Os betabloqueadores são utilizados há mais de quatro décadas na prevenção secundária após o infarto do miocárdio, com base em evidências geradas antes da introdução das terapias modernas de reperfusão coronariana. No entanto, os avanços no manejo do infarto, o aprimoramento das estratégias de prevenção secundária e a maior precisão diagnóstica proporcionada pelos biomarcadores cardíacos levantaram questionamentos sobre o benefício dessas medicações em pacientes com fração de ejeção ventricular esquerda preservada (≥50%) ou levemente reduzida (40% a 49%).
Embora seus efeitos antiarrítmicos e a capacidade de reduzir a demanda miocárdica de oxigênio sejam bem estabelecidos, as evidências contemporâneas que sustentam seu uso nessa população permanecem limitadas. Nesse contexto, Munkhaugen e colaboradores (2026) realizaram uma análise combinada dos ensaios Norwegian Beta-Blocker Treatment after Acute Myocardial Infarction in Revascularized Patients without Reduced Left Ventricular Ejection Fraction (BETAMI) e Danish Trial of Beta-Blocker Therapy after Myocardial Infarction without Heart Failure (DANBLOCK) para avaliar o impacto do uso prolongado de betabloqueadores sobre desfechos cardiovasculares em pacientes com infarto agudo do miocárdio recente, sem insuficiência cardíaca e com fração de ejeção ventricular esquerda preservada ou levemente reduzida.
A análise utilizou um desenho PROBE (prospective, randomized, open-label, blinded end-point evaluation) e reuniu dados de 5.574 pacientes recrutados em centros da Noruega e da Dinamarca. A população estudada apresentou mediana de idade de 63 anos; 20,8% dos participantes eram mulheres, 47,5% haviam apresentado infarto com supradesnivelamento do segmento ST e 84,7% possuíam fração de ejeção ventricular esquerda igual ou superior a 50%. Além disso, quase todos os pacientes foram submetidos à revascularização coronariana.
Os participantes foram randomizados na proporção 1:1 para receber ou não tratamento com betabloqueadores, sendo recomendados metoprolol, bisoprolol, carvedilol ou nebivolol, conforme a prática clínica habitual. O acompanhamento foi realizado por meio dos registros nacionais de saúde dos dois países, com mediana de seguimento de 3,5 anos.
O desfecho primário foi composto por morte por qualquer causa ou ocorrência de eventos cardiovasculares adversos maiores, incluindo novo infarto do miocárdio, revascularização coronariana não planejada, acidente vascular cerebral isquêmico, insuficiência cardíaca ou arritmias ventriculares malignas.
Ao longo do acompanhamento, o uso de betabloqueadores foi associado a uma redução significativa do desfecho primário. Eventos cardiovasculares maiores ou morte ocorreram em 14,2% dos pacientes do grupo betabloqueador, em comparação com 16,3% daqueles que não receberam a terapia (HR 0,85; IC95% 0,75-0,98; p=0,03).
O principal fator responsável por esse benefício foi a menor incidência de reinfarto, observada em 5,0% e 6,7% dos pacientes dos grupos betabloqueador e controle, respectivamente (HR 0,73; IC95% 0,59-0,92). Por outro lado, não foram identificadas diferenças significativas entre os grupos em relação à mortalidade por todas as causas, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral isquêmico, arritmias ventriculares malignas ou necessidade de revascularização coronariana não planejada.
A adesão ao tratamento permaneceu elevada durante o estudo, e os resultados foram consistentes em diferentes subgrupos de pacientes. Além disso, uma análise restrita aos primeiros 12 meses após a randomização mostrou benefício semelhante ao observado na análise principal. Não foram observadas diferenças relevantes entre os grupos quanto à ocorrência de eventos adversos graves ou desfechos de segurança.
Em síntese, entre pacientes com infarto agudo do miocárdio, fração de ejeção ventricular esquerda preservada ou levemente reduzida e ausência de insuficiência cardíaca, o uso prolongado de betabloqueadores esteve associado a uma redução do risco de morte ou eventos cardiovasculares maiores, benefício impulsionado principalmente pela menor incidência de reinfarto. Os achados sugeriram que essa estratégia permanece clinicamente relevante para a prevenção secundária nessa população, mesmo na era das terapias modernas de reperfusão e do tratamento cardiovascular contemporâneo.
Publicado el 30 de septiembre de 2026
Prevenção secundária após infarto
Betabloqueadores após infarto do miocárdio sem insuficiência cardíaca: o que mostram as novas evidências?
