura biológica capaz de diferenciar pacientes com maior ou menor probabilidade de benefício clínico antes mesmo do início da terapia.
Outro resultado importante do estudo foi a concordância observada entre os achados sanguíneos e o perfil imunológico do próprio tumor. Ao analisar uma coorte independente de pacientes, os pesquisadores verificaram que os estados funcionais dos linfócitos T identificados na circulação estavam também presentes no microambiente tumoral. Esse achado reforça a possibilidade de utilizar exames de sangue como alternativa menos invasiva para monitorar características imunológicas associadas à resposta ao tratamento.
A estratégia tem potencial relevância prática, uma vez que a coleta de sangue é simples e pode ser realizada de forma seriada ao longo do acompanhamento clínico.
Além da identificação dos biomarcadores, os pesquisadores também investigaram possíveis mecanismos de resistência à imunoterapia. Em experimentos realizados in vitro, amostras de pacientes que não responderam ao tratamento foram submetidas ao bloqueio simultâneo das proteínas PD-1 e CTLA-4. A combinação foi capaz de restaurar parcialmente características associadas à atividade antitumoral dos linfócitos T, sugerindo que a CTLA-4 pode desempenhar papel importante nos mecanismos de resistência observados nesses pacientes.
Os achados reforçaram a crescente importância da medicina personalizada na oncologia. A possibilidade de identificar previamente quais pacientes apresentam maior chance de resposta poderia otimizar a utilização de terapias de alto custo, reduzir exposições desnecessárias a tratamentos pouco eficazes e contribuir para decisões terapêuticas mais precisas.
Outro aspecto relevante é que a caracterização dessas populações celulares foi realizada por meio de citometria de fluxo, uma tecnologia amplamente disponível em laboratórios clínicos e centros especializados, o que pode facilitar a futura incorporação dessa estratégia à prática assistencial.
Embora os resultados ainda necessitem de validação em estudos com maior número de participantes, a pesquisa de Figueiredo e colaboradores (2026) forneceu evidências de que biomarcadores sanguíneos podem ser ferramentas valiosas para orientar o tratamento do câncer de pulmão avançado. Além disso, os dados sugeriram novos alvos terapêuticos capazes de auxiliar no desenvolvimento de estratégias destinadas a superar os mecanismos de resistência à imunoterapia.
Publicado el 22 de septiembre de 2026
Oncologia
Biomarcadores sanguíneos podem prever resposta à imunoterapia em câncer de pulmão avançado
Estudo identificou perfil imunológico associado à eficácia da imunoterapia em pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas metastático e sugeriu novas estratégias para personalizar o tratamento.
Autor/a: Figueiredo, A. et al.
Fuente: iScience, 2026; 29 Circulating cell populations as response predictors and targets to improve immunotherapy in metastatic lung cancer
A identificação de biomarcadores capazes de prever a resposta à imunoterapia pode representar um importante avanço no manejo do câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) em estágio avançado. Um estudo publicado na revista iScience demonstrou que características específicas das células imunológicas circulantes no sangue são capazes de antecipar quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar da combinação entre imunoterapia e quimioterapia.
O CPCNP corresponde a aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão e frequentemente é diagnosticado em estágios avançados, quando as opções terapêuticas se tornam mais limitadas. Embora a introdução dos inibidores de checkpoint imunológico tenha transformado o tratamento desses pacientes, a resposta clínica permanece bastante variável, tornando necessária a busca por marcadores capazes de orientar a seleção dos candidatos mais propensos a responder à terapia.
Na pesquisa, foram avaliados 33 pacientes com CPCNP metastático, sem tratamento prévio, que receberam imunoterapia anti-PD-1 associada à quimioterapia. Os pesquisadores analisaram amostras de sangue coletadas antes do início do tratamento para investigar o perfil imunológico basal dos participantes.
Após nove semanas de terapia, 22 pacientes foram classificados como respondedores e 11 como não respondedores. A análise revelou diferenças importantes entre os grupos: pacientes que apresentaram melhores resultados clínicos possuíam maior frequência de linfócitos T circulantes expressando marcadores associados à ativação e à capacidade de resposta imunológica, incluindo CD69, TCF-1 e CXCR3. Por outro lado, os pacientes que não responderam ao tratamento apresentaram maior proporção de células T expressando moléculas relacionadas à regulação ou supressão da resposta imune, como CTLA-4, CD161 e IL-10.
Segundo os autores, esse conjunto de características imunológicas forma uma assinatura biológica capaz de diferenciar pacientes com maior ou menor probabilidade de benefício clínico antes mesmo do início da terapia.
Outro resultado importante do estudo foi a concordância observada entre os achados sanguíneos e o perfil imunológico do próprio tumor. Ao analisar uma coorte independente de pacientes, os pesquisadores verificaram que os estados funcionais dos linfócitos T identificados na circulação estavam também presentes no microambiente tumoral. Esse achado reforça a possibilidade de utilizar exames de sangue como alternativa menos invasiva para monitorar características imunológicas associadas à resposta ao tratamento.
A estratégia tem potencial relevância prática, uma vez que a coleta de sangue é simples e pode ser realizada de forma seriada ao longo do acompanhamento clínico.
Além da identificação dos biomarcadores, os pesquisadores também investigaram possíveis mecanismos de resistência à imunoterapia. Em experimentos realizados in vitro, amostras de pacientes que não responderam ao tratamento foram submetidas ao bloqueio simultâneo das proteínas PD-1 e CTLA-4. A combinação foi capaz de restaurar parcialmente características associadas à atividade antitumoral dos linfócitos T, sugerindo que a CTLA-4 pode desempenhar papel importante nos mecanismos de resistência observados nesses pacientes.
Os achados reforçaram a crescente importância da medicina personalizada na oncologia. A possibilidade de identificar previamente quais pacientes apresentam maior chance de resposta poderia otimizar a utilização de terapias de alto custo, reduzir exposições desnecessárias a tratamentos pouco eficazes e contribuir para decisões terapêuticas mais precisas.
Outro aspecto relevante é que a caracterização dessas populações celulares foi realizada por meio de citometria de fluxo, uma tecnologia amplamente disponível em laboratórios clínicos e centros especializados, o que pode facilitar a futura incorporação dessa estratégia à prática assistencial.
Embora os resultados ainda necessitem de validação em estudos com maior número de participantes, a pesquisa de Figueiredo e colaboradores (2026) forneceu evidências de que biomarcadores sanguíneos podem ser ferramentas valiosas para orientar o tratamento do câncer de pulmão avançado. Além disso, os dados sugeriram novos alvos terapêuticos capazes de auxiliar no desenvolvimento de estratégias destinadas a superar os mecanismos de resistência à imunoterapia.