Análise combinada dos estudos BETAMI e DANBLOCK reforçou o papel dos betabloqueadores na prevenção secundária após o infarto, com redução significativa do risco de eventos cardiovasculares maiores e menor ocorrência de reinfarto.
Autor/a: Munkhaugen, J. et al.
Fuente: N Engl J Med 2025;393:1901-1911 Beta-Blockers after Myocardial Infarction in Patients without Heart Failure
Os betabloqueadores são utilizados há mais de quatro décadas na prevenção secundária após o infarto do miocárdio, com base em evidências geradas antes da introdução das terapias modernas de reperfusão coronariana. No entanto, os avanços no manejo do infarto, o aprimoramento das estratégias de prevenção secundária e a maior precisão diagnóstica proporcionada pelos biomarcadores cardíacos levantaram questionamentos sobre o benefício dessas medicações em pacientes com fração de ejeção ventricular esquerda preservada (≥50%) ou levemente reduzida (40% a 49%).
Embora seus efeitos antiarrítmicos e a capacidade de reduzir a demanda miocárdica de oxigênio sejam bem estabelecidos, as evidências contemporâneas que sustentam seu uso nessa população permanecem limitadas. Nesse contexto, Munkhaugen e colaboradores (2026) realizaram uma análise combinada dos ensaios Norwegian Beta-Blocker Treatment after Acute Myocardial Infarction in Revascularized Patients without Reduced Left Ventricular Ejection Fraction (BETAMI) e Danish Trial of Beta-Blocker Therapy after Myocardial Infarction without Heart Failure (DANBLOCK) para avaliar o impacto do uso prolongado de betabloqueadores sobre desfechos cardiovasculares em pacientes com infarto agudo do miocárdio recente, sem insuficiência cardíaca e com fração de ejeção ventricular esquerda preservada ou levemente reduzida.
A análise utilizou um desenho PROBE (prospective, randomized, open-label, blinded end-point evaluation) e reuniu dados de 5.574 pacientes recrutados em centros da Noruega e da Dinamarca. A população estudada apresentou mediana de idade de 63 anos; 20,8% dos participantes eram mulheres, 47,5% haviam apresentado infarto com supradesnivelamento do segmento ST e 84,7% possuíam fração de ejeção ventricular esquerda igual ou superior a 50%. Além disso, quase todos os pacientes foram submetidos à revascularização coronariana.
Os participantes foram randomizados na proporção 1:1 para receber ou não tratamento com betabloqueadores, sendo recomendados metoprolol, bisoprolol, carvedilol ou nebivolol, conforme a prática clínica habitual. O acompanhamento foi realizado por meio dos registros nacionais de saúde dos dois países, com mediana de seguimento de 3,5 anos.
O desfecho primário foi composto por morte por qualquer causa ou ocorrência de eventos cardiovasculares adversos maiores, incluindo novo infarto do miocárdio, revascularização coronariana não planejada, acidente vascular cerebral isquêmico, insuficiência cardíaca ou arritmias ventriculares malignas.
Ao longo do acompanhamento, o uso de betabloqueadores foi associado a uma redução significativa do desfecho primário. Eventos cardiovasculares maiores ou morte ocorreram em 14,2% dos pacientes do grupo betabloqueador, em comparação com 16,3% daqueles que não receberam a terapia (HR 0,85; IC95% 0,75-0,98; p=0,03).
O principal fator responsável por esse benefício foi a menor incidência de reinfarto, observada em 5,0% e 6,7% dos pacientes dos grupos betabloqueador e controle, respectivamente (HR 0,73; IC95% 0,59-0,92). Por outro lado, não foram identificadas diferenças significativas entre os grupos em relação à mortalidade por todas as causas, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral isquêmico, arritmias ventriculares malignas ou necessidade de revascularização coronariana não planejada.
A adesão ao tratamento permaneceu elevada durante o estudo, e os resultados foram consistentes em diferentes subgrupos de pacientes. Além disso, uma análise restrita aos primeiros 12 meses após a randomização mostrou benefício semelhante ao observado na análise principal. Não foram observadas diferenças relevantes entre os grupos quanto à ocorrência de eventos adversos graves ou desfechos de segurança.
Em síntese, entre pacientes com infarto agudo do miocárdio, fração de ejeção ventricular esquerda preservada ou levemente reduzida e ausência de insuficiência cardíaca, o uso prolongado de betabloqueadores esteve associado a uma redução do risco de morte ou eventos cardiovasculares maiores, benefício impulsionado principalmente pela menor incidência de reinfarto. Os achados sugeriram que essa estratégia permanece clinicamente relevante para a prevenção secundária nessa população, mesmo na era das terapias modernas de reperfusão e do tratamento cardiovascular contemporâneo